SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Sobre um pedaço de tecido consumido pelo tempo, pinceladas de tons e intensidades variadas se confundem umas com as outras. Do laranja vibrante que emerge do centro ao branco desgastado que denuncia a idade da pintura, são vestígios de trabalhos que dão origem a uma nova peça.

Coloridos, diversos e sem padrões necessariamente evidentes, os traços compõem o “Anônimo” de Caetano de Almeida. Foram quase três décadas limpando pincéis sobre a superfície do quadro, como revela o texto crítico do curador Mateus Nunes.

A interrupção de gestos artísticos encontra continuidade anos no futuro, projetada em outro molde e matéria. Tal suspensão, que determina outra forma de se interpretar as menores unidades de uma obra, define a individual do artista em cartaz na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.

“Se não fosse a minha boca grande, essa obra ainda seria anônima”, brinca Almeida sobre seu segredo, em ligação por telefone.

A apresentação de Nunes cita raízes italianas e uma recente viagem à Roma, em que o pintor se hospedou na emblemática Piazza dell’Orologio e viu o legado de “fantasmas” inscrito na arquitetura e artes da cidade.

Almeida diz que o calor intenso levava ao refúgio em filmes e livros, que o ajudaram a aprender italiano e inspiraram pinturas como “8 1/2”, homônima ao clássico de Federico Fellini. Como em “Roma” e “Pamphilj”, todos realizados em 2024, ele une quadrados e retângulos em uma espécie de mosaico, diferentes em tamanho, eixo e cor.

A relação entre os contornos sugere o encontro entre prédios, quartos, vielas e outros elementos de um centro urbano. É interessante observar como a mistura de formas menos ou mais preenchidas, até mesmo vazias, produz lacunas e rompe a exatidão da geometria.

“‘8 1/2’ é um fruto do acaso que veio dessa ideia de se sentir perdido pela cidade. Se sentir perdido pelos planos”, afirma Almeida. Ele explica que as obras surgem menos da tentativa de resgatar um passado familiar que da vontade de experimentar formatos, profundidades e outros aspectos.

“A realização de um artista é solitária. Eu passo um bom tempo no meu ateliê, olhando para uma parede branca. Me dedico como se fosse uma religião. Então receber respostas [do público] é sempre muito forte.”

Esse ideal de solidão também é notável em “Loggia”, peça constituída por uma estrutura imperfeita de tábuas de madeira mais ou menos afastadas umas das outras. Produzida com caixas de feira, ela apresenta um conjunto de vácuos, com espaçamentos fora de simetria, que esconde uma coloração rosa, impressa suavemente sobre a parede.

“Por mais que os quadros gritem, permanecemos invisíveis. A arte é uma forma de se colocar no espaço. Ainda que existam os brilhos, parece que ninguém mais nos vê”, afirma Almeida.

Outro trabalho que manipula a visibilidade é “Algicida”. A sobreposição de diferentes camadas, que exigiram longos quatro anos, retrata o fundo de uma piscina distorcido pela refração da luz. A coloração esverdeada escurece conforme o mergulho e dificulta a cristalinidade dos corpos d’água.

Com outras regras, a exposição “Recalque”, do colombiano Gabriel Sierra, questiona a materialidade dos objetos e bases aplicados na arte. Em outra sala da galeria, um projetor exibe, em looping, a gravação de outro projetor, igualmente ininterrupto.

Existe um senso de repetição e esgotamento dessas imagens que repensa a própria natureza da reprodução visual, intermediária entre as palavras e os modos de representar o mundo.

“O mundo não precisa de mais imagens, mas ainda assim as criamos sem razão aparente. Letras podem ser feitas para significar qualquer coisa. Acredito que o mesmo pode acontecer com as imagens”, diz Sierra.

Ele cita o olhar como fio condutor da mostra. Outro exemplo é uma fotografia, sem título, em que emoldura um olho humano entre duas silhuetas. O artista tenta estabelecer uma troca: da mesma forma que observamos as peças, a impressão é que elas nos veriam de volta.

Essa duplicidade também é evidente em obras como “Telhado Rebelde”, mesmo que de outra maneira. Ao montar pedaços de um telhado, Sierra junta pedaços de terracota e vidro para entrelaçar superfícies opacas e transparentes.

Em “Le Creuset”, por sua vez, ele funde um fragmento de pirita, porosa e de terminações imprecisas, a uma panela de ferro fundido. É como se oposição entre estados questionasse o que uma ideia, imagem ou objeto é capaz de reunir.

“A palavra ‘Recalque’ pode ter muitos significados. Em espanhol, se refere à ação de repetir algo várias vezes. Em português, à falha estrutural de um edifício causada pelo assentamento do solo. Não tenho interesse apenas no significado das palavras, mas na vibração da pronúncia e no eco que permanece à cabeça após ouvi-las.”

CAETANO DE ALMEIDA

– Quando Seg. a sex., das 10h às 19h; Sáb., das 10h às 17h; Até 15/3

– Onde Galeria Luisa Strina – r. Padre João Manuel, 755, São Paulo

– Preço Grátis

– Classificação Não indicada

GABRIEL SIERRA – RECALQUE

– Quando Seg. a sex., das 10h às 19h; Sáb., das 10h às 17h; Até 15/3

– Onde Galeria Luisa Strina – r. Padre João Manuel, 755, São Paulo

– Preço Grátis

– Classificação Não indicada