SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O governo do estado de São Paulo suspendeu a contratação de novos empréstimos consignados de servidores com o Banco Digimais. A medida ocorreu logo após a deflagração da Operação Miragem, da Polícia Federal, que apura crimes contra o sistema financeiro na instituição do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da RecordTV.
A suspensão cautelar foi informada na edição de 29 de junho no Diário Oficial do Estado de São Paulo, em decisão assinada por Caio Paes de Andrade, secretário de gestão e governo da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos). O banco estava credenciado junto ao governo paulista desde 2025.
Procurado, o Digimais disse que não iria se manifestar.
O banco também tem contrato com a prefeitura de São Paulo, que se manteve após a Operação Miragem.
“A Secretaria Municipal de Gestão informa que o Banco Digimais consta do rol de instituições financeiras consignatárias, dentre 57 cadastradas na Prefeitura de São Paulo, todas atendendo os termos da legislação vigente. No caso do Digimais, respondendo por menos de 3% das consignações em folha de pagamento dos servidores públicos”, disse a prefeitura.
Em 23 de junho, a Polícia Federal cumpriu nove mandados de busca e apreensão contra diretores, conselheiros e empresas ligadas ao banco. A Justiça Federal em São Paulo autorizou o bloqueio de bens de até R$ 670 milhões e a quebra de sigilo bancário e fiscal dos alvos.
As investigações da PF apontam suspeitas de que os envolvidos no esquema do Digimais teriam manipulado demonstrativos contábeis e registros para ocultar a real situação financeira da instituição. O objetivo era mostrar boa saúde financeira diante dos órgãos de controle para conseguir viabilizar operações irregulares.
A representação da PF que embasou as apurações, que está sob sigilo, ainda afirma que o “Digimais, sob o controle de Edir Macedo, adotou práticas financeiras temerárias e estreitamente análogas às do extinto Banco Master”, em referência à instituição controlada por Daniel Vorcaro antes de sua liquidação pelo Banco Central em novembro de 2025.
Por meio de sua assessoria de imprensa, o Banco Digimais disse que permanece à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos e colaborar com as apurações em curso.
“A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes”, disse.
Procurado, o bispo Edir Macedo não retornou à reportagem.
CONSIGNADO É QUASE METADE DA CARTEIRA
Segundo dados de março de 2026, informados pelo banco e divulgados pela plataforma IF Data do Banco Central, o Digimais tinha R$ 1,6 bilhão emprestados a pessoas físicas, dos quais R$ 701 milhões (mais de 40%) eram em consignação em folha de pagamento.
O banco também disse ter R$ 10 bilhões em ativos totais e teve um prejuízo de R$ 108,4 milhões no primeiro trimestre deste ano. No ano passado, o balanço apontou lucro líquido de R$ 31 milhões.
Há anos o banco enfrenta deterioração financeira, e Edir Macedo precisou injetar recursos na instituição, ao passo que começou a tentar vendê-lo. O estresse financeiro se refletiu na alta rentabilidade dos CDBs (Certificados de Depósito Bancário) oferecidos pelo Digimais, que chegou a 130% do CDI, acima da média do mercado.
Como mostrou a Folha de S. Paulo, o banco recebeu um aporte do Grupo Record e tem hoje cerca de R$ 2 bilhões em caixa. O reforço financeiro foi feito pela controladora, a Digimais Participações, que é uma empresa da B.A. Empreendimentos Participações. A holding pertence ao Grupo Record.
O depósito foi feito com CDBs do próprio controlador e outra parcela captada no mercado por meio desses títulos.
O aporte faz parte das negociações com o FGC (Fundo Garantidor de Crédito) para a venda do banco. Um novo aporte poderá ser feito pelo controlador enquanto a negociação com o BTG Pactual não se define. As duas instituições financeiras fecharam um acordo de intenção de compra em abril deste ano.
O banco de André Esteves informou que a transação continua dependendo do lançamento de um processo competitivo e da declaração da sua proposta como vencedora -condições que não foram verificadas até agora, segundo o BTG.
Uma regra recente do FGC prevê a realização de um leilão para uma operação de salvamento de uma instituição financeira que precise de socorro. O preço do leilão é definido por quem oferecer a maior economia para o FGC. A ideia da regra é minimizar os custos para o fundo no caso de uma eventual quebra de um banco.
O BTG analisou as condições do Digimais e fez uma oferta de referência com seus termos e condições. O certame ainda não aconteceu. Segundo pessoas a par do tema, entre as condições colocadas está a necessidade de um aporte maior a ser feito pelo bispo Macedo.
RAIO-X | Digimais no 1º tri de 2026
Fundação: 1981
Prejuízo líquido: R$ 108,355 milhões
Patrimônio líquido: R$ 804 milhões
Concorrentes: Santander, Bradesco, Itaú, Banco do Brasil, Nubank


