LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) – “Drill, Lula, drill!” A provocação foi feita no site do Observatório do Clima, rede que congrega 130 organizações ambientalistas do Brasil. Ela remete à frase repetida exaustivamente por Donald Trump durante a campanha eleitoral, “drill, baby, drill” (perfure, baby, perfure), com a qual o americano defende, na contramão do combate às mudanças climáticas, um aumento na exploração de combustíveis fósseis.

A comparação entre Lula (PT) e Trump foi uma crítica à declaração que o presidente brasileiro deu no último dia 12 a uma rádio de Macapá. Lula disse: “O Ibama é um órgão do governo e está parecendo que é um órgão contra o governo”.

Lula criticava pareceres do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) -um órgão de Estado, não do governo- contrários à prospecção de petróleo num bloco localizado na Bacia Foz do Amazonas. De forma depreciativa, o presidente adjetivou o estudo técnico do Ibama de “lenga-lenga”.

“O que estamos vendo em relação ao Ibama é quase um assédio”, diz Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima. “A perfuração do bloco 59 da bacia sedimentar da foz do Amazonas é uma narrativa criada para abrir a porteira e liberar outros blocos cuja licença já foi negada anteriormente.”

Araújo se refere aos blocos 57, 86, 88, 125 e 127 -cujo licenciamento foi negado, com base em estudos técnicos, quando ela própria era presidente do Ibama, de 2016 a 2018, durante o governo de Michel Temer (MDB).

“Tudo o que não gostaríamos era ver um paralelo entre Lula e Trump”, diz Carolina Pasquali, diretora-executiva do Greenpeace Brasil.

“Lula colocou Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente e se comprometeu com a agenda internacional de combate às mudanças climáticas. Trump vem bagunçando esse tabuleiro, abrindo caminho para os que sempre foram a favor dos combustíveis fósseis, mas não queriam se manifestar. A postura do governo brasileiro deveria ser oposta a isso.”

Suely Araújo e Carolina Pasquali consideram um risco a exploração de petróleo na Bacia Foz do Amazonas pela carência de estudos prévios sobre a região. De acordo com elas, as complexas correntes marítimas que dificultam a navegação por ali ainda não estão devidamente mapeadas, o que gera dúvidas sobre a extensão de um acidente com vazamento.

Faltam também estudos sobre a vastíssima biodiversidade da região, que inclui uma barreira de corais e manguezais que não existem em outros lugares do país.

A Petrobras, por sua vez, diz que o plano apresentado ao Ibama é seguro. A presidente da empresa, Magda Chambriard, defende a capacidade de realizar o projeto sem danos ambientais. “Sendo possível a licença, teremos no Amapá o melhor aparato de resposta a emergência já visto no mundo”, afirmou no último dia 17.

Pasquali, falta também uma discussão aprofundada e abrangente sobre o tema, que inclua estudiosos e a sociedade civil brasileira.

“Esse debate tem duas camadas. Existem questões técnicas e questões que têm a ver com o caminho que queremos para o país”, diz. “Nós e outras organizações que estudam o assunto gostaríamos de estar junto com a Petrobras, ajudando a construir um futuro sustentável, não apartadas do debate.”

Está em jogo também um possível papel de liderança do Brasil numa área em que o país tem relevância internacional: a da transição para a energia limpa.

“Trump provavelmente vai ser seguido por outros países”, afirma Araújo. “O que eu acho contraditório, no caso do Brasil, é que entre as grandes economias do mundo nós estamos numa posição vantajosa, com matriz energética limpa e melhorando os índices de desmatamento.”

Para ela, “em vez de liderar o mundo na descarbonização, estamos optando pela carbonização do setor da energia” num contexto de calor recorde e após tragédias no país, como as enchentes no Rio Grande do Sul e duas secas enormes na Amazônia em 2023 e 2024.

Lula defende que não há contradição. Para o presidente, o país precisa explorar mais petróleo para poder financiar a sua transição energética.

Na visão de Pasquali, a COP30, conferência da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre mudanças climáticas que ocorrerá em Belém em novembro, pode ter um papel chave nessa discussão.

“A COP30 pode ser importante porque os países que vão contra a onda do Trump, que querem ainda fazer alguma coisa contra a mudança climática, esperam que o Brasil exerça algum tipo de liderança nesse sentido”, diz. “Por isso é essencial preservar instituições de Estado tão importantes quanto o Ibama, que foi sucateado no governo anterior e vem-se recuperando aos poucos, fazendo um ótimo trabalho.”

Dois dias depois de sua entrevista na rádio de Macapá, Lula foi a Belém anunciar os investimentos que o governo federal vem fazendo para a COP30. Enfrentou protestos de vários grupos ambientais. A Ascema (Associação dos Servidores Especialistas em Meio Ambiente) soltou uma nota em que defende um “serviço público independente”, que atue com base na “ciência e legalidade”.

Ao longo da última semana foi exibido nas redes sociais um vídeo de Lula de agosto passado, durante um evento em Curitiba. As imagens mostram o presidente brasileiro vestindo um macacão laranja da Petrobras. Ele se emociona às lágrimas quando fala do orgulho que sente ao trajar a indumentária.

“Acreditamos que a Petrobras pode ser uma empresa da qual a gente realmente possa se orgulhar, comprometida com um futuro de energia limpa”, avalia Carolina Pasquali.

Nos Estados Unidos, o “drill, baby, drill” de Trump inspirou um slogan ambientalista, “spill, baby, spill” (vaza, baby, vaza), em referência aos vários desastres ecológicos provocados por acidentes na exploração de petróleo no mar. Uma campanha com palavras de ordem do gênero -ou mesmo um paralelo com Donald Trump– é tudo o que Lula não precisa no ano em que o Brasil será anfitrião da conferência do clima.