SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Elize Matsunaga não é assunto novo ao público ou às telinhas. Desde o crime de 2012, a figura da técnica de enfermagem se tornou objeto de curiosidade nacional, se transformando em livro, documentário, série e, mais recentemente, no filme “Elize: Sombras de uma Mulher”, uma versão ficcional inspirada no caso.
A obra da Netflix acompanha Elize após conhecer o empresário Marcos Matsunaga, herdeiro da empresa alimentícia Yoki, e mostra a rotina do casal até o crime de 20 de maio de 2012. Lorena Comparato e Henrique Kimura dão vida aos protagonistas, interpretando Elize e Marcos.
Com o lançamento do longa, o interesse pelo caso cresceu novamente, não se restringindo às fronteiras nacionais. Segundo dados do Google Trends, as buscas por “Elize Matsunaga” atingiram picos históricos em países como México, Reino Unido e Canadá
A professora do Instituto de Psicologia da USP Aline Souza Martins diz que “esse é um fenômeno que não acontece só no Brasil. Em vários países, existem histórias em torno desses crimes que viram crimes midiáticos”.
A pesquisadora diz que, no caso de Elize, a brutalidade do crime, normalmente associada à figura masculina, é o que desperta o interesse do público por subverter a ideia do que se espera desse tipo de um caso. “É uma história que também tem a ver com uma violência doméstica. Geralmente, a mulher é a vítima da violência e, nesse caso, você tem uma mulher que exerce uma agressividade muito grande dentro do relacionamento.”
“Isso significa que a agressividade natural das pessoas, e que muitas pessoas reprimem para poder viver em sociedade, encontra uma satisfação através de uma sublimação desse sentimento agressivo no que elas estão vendo do lado de fora”, afirma ela.
O que deve ser tomado com cuidado é, no entanto, a suavização da brutalidade desses acontecimentos, segundo a pesquisadora. Ela diz que especialmente nas redes sociais protagonistas de crimes acabam ganhando uma camada de romantização. Sem perceber, a satirização dessas figuras acaba diminuindo o impacto das brutalidades cometidas a uma mera narrativa distante, desconsiderando a repercussão na vida dos envolvidos.
No caso de Elize, isso se traduz em posts com milhares de curtidas, nos quais a detenta é descrita como “diva” e “ícone”. Em outros conteúdos, internautas fazem piadas sobre o esquartejamento de Marcos.
Esse fenômeno não se restringe a ela. Outras mulheres famosas do sistema criminal brasileiro, como Flordelis e Suzane von Richthofen, também compartilham do mesmo tratamento.
Esse fascínio pelos crimes ou por histórias de crimes reais não é novidade ou exclusivo das redes sociais, diz Carol Moreira, apresentadora do podcast de true crime Modus Operandi.
A produção ocupa o primeiro lugar na categoria true crime em podcasts, segundo o Spotify, e acumula mais de 170 mil seguidores no Instagram. Outros canais de crimes reais, como o Quinta Misteriosa, de Jaqueline Guerreiro, e Café com Crime, pioneiro na categoria no Brasil e focado em crimes nacionais, também fazem sucesso entre o público.
“A violência está presente nas nossas vidas e as pessoas acabam falando sobre isso como forma de se proteger”, explica Moreira.
Segundo a apresentadora, esse comportamento de personificação e memeficação de criminosos busca abrandar a agressividade dos casos. “As pessoas iam à praça pública ver gente ser desmembrada. A Elize é uma coisa longe, uma mulher que matou o marido. Agora, se foi a sua mãe que matou o marido? Como você iria lidar? É muito diferente quando a história é próxima de você.”







