SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Tiê está lançando o álbum de estúdio “Esgotada”. Ou, para ser mais exato, a primeira metade de seu novo disco. Porque “Amorosa” deve dar as caras nas plataformas digitais em agosto. Os dois são partes do mesmo projeto.

“De repente, vi que eu tinha música demais. Como é que iria lançar 15 de uma vez só? Ninguém vai ouvir tudo isso. E separar em dois discos foi bom até para pagar tudo. É uma produção independente, como pagar 15 masterizações?”, conta Tiê, que deixou a gravadora Warner após um contrato de dez anos.

Não houve proposta definida para a divisão, seja temática ou estética. Juntos, os discos são uma única fornada de canções. Foram escritas ou garimpadas depois da turnê “Cartas de Amor,” de 2023, na qual Tiê cantou hits seus e clássicos da MPB.

“Esgotada” é o disco de estúdio que sucede “Gaya”, de 2017, mas isso deixando de lado “Eu Te Amo”, gravado em 2022 pela Fogo Fera, projeto de Tiê em parceria com o produtor e multi-instrumentista Adriano Cintra.

As oito faixas de “Esgotada” escancaram uma caraterística forte do trabalho dela —usar as lembranças como matriz de suas canções. Separações estão na maior parte das letras, e é curioso ver que Tiê fala de momentos tristes ou tensos de uma maneira suave, carinhosa, deixando raiva e ressentimento fora das canções.

“Sim, eu alivio o passado. Sei lá, talvez uma tentativa de sofrer menos no presente. Eu sou aquela que já sofre muito por antecipação. Se for sofrer pelo que já passou, aí é demais”, diz Tiê.

“Acho que pode ter também uma coisa maternal. A maternidade traz isso. Se você não esquecer a dor de ter filho, você não faz outro, né? É uma loucura fazer bebês, todo o trabalho que dá. Acho que é isso, tentar levar a vida para a frente de um jeito leve.”

Tiê é mãe de duas adolescentes e da pequena Rosa, que nasceu depois de dois abortos espontâneos. “Muitas amigas passaram por isso, mas pouco se fala do luto gestacional. Agora estão começando a falar. Bom, depois do primeiro aborto acho que pela primeira vez na vida fiquei ‘deprê’. Aí comecei a questionar a carreira.”

Ela diz que criou a turnê “Cartas de Amor” como estratégia de sobrevivência. Rosa nasceu três meses antes do primeiro show. Todas as viagens foram feitas com a bebê a tiracolo. “Antes de completar um ano, ela já tinha feito 46 viagens de avião.”

A turnê acendeu a vontade para fazer um disco, que a princípio se chamaria “Amorosa”, por causa da influência de ter escutado João Gilberto cantando “Amoroso”. “Eu cantava gritado. Quando ouvi ‘Amoroso’ no vinil, vi que queria sussurrar também.”

Tiê concorda com quem opina que ela tem uma voz de acalanto. Mesmo em letras intensas, que não faltam em “Esgotada”, ela tem uma delicadeza vocal inegável. “Eu entendi isso. Tem artista que vem educar, outro que vem para entreter, e eu vim para acolher.”

Mas o trabalho no disco, com André Whoong, músico, produtor e pai de Rosa, demorou a deslanchar. Morando juntos e trabalhando em parceria, às vezes eles eram atrapalhados por alguma demanda familiar. Então recorreram a um produtor “de fora”.

No caso, Tó Brandileone, integrante do grupo Cinco a Seco, e as coisas andaram. Ele e Whoong dividiram a condução do trabalho e, já na fase de gravar vozes, Marcus Preto entrou como um terceiro produtor. E o resultado é um álbum que transita pela memória, pela passagem do tempo.

A faixa de abertura, “Minha História”, tem esse título autoexplicativo, de revisão da vida, e a canção que encerra o disco, “Tempo pra Mim”, pode ser entendida como uma viagem à infância. Há no álbum canções poderosas, mostrando Tiê aparentemente fortalecida após o freio que aplicou por um período a seu trabalho autoral.

O curioso é que a canção mais atraente da safra, escolhida como primeiro single, lembra um pouco o grande hit de Tiê, “A Noite”, e não foi ela que escreveu. “Ainda” é de Adriano Cintra e Bárbara Ohana. “Quando ouvi, disse ao Adriano: essa música foi feita pra mim!”. E ganhou popularidade antes mesmo da finalização do disco, quando Tiê apresentou “Ainda” no programa de Marcos Mion.

Há outras letras de peso, como “Altar” e “Tanto Faz”. E ela faz um dueto com Adriana Calcanhotto em “Atitude”, conversa entre amigas com a alta dose de papo coloquial que marca também as letras de Tiê.

Essas canções já estão na estrada, num show que traz alguma coisa de “Amorosa” e hits como “A Noite” e “Amuleto”. E tudo tem cara nova, porque Tiê se arrisca pela primeira vez em um show com recursos cênicos, teatro mesmo, num cenário que é a planta baixa de uma casa.

Quem conduziu a cantora no palco foi Vinícius Calderoni, também do Cinco a Seco. “Fomos inventando a cena do banho, a cena da penteadeira.”

O roteiro é guiado por trechos gravados em áudio, interligando as músicas, e Tiê diz que o recurso veio porque ela achou que teria dificuldade para memorizar as falas. “Eu não poderia virar atriz em três semanas, então gravamos áudios que conduzem o show, como se fossem mensagens de celular.”

ESGOTADA

– Autoria Tiê

– Onde ouvir Nas plataformas digitais