PARATY, RJ (FOLHAPRESS) – Elegante e desenvolta, a britânica Zadie Smith fez jus às altas expectativas em torno da sua primeira participação na Festa Literária Internacional de Paraty. Quando a Flip nasceu, em 2003, ela já estava escrevendo seu nome na história da literatura –agora, escreve mais um capítulo relevante na história da Flip.

Mediadora da mesa da noite deste sábado, a pesquisadora Juliana Borges começou perguntando o efeito que alcançar o sucesso tão jovem –hoje Zadie tem 49 anos de idade– teve no restante de sua obra.

“Autores sempre escrevem os mesmos livros de novo e de novo. E isso não me importa, ver as mesmas coisas de diferentes ângulos. ‘Dentes Brancos’ me deu uma enorme liberdade. O fato de que o livro ainda vende me permite escrever novos livros malucos e volumes de ensaios sobre meu país e minha herança. Sinto gratidão pela menina que escreveu aquele livro, mas eu não sou mais ela.”

Zadie falou a maior parte de tempo com os olhos voltados para baixo, quase fechados abaixo de seu turbante –no meio da palestra, a equipe da Flip trocou seu fone de ouvido para um que acomodasse melhor o adereço, sob aplausos. Concentrada na elaboração de suas respostas firmes, a autora mostrou sua natureza ansiosa ao começar a comentar algumas perguntas mais longas antes mesmo de terminarem.

“Um dos temas dos meus romances é o limite do intelecto”, disse, diante de uma pergunta em torno de “Sobre a Beleza”, passado num ambiente acadêmico. “Conheço um monte de intelectuais estúpidos, eu mesma sou um deles. Se você não entende as emoções das pessoas, não consegue fazer política, por exemplo. Com o tempo você começa a entender que a universidade é um ótimo lugar, mas muito limitado.”

O assunto foi engatado depois que ela passou a explicar os gatilhos de “A Fraude”, seu romance mais recente e sua primeira trama ambientada em uma época mais antiga, a Inglaterra do século 19. O texto faz ficção sobre um julgamento real de um homem carismático, que começou a angariar um séquito de fãs no tribunal mesmo quando estava claro que ele devia ser considerado culpado.

“Para as pessoas que o apoiaram, não é ele o culpado, mas o sistema”, afirmou a escritora, dizendo que o assunto a ajudou a se educar em como funciona o populismo. “As pessoas ainda acham que O.J. Simpson [atleta que foi condenado por matar a mulher] era inocente, e eu não entendia isso até passar um bom tempo nos Estados Unidos. A Justiça nunca funciona para os pobres, e então parece corrupta para eles. Querem ganhar uma vez ao menos.”

“Você pode pensar para chegar à ideia de Justiça, mas a sensibilidade e a generosidade são atributos importantes para isso. E não são assuntos intelectuais, mas do coração.”

Outro bom momento da conversa foi quando Borges trouxe um ensaio famoso de Zadie sobre a escolha de vestimenta das mulheres intelectuais. A britânica lembrou uma frase da escritora Virginia Woolf em que ela dizia que “com todo o tempo que passei diante do espelho, poderia ter aprendido grego”.

“É misógina a ideia de que uma mulher bonita não pode ser uma boa intelectual”, afirmou Zadie. “Porque é como se, ao nascer com beleza, você já tivesse todo o capital social de que precisa.”

A entrevista também explorou a maneira como a autora enxerga a militância política na arte, e ela disse não ser fundamentalmente contra a ideia de que a literatura possa argumentar em defesa de algo. Mas precisa ser mais que isso.

“As personagens têm que viver, respirar, é assim que funciona a ficção. Não tenho desejo de escrever um livro que diga ‘você notou que nós em classes baixas somos pessoas?’. Meus personagens não estão discursando, tentando convencer um estranho. Eles estão vivendo em seus próprios mundos.”