RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Antes de viver a mulher responsável por um dos assassinatos mais chocantes da história recente do Brasil, Lorena Comparato, 36, fez o que qualquer fã de true crime faria: devorou tudo o que encontrou sobre Elize Matsunaga, a mulher que foi condenada em 2012 por ter matado e esquartejado o marido, o empresário Marcos Matsunaga, herdeiro da Yoki.
Mas ao contrário do público, ela precisava deixar a indignação de lado para fazer bem o seu trabalho. “Se eu entrasse em cena sentindo repulsa, não conseguiria contar essa história”, diz a atriz. Para interpretar a protagonista de “Elize: Sombras de Uma Mulher”, da Netflix, mergulhou em laudos, documentários, entrevistas e ensaios até transformar o caso policial em um desafio de atuação.
Lorena queria tanto interpretá-la que apareceu no teste usando peruca loira e figurinos que representavam diferentes fases de Elize. Não queria apenas disputar um papel; queria convencer que era capaz de sustentar uma personagem que ainda provoca fascínio, revolta e debates mais de uma década depois do crime.
O esforço deu resultado. Hoje, ela define o longa como um ponto de virada na carreira. “É um trabalho extremamente desafiador e visceral”.
Mas quem espera encontrar uma atriz seduzida pelo sensacionalismo vai se frustrar. Lorena insiste que seu trabalho nunca foi defender nem condenar Elize, e sim entender a complexidade humana por trás de um crime tão brutal.
Em vez de transformar a personagem em uma vilã de novela ou em vítima absoluta de uma sociedade, preferiu tentar ficar num meio-termo entre as duas versões. “O que me interessa é mexer com os dilemas éticos de quem assiste”, diz.
Para construir a Elize do filme, a atriz estudou anatomia, pole dance, enfermagem, caçou detalhes em processos e assistiu algumas vezes ao documentário sobre a criminosa (na Netflix).
Não chegou a procurar Elize pessoalmente (ela deixou a prisão em maio de 2022). Preferiu manter distância da figura real e confiar no extenso material de pesquisa e no roteiro de Raphael Montes e Mariana Torres.
Se houve um momento em que o peso da história ultrapassou qualquer preparação, foi na gravação da cena do esquartejamento. “Foi pesado, tenso e extremamente técnico”, diz, sobre o clima no set. Entre uma tomada e outra, havia também espaço para um ritual particular para tentar proteger a própria saúde mental, com sessões de terapia. Enquanto interpreta uma das figuras mais controversas do noticiário policial brasileiro, Lorena trava outra batalha, bem menos sangrenta, mas espinhosa. Ela usa sua voz para lutar contra quem insiste em rotular os artistas do audiovisual.
“O mercado muitas vezes insiste em colocar os atores em gavetas e caixinhas. Se você faz muita comédia ou populariza sua imagem, às vezes precisa provar duas vezes mais que tem capacidade para encarar um drama denso”, afirma.
Ela continua: “Existe também um gargalo histórico com o protagonismo feminino e com o espaço para mulheres criarem, escreverem e produzirem suas próprias histórias com o mesmo orçamento e liberdade dados aos homens”, afirma. Para ela, o caminho é justamente o oposto: transitar entre humor, ação e drama sem aceitar rótulos.
Essa inquietação também explica por que decidiu produzir os próprios projetos. “Hoje eu não me vejo apenas esperando o telefone tocar com um convite. Produzir, para mim, é tomar as rédeas da minha própria narrativa e dar espaço para outras mulheres brilharem em cena e no roteiro”, diz.
Ao lado das parceiras da Cia de 4, coletivo que mantém há quase 15 anos, Lorena desenvolve séries, filmes e peças com a ambição de ampliar esse espaço criativo.
Lorena nunca emplacou uma novela, mas não por falta de vontade. “Eu quero muito, há anos. Sou encantada com esse formato de contar histórias tão brasileiro e com esse contato direto com o público diariamente. O motivo de não me verem direto em novelas é puramente uma questão de oportunidades e, às vezes, de agenda”, explica.
Segundo ela, os últimos anos foram ocupados por séries e longas para o streaming e o cinema, projetos que exigem cronogramas incompatíveis com o de uma produção longa como a de uma novela.
Fora das câmeras, a atriz vive um relacionamento à distância. O namorado, Arthur, mora nos Estados Unidos, e atua como advogado especializado em entretenimento e imigração. “A única coisa que incomoda é a saudade. Exige muita maturidade, diálogo, parceria e combinados claros. Quando existe amor, confiança e vontade de fazer dar certo, a distância vira só um detalhe”, afirma.
Foi também graças ao escritório dele que Lorena conseguiu o visto americano de trabalho, passo que espera transformar em uma porta de entrada para a carreira internacional.
Enquanto isso, Lorena segue repetindo o mantra de Rihanna. “Work, work, work”, brinca, ao listar a estreia de Elize, novas temporadas de Impuros, projetos autorais, festivais de cinema e produções que ainda não pode revelar. Se depender dela, interpretar uma das personagens mais controversas do país será apenas mais um capítulo de uma carreira construída justamente para fugir do óbvio.



