SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – É algo singular que o vigoroso espetáculo musical “Nossa História com Chico Buarque”, que encerra, nesta sexta (28), uma curta temporada em São Paulo, transporte para o palco um enredo com foco em duas famílias. É possível estabelecer uma conexão entre a ambientação da peça com a presença da música de Chico nas casas dos brasileiros.

“Não sendo uma biografia do Chico, tínhamos de ter uma história”, diz o diretor Rafael Gomes, que criou o musical com Vinicius Calderoni. “É uma saga familiar, com as gerações se sucedendo. Foi assim que a música de Chico chegou para mim. Tenho 49 anos. Minha avó escutava, meu pai escutava. Não tenho filhos, mas, se tivesse, eles certamente escutariam Chico.”

O curioso é que, de certa forma, a popularidade que Chico Buarque tem hoje, numa comparação com outros ídolos da MPB que completaram 80 anos há pouco tempo, é “familiar” também. Gerações mais jovens o conheceram em casa, com pais e avós. “Indo além, acho que isso se dá de pessoa para pessoa. O adolescente conhece em casa e aí passa para um amigo, um namorado ou uma namorada”, diz Gomes.

O diretor destaca como Gilberto Gil e Caetano Veloso seguiram outros caminhos para estabelecer contato. “O Gil faz turnê com os filhos. O Caetano está sempre aparecendo, fazendo Instagram, trabalhando com músicos mais jovens. O Chico não. Tem a vida dele, é o jeito dele, quieto. O que eu observo, claro que não é uma coisa estatística, é que a continuidade na música do Chico pelas gerações é um processo boca a boca.”

“Para mim isso é um sintoma da solidez da obra”, diz Calderoni. “O Chico é alguém que não se esforça para se inserir como um artista ‘atual’, ele é reservado em todos os níveis. Sua música é quase uma tradição oral, no sentido em que os pais querem que os filhos escutem e dizem a eles que aquilo é uma coisa grandiosa que a nossa cultura produziu.”

Os espectadores de várias gerações reconhecem a maioria das mais de 50 canções executadas ao vivo, com uma banda e as vozes de atores como Laila Garin, Felipe Frazão, Heloisa Jorge e Artur Volpi. A ação é dividida em três períodos históricos: 1968, no recrudescimento da ditadura militar; 1989, tendo a volta da eleição para presidente como marco da redemocratização; e 2022, final do governo Bolsonaro num cenário de pandemia.

Gomes ressalta que o espetáculo não é um show, mas uma peça, com sustentação dramatúrgica. As músicas não interrompem a representação dos atores. O enredo, guiado por décadas pelo romance de Beatriz e Carolina, incorpora as canções como parte dos diálogos. Os autores reconhecem que Chico favorece esse trabalho. Apesar de ser um letrista sofisticado, o compositor é extremamente coloquial em seus versos.

Há uma cena em que um casal se separa. Ela canta os versos de “Trocando em Miúdos”. Ele canta “Sobre Todas as Coisas”. O diálogo está pronto nas letras originais, não há necessidade de mudar uma vírgula do que Chico escreveu nessas canções. Para Calderoni, a obra do compositor é um arsenal quase infinito de ferramentas emocionais.

“Toda a cartela de cores das emoções está representada. Praticamente não existe nenhuma situação arquetípica que você não vai encontrar de alguma forma nas músicas de Chico.” Ele reafirma que criaram uma obra para homenagear Chico, usando suas canções, mas não é um show. “É uma peça que conta uma história. A dramaturgia precisa avançar no palco. A escolha das canções estava sempre subordinada a essa necessidade.”

Calderoni lembra que o parceiro insistiu muito na fuga da obviedade. Ele cita uma de suas canções favoritas, “Futuros Amantes”, que poderia ter simbolizado o romance entre Beatriz e Carolina. “Em alguma medida, ela sintetiza, é um mapa da história de amor que elas vivem. Mas colocar as duas cantando seria um pouco como contar a piada, elas iriam cantar aquilo que o público já está vendo.”

Essa sutileza na utilização das músicas fez com que a dupla modificasse constantemente a montagem. Até entre a temporada carioca, no ano passado, e a estreia da temporada paulista, algumas coisas mudaram. Rafael Gomes fala também sobre o efeito do tempo sobre as canções.

“A obra do Chico está passeando pela vida das pessoas há muito tempo. As pessoas mudam. Por exemplo, estava definido desde o início que ‘Olhos nos Olhos’ seria cantada por um personagem gay. Um homem cantando para outro homem. Socialmente e culturalmente, está na cabeça de todo mundo como uma canção que a mulher canta para o homem. Eu queria quebrar essa heteronormatividade.”

Chico Buarque deu autorização plena para que a dupla criasse o musical. Mas ele não conseguiu assistir durante a temporada carioca, precisou se ausentar do Brasil na época.

A empolgação da plateia, que aplaude fervorosamente e chega quase a uma catarse no ato final, que mescla um pouco as épocas do enredo, certamente iria agradar ao artista, que recentemente gravou uma participação no álbum “Sentido”, do grupo Cinco a Seco, do qual Calderoni faz parte. Chico canta na faixa “Comédia de Erros”, num lance que ajuda a romper a imagem do gênio recluso.

NOSSA HISTÓRIA COM CHICO BUARQUE

– Quando Qua. a sex., às 20h. Até sex. (28)

– Onde Sesc Pinheiros – r. Pais Leme, 195, São Paulo

– Preço R$ 70

– Classificação 14 anos

– Elenco Laila Garin, Heloisa Jorge, Artur Volpi

– Direção Rafael Gomes e Vinicius Calderoni