SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) – Quando ficam isolados em fragmentos de floresta, sem acesso fácil aos rios, lagos e charcos onde muitos deles se reproduzem, os anfíbios da mata atlântica se tornam mais vulneráveis a um fungo letal, que tem provocado extinções desses animais mundo afora.

O cenário preocupante, traçado por uma equipe internacional de cientistas, indica que os bichos em habitats mais isolados têm menos chances de adquirir micróbios “do bem”, cuja presença contrabalança a ação matadora do fungo Batrachochytrium dendrobatidis (ou Bd, para encurtar).

Análises indicam que os anfíbios cuja mobilidade fica mais restrita têm uma diversidade menor de micro-organismos em sua pele. Isso significa menos competidores e inimigos do Bd nessa parte sensível do organismo dos animais, permitindo que o invasor se multiplique com mais facilidade.

“Até o momento, os nossos dados indicam que determinadas bactérias é que conferem a proteção contra o fungo”, disse à reportagem o professor Célio Haddad, do Departamento de Biodiversidade da Unesp de Rio Claro, interior paulista. Segundo ele, também não se pode descartar que a microbiota (comunidade de micro-organismos) mais diversa de alguns dos anfíbios esteja fortalecendo o sistema de defesa do corpo deles para enfrentar invasões, embora essa possibilidade ainda não tenha sido testada.

Haddad é um dos coautores de um estudo sobre o tema publicado em abril deste ano na revista científica PNAS. No trabalho, liderado por Daniel Medina, da Universidade do Estado da Pensilvânia (EUA), a equipe analisou amostras da microbiota da pele de centenas de anfíbios de quatro espécies diferentes. Todos os bichos são habitantes da mata atlântica paulista, em localidades como Cotia, a serra do Japi, o Parque Estadual Intervales e São Luiz do Paraitinga.

A maioria das áreas de mata atlântica sofre com a chamada fragmentação florestal, ou seja, a divisão da mata, antes contínua, em pedaços relativamente pequenos, com baixa conectividade entre si. As áreas florestais que sobraram viram ilhas num mar de lavouras, pasto e regiões urbanizadas.

Isso já é problemático para espécies que dependem apenas do ambiente da mata, mas muitos anfíbios sofrem com um desafio duplo: eles também podem ficar isolados dos corpos d’água onde se reproduzem, nos quais seus ovos eclodem e seus girinos crescem. Antes, a mata continuava até os rios e lagoas, mas agora os dois tipos de habitat estão separados.

Isso tende a se refletir nos micróbios que vivem em associação com o organismo dos animais. Já que eles têm menos oportunidades para se deslocar entre um ambiente e outro, a tendência é que a comunidade de bactérias que habita, por exemplo, a pele deles seja menos diversificada.

Ao buscarem a água para botar seus ovos, os bichos podem se contaminar com o fungo Bd, e, com um “repertório” menor de micróbios parceiros, diminui a chance de que algum dos micro-organismos produza substâncias antifúngicas capazes de barrar ou minimizar a ação do Bd. É um processo similar ao de certas infecções do sistema digestório: pessoas com flora intestinal prejudicada podem ficar mais vulneráveis a elas.

A infecção pelo fungo pode ter efeitos sérios sobre a saúde dos anfíbios. Por afetar a pele, o Bd tende a atrapalhar o equilíbrio do transporte de água e sais minerais da epiderme para o resto do organismo, o que, por sua vez, traz riscos de problemas cardíacos e morte.

Para o estudo, a equipe de cientistas escolheu quatro espécies. O sapo-martelo (Boana faber) e a Rhinella ornata são bichos que dependem da água para a reprodução, enquanto a rãzinha-do-folhiço Ischnocnema henselii e o Haddadus binotatus são espécies que deixam seus ovos no próprio chão da mata, sem usar rios ou lagoas nessa fase de seu ciclo de vida. A ideia era justamente comparar o efeito dos “estilos” reprodutivos e da presença ou falta de conexão com a água sobre a microbiota e a resistência ao Bd.

Conforme a equipe esperava, o grau de separação entre os habitats –ou seja, o nível de dificuldade para que as espécies conseguissem chegar aos corpos d’água depois da sair da floresta mostrou uma correlação significativa com uma microbiota mais vulnerável. Ou seja, quanto maior a distância entre a mata e a água nos locais estudados, maior era a chance de que os bichos não contassem com um “escudo” microbiano contra o fungo letal.

Curiosamente, porém, a espécie mais acossada pelo Bd na pesquisa foi a rãzinha-do-folhiço, que tem desenvolvimento direto (sem girinos que nadam n’água), complicando um pouco o quadro.

“Essa espécie não depende de conexão entre o fragmento florestal e os ambientes aquáticos para a reprodução, mas nosso estudo mostrou que essa restrição ao fragmento e falta de conexão com ambientes aquáticos também restringe o contato dela com as bactérias que formam um microbioma saudável e que permitem maior resistência a patógenos”, explica Haddad.

O pesquisador diz que os efeitos do fungo nos anfíbios do país já devem ter causado extinções e declínios populacionais.

“Por exemplo, algumas espécies endêmicas do alto do Parque Nacional do Itatiaia desapareceram no final dos anos 1970”, conta. “Eu estudo os anfíbios desde 1980 e posso afirmar que as noites no Brasil eram muito mais animadas pelo coaxar dos sapos e rãs. É bastante provável que muitas espécies brasileiras de anfíbios tenham sido extintas antes de serem descritas”, diz ele, destacando o uso irresponsável de agrotóxicos e o desmatamento desenfreado como causas, ao lado das doenças infecciosas.

Um caminho para que as espécies voltem a obter suas defesas microbianas naturais é recriar as conexões entre a mata e as áreas aquáticas, por meio do reflorestamento estratégico.