SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O Conpresp (conselho municipal de preservação do patrimônio) aprovou nesta segunda-feira (8) um projeto da Urbia, concessionária responsável pelo Ibirapuera, para criar uma área para exercícios como musculação e crossfit em uma antiga serraria que está no local desde antes da inauguração do parque.
O espaço, integrado ao paisagismo projetado por Roberto Burle Marx (1909-1994), é habitualmente frequentado por adeptos do ioga, tai chi chuan e outras práticas corporais meditativas.
Representantes do Conselho Gestor do Ibirapuera e associações de representantes de bairro criticam a proposta sob o argumento de que a intervenção irá descaracterizar a paisagem e a finalidade contemplativa da área. O resultado da votação resultou em protestos.
Já a Urbia argumenta que a exploração comercial garantirá recursos para restauro e preservação do pavilhão, sem alterar características fundamentais.
A construção dos anos 1930 é remanescente de uma oficina de bondes desativada que nos anos 1990 foi integrada a uma praça projetada pelo paisagista. A localização da estrutura de mais de cem metros de comprimento e pé-direito de mais de dez metros é um ponto central do debate no Conpresp.
Enquanto a Urbia defende que a utilização da estrutura não interfere no tombamento histórico do Ibirapuera, pois a presença do prédio no local antecede a construção do parque, nos anos 1950, grupos contrários alegam que Burle Marx colocou a serraria como elemento central da praça, valorizando o projeto paisagístico original de Otávio Augusto Teixeira Mendes (1907-1988).
Como a estrutura é sustentada por colunas sem fechamento que formam 14 vãos-livres, a integração visual e física entre os dois lados da praça Burle Marx é completa. O projeto da Urbia prevê o fechamento com vidros de pouco mais da metade desse espaço, além de revestir dois dos vãos com um madeiramento para a construção de vestiários.
Outro ponto sensível seria a instalação de uma laje, criando assim um mezanino onde seriam instalados equipamentos de academia. Essa intervenção afetaria uma característica estética particular do espaço porque a ausência de uma laje cria uma vista livre das tesouras de madeira que sustentam o seu telhado de duas águas.
Em uma das pontas da estrutura está suspenso, próximo ao teto, um guindaste ou ponte rolante com capacidade de içamento de 15 toneladas possivelmente utilizado no passado para erguer bondes ou madeira.
A Urbia afirma que manterá livre a vista para esse equipamento, pois o mezanino ocupará 86% da extensão do prédio. Também haverá uma abertura de 11 metros no centro, onde será instalada uma escada.
A intervenção que tire a possibilidade de transposição física completa descaracteriza completamente o projeto de Burle Marx.
Permeando a discussão sobre o patrimônio está a exploração comercial de áreas do parque, recurso amplamente utilizado pela Urbia para viabilizar as intervenções que realiza no local desde que ganhou a concessão de exploração por 35 anos em 2020.
A proposta da concessionária para a nova área voltada a bem-estar e atividades físicas é que o local seja explorado por uma empresa privada, que poderá exigir algum tipo de relação comercial para dar acesso ao local para frequentadores.
Samuel Lloyd, diretor da Urbia, reafirmou durante a reunião desta segunda que o projeto resultará em restauro e preservação do patrimônio.
Ele também argumenta que críticos não estão avaliando o projeto, mas sim a própria concessão do parque. “A discussão não é o projeto, é a concessão. Essas pessoas são contrárias a um modelo”, disse. “O projeto da serraria não apaga o passado, ao contrário, cria condições para que continue a existir no futuro.”


