Retatrutida apresentou resultados expressivos em estudo de fase 3, com redução do peso corporal e melhora dos níveis de glicose em pessoas com diabetes tipo 2 e obesidade
Um novo medicamento desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, apresentou resultados expressivos no tratamento de pessoas com diabetes tipo 2 e obesidade. A retatrutida levou participantes de um estudo clínico a perderem, em média, até 23,4% do peso corporal em determinados grupos.
Os resultados fazem parte do estudo de fase 3 TRIUMPH-2 e foram apresentados durante a 62ª Reunião Anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD), realizada em Milão, na Itália. Os dados também foram publicados simultaneamente na revista científica The Lancet.
A pesquisa avaliou diferentes doses da retatrutida e analisou tanto a redução do peso quanto o controle da glicemia. O medicamento ainda está em desenvolvimento e não recebeu autorização para comercialização.
Perda de peso
Entre os participantes que receberam doses de 4 mg, 9 mg e 12 mg, a redução média de peso foi de 13,5 kg, 20,6 kg e 22,5 kg, respectivamente. Em termos percentuais, esses resultados correspondem a perdas médias de 12,7%, 19,1% e 20,8%.
Entre as pessoas que começaram o estudo com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 35, considerado obesidade grau II ou obesidade grave, a dose de 12 mg levou a uma perda média de 27,5 kg, equivalente a 23,4% do peso corporal.
Ao final da pesquisa, 59,5% dos participantes desse grupo que receberam a maior dose já não se enquadravam nos critérios de IMC utilizados para definir obesidade.
Os resultados chamam atenção quando comparados aos obtidos anteriormente com a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro. Em estudos de fase 3, adultos com obesidade apresentaram perda média de 19,5% do peso com 10 mg e de 20,9% com 15 mg.
Controle do diabetes
Além da perda de peso, a retatrutida apresentou efeitos sobre o controle da glicose no sangue.
Os participantes que receberam 9 mg tiveram uma redução média de 1,6 ponto percentual na hemoglobina glicada (A1C). Na dose de 12 mg, a redução média foi de 1,5 ponto percentual, enquanto a dose de 4 mg apresentou queda média de 1,4 ponto percentual.
Segundo os resultados divulgados, até 40% dos participantes chegaram a níveis de hemoglobina glicada considerados dentro da faixa normal.
A A1C é utilizada para acompanhar a média dos níveis de glicose no sangue ao longo dos últimos meses e é um dos principais indicadores usados no acompanhamento do diabetes.
Outros indicadores de saúde
O estudo também identificou mudanças em alguns fatores associados ao risco cardiovascular.
Na dose mais elevada, a retatrutida proporcionou redução média de 39,5% nos triglicerídeos e de 19,6% no colesterol não HDL. A pressão arterial sistólica caiu, em média, 10,8 mmHg.
Também foram observadas reduções na circunferência abdominal, com queda média de 16,9 centímetros, e na proteína C-reativa de alta sensibilidade, marcador relacionado a processos inflamatórios.
Os pesquisadores destacam que a combinação entre redução de peso e melhora dos indicadores metabólicos pode ser relevante para pessoas que apresentam simultaneamente diabetes tipo 2 e obesidade.
Efeitos colaterais
Os efeitos adversos mais frequentes registrados durante o estudo foram relacionados ao sistema gastrointestinal. Entre eles estavam diarreia, náusea, constipação, redução do apetite e vômitos.
Também foram registrados casos de disestesia, alteração da sensibilidade que pode provocar sensações desconfortáveis ou dolorosas na pele, além de infecções do trato urinário.
De acordo com os dados apresentados, esses eventos foram, em geral, classificados como leves ou moderados e, na maioria dos casos, desapareceram durante o tratamento.
Como funciona a retatrutida?
A retatrutida pertence a uma nova geração de medicamentos voltados ao tratamento da obesidade e de alterações metabólicas. A principal diferença em relação aos medicamentos mais conhecidos atualmente está na quantidade de mecanismos hormonais sobre os quais a substância atua.
O Ozempic e o Wegovy, por exemplo, utilizam a semaglutida, que imita a ação do GLP-1, hormônio envolvido no controle da glicose e da saciedade.
Já o Mounjaro utiliza a tirzepatida, que atua simultaneamente sobre os receptores de GLP-1 e GIP.
A retatrutida amplia esse mecanismo e atua sobre três vias: GLP-1, GIP e glucagon. Por isso, é classificada como um agonista triplo.
O GLP-1 contribui para o controle da glicemia e para o aumento da sensação de saciedade. O GIP também participa da regulação metabólica, enquanto o glucagon está relacionado ao metabolismo energético e à utilização de reservas de gordura.
Medicamento ainda não está disponível
Apesar dos resultados obtidos nos testes clínicos, a retatrutida ainda não está disponível para uso comercial. O medicamento continua em desenvolvimento pela Eli Lilly e precisa passar pelas etapas regulatórias antes de chegar ao mercado.
A farmacêutica informou que pretende solicitar à Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, a aprovação do medicamento no primeiro trimestre de 2027.
Até que haja aprovação dos órgãos reguladores, os resultados dos estudos não significam que a retatrutida possa ser utilizada como tratamento disponível para pacientes.
A expectativa em torno da substância está relacionada justamente ao seu potencial de combinar uma perda significativa de peso com melhora do controle da glicemia e de outros fatores metabólicos em pessoas que convivem com diabetes tipo 2 e obesidade.







