Da Redação

Medicamentos podem ser indicados em situações específicas, mas uso indiscriminado durante a infância e adolescência pode afetar crescimento, desenvolvimento e saúde emocional

O aumento do uso das chamadas “canetas emagrecedoras” entre crianças e adolescentes tem preocupado especialistas. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alerta que medicamentos dessa categoria não devem ser utilizados com finalidade puramente estética ou sem avaliação médica, já que podem provocar efeitos adversos e interferir no desenvolvimento dos jovens.

Os medicamentos conhecidos como agonistas do receptor GLP-1 atuam sobre mecanismos hormonais e metabólicos do organismo. Alguns princípios ativos podem fazer parte do tratamento de doenças como obesidade e diabetes tipo 2, inclusive entre adolescentes que atendam a critérios específicos. Entretanto, a indicação para pacientes pediátricos exige cuidados diferentes daqueles adotados em adultos.

A pediatra Caroline Teles Ferreira, integrante da SBP, explica que crianças e adolescentes estão em uma fase de crescimento e desenvolvimento e, por isso, não podem ser tratados simplesmente como adultos de menor tamanho. Antes de qualquer prescrição, é necessário analisar de maneira ampla as condições de saúde do paciente.

Entre os aspectos que devem ser considerados estão a evolução do crescimento, o Índice de Massa Corporal (IMC) adequado à idade, estágio da puberdade, composição corporal, alimentação, prática de atividades físicas, qualidade do sono, saúde emocional, histórico familiar e presença de outras doenças.

Uso por motivos estéticos preocupa especialistas

Um dos principais alertas é para jovens que buscam esses medicamentos apenas para perder alguns quilos ou alcançar determinado padrão estético.

Segundo Caroline, as canetas podem ser ferramentas importantes quando utilizadas dentro das indicações aprovadas para cada medicamento. Isso não significa, porém, que devam ser usadas para emagrecer rapidamente antes de uma festa, viagem ou competição, por exemplo.

A especialista destaca ainda a necessidade de compreender o contexto por trás do desejo de emagrecer. Insatisfação corporal ou sobrepeso isolado não significam automaticamente que exista indicação para tratamento medicamentoso.

Quando a utilização é considerada necessária, a medicação deve integrar um tratamento mais amplo, envolvendo alimentação adequada, exercícios físicos, sono de qualidade e acompanhamento multiprofissional.

Náuseas, vômitos e desidratação estão entre os riscos

Os efeitos colaterais mais comuns são relacionados ao sistema gastrointestinal. Pacientes podem apresentar náuseas, vômitos, desconforto ou dores abdominais, refluxo, diarreia e constipação.

Quando esses sintomas são intensos, a ingestão de alimentos e líquidos pode cair consideravelmente, aumentando o risco de desidratação e alterações no equilíbrio de eletrólitos do organismo.

Há ainda complicações menos frequentes, mas consideradas potencialmente graves, como pancreatite aguda, cálculos biliares e inflamação da vesícula biliar.

Também existe possibilidade de hipoglicemia em determinadas situações, especialmente quando o paciente utiliza simultaneamente outros medicamentos destinados ao controle do diabetes.

A SBP também alerta contra produtos de origem desconhecida ou sem registro sanitário. A recomendação inclui evitar medicamentos clandestinos e versões importadas sem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Perda de massa muscular também merece atenção

Outro ponto importante é que a redução do peso corporal não significa necessariamente que o paciente esteja eliminando apenas gordura.

Crianças e adolescentes podem perder massa muscular durante o processo, principalmente quando o efeito da medicação provoca uma diminuição muito acentuada na quantidade de alimentos consumidos.

A restrição alimentar pode resultar em consumo insuficiente de proteínas, vitaminas, minerais e calorias justamente em uma etapa da vida marcada por elevada necessidade nutricional.

Esses nutrientes são fundamentais para a formação da massa óssea e muscular, funcionamento adequado do organismo, desenvolvimento cerebral e progressão saudável da puberdade.

Por esse motivo, especialistas ressaltam que o acompanhamento não deve se limitar ao número apresentado pela balança.

Crescimento deve ser acompanhado durante tratamento

Quando existe indicação para o uso das medicações, médicos precisam acompanhar fatores como altura, velocidade de crescimento, IMC adequado à idade, composição corporal, desenvolvimento puberal, alimentação e preservação da massa muscular.

Sintomas gastrointestinais e exames laboratoriais também podem precisar ser monitorados dependendo do quadro apresentado.

O objetivo do tratamento da obesidade durante a infância e adolescência deve ser melhorar a saúde e reduzir riscos associados à doença, e não promover uma perda acelerada de peso. Um emagrecimento excessivamente rápido pode trazer consequências negativas justamente porque o organismo ainda está em desenvolvimento.

A decisão também deve considerar eventuais comorbidades. Hipertensão, diabetes, alterações metabólicas, colesterol elevado e doenças hepáticas estão entre os fatores que podem ser avaliados.

Tratamentos realizados anteriormente, condições emocionais e a possibilidade de a família manter acompanhamento regular com médicos e outros profissionais também entram nessa análise.

Pais devem observar mudanças físicas e comportamentais

Nos casos em que crianças ou adolescentes utilizam esses medicamentos sob indicação médica, pais e responsáveis devem acompanhar possíveis efeitos adversos.

Náuseas leves podem ocorrer especialmente no começo do tratamento ou após aumento da dose. No entanto, episódios persistentes de vômito, dificuldade para comer ou beber, fraqueza intensa, tontura, desmaios e sinais de desidratação devem ser comunicados ao médico.

Dor abdominal forte e persistente, sobretudo acompanhada de vômitos, também precisa de avaliação por poder estar associada a complicações pancreáticas ou na vesícula.

Tremores, suor excessivo, confusão, sonolência intensa e perda de consciência podem indicar queda importante da glicose, principalmente entre pacientes que fazem uso de outros medicamentos contra o diabetes.

Além dos sintomas físicos, mudanças comportamentais também merecem atenção. Perda acelerada de peso, diminuição perceptível da musculatura, medo de comer, recusa alimentar, preocupação excessiva com calorias, necessidade constante de se pesar, isolamento social e alterações na relação com o próprio corpo podem indicar problemas que precisam ser investigados.

Redes sociais ampliam pressão por padrões estéticos

A influência das redes sociais é outro fator destacado pelos especialistas. Durante a adolescência, período marcado pela construção da identidade e da percepção sobre o próprio corpo, a exposição constante a padrões estéticos pode intensificar comparações e insatisfações.

Fotos com filtros, corpos idealizados, dietas restritivas, procedimentos estéticos e relatos de emagrecimento rápido fazem parte dos conteúdos consumidos diariamente por muitos jovens.

O problema é que publicações sobre canetas emagrecedoras nem sempre apresentam informações sobre contraindicações, efeitos colaterais ou necessidade de acompanhamento profissional. Com isso, medicamentos desenvolvidos para o tratamento de doenças podem passar a ser vistos como produtos destinados simplesmente à estética.

Para a pediatra, a discussão com crianças e adolescentes precisa abordar não apenas peso, mas também autoestima, alimentação saudável, diversidade corporal e saúde emocional.

A orientação da SBP não é tratar as canetas emagrecedoras como medicamentos que jamais devem ser utilizados por jovens. Algumas delas podem ter papel importante no tratamento quando existe indicação clínica. O alerta é contra a banalização e o uso sem acompanhamento.

Em crianças e adolescentes, medicamentos para obesidade devem ser utilizados somente após avaliação individualizada e dentro de um plano terapêutico adequado, e não como uma alternativa rápida para atingir padrões estéticos.