BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – Incêndios florestais consumiram mais de 72 mil hectares na Espanha neste ano. Em meio a uma temporada de ondas de calor e seca, é um número expressivo, mas ainda abaixo da média anual do país de 95 mil hectares. Na França, neste ano, as chamas consumiram mais de 41 mil hectares; a média anual, porém, não chega a 15 mil.
Os números do serviço Copernicus, que monitora os efeitos da mudança climática na União Europeia, espelham a gravidade das queimadas no território francês neste ano, marcado pela onda de calor mais severa da história do continente, em junho.
Uma seca que atravessa o continente, da Espanha aos países bálticos, castigando vias fluviais importantes, como a do Reno, na Alemanha, apenas piora a situação das queimadas. Após milhares de mortes em excesso e recordes de temperatura no mês passado, a França viu uma das florestas mais populares do país, a 60 quilômetros de Paris, arder nos últimos dias.
Com quase 23 mil hectares e mais de 15 milhões de visitantes por ano, a floresta de Fontainebleau perdeu 2.000 hectares em menos de uma semana. Duas reservas biológicas foram devastadas. A contabilidade dos estragos deve consumir meses.
Em entrevista ao Le Monde, a servidora pública responsável pela área lembrou de evento de proporção parecida apenas em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, quando os nazistas incendiaram a floresta em diversos pontos para expulsar combatentes da Resistência, que usavam a floresta como esconderijo.
A queimada deste ano também foi provocada. Um bombeiro voluntário foi preso e confessou ter iniciado um dos focos do incêndio. Outro suspeito confessou ter iniciado as chamas em outro ponto da floresta depois de ter inadvertidamente jogado uma bituca de cigarro em um matagal seco.
Não são casos isolados: 9 em 10 queimadas no país são provocadas, em atos deliberados ou descuidos.
Se na segunda onda de calor o número de mortes em excesso e a oferta de ar-condicionado animavam as disputas políticas, o que preocupa os políticos agora é o tamanho da frota de Canadairs, os aviões que recolhem água de rios e lagos para auxiliar no combate a incêndios florestais. Pela primeira vez operaram no rio Sena.
Na quinta-feira (16), Emmanuel Macron foi à região de Fontainebleau. O presidente francês ouviu dos responsáveis que, apenas em julho, 35 mil hectares queimaram na França.
Segundo cientistas, a mudança climática provocada sobretudo pela queima de petróleo, carvão e gás vem aumentando a frequência de ondas de calor na Europa. Estudo do World Weather Attribution (WWA) mostrou que os recordes de temperatura atingidos em junho no continente seriam impossíveis há 50 anos.
Somada à seca que assola o continente, o cenário propicia a ocorrência de incêndios, às vezes em circunstâncias violentas. Na Andaluzia, na véspera do último fim de semana, 13 pessoas, 12 delas turistas, morreram colhidas pelas chamas. Cerca de 7.000 hectares foram consumidos depois do rompimento de um cabo de energia.
“Não devemos apenas reagir quando esses incêndios acontecem, devemos também preveni-los”, declarou o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, durante visita à região. No ano passado, o país registrou 393 mil hectares de queimadas, a pior marca da história.
Nesta sexta-feira (17), o combate aos incêndios prosseguia em diversos pontos do país, inclusive nas cercanias de Madri. A situação mais crítica ocorre em Zaragoza, no nordeste espanhol, em que 12 mil hectares já foram queimados nesta estação. Além dos extremos climáticos, áreas rurais abandonadas concorrem para o problema no país.
Na Alemanha, os termômetros voltaram a subir acima de 30°C após os recordes do mês passado. A seca na região sul afeta a navegação fluvial, modal importante no país, afetando o preço de fretes e mercadorias. Em Munique, a prefeitura proibiu o consumo excessivo de água, o que inclui o uso de mangueiras, lavagem de carros e irrigação de gramados.
Análise publicada pelo jornal alemão Handelsblatt mostra que a economia local perde 948 milhões (R$ 5,48 bilhões) em cada dia de termômetros acima dos 35°C. Em junho, o prejuízo total teria sido de 6,32 bilhões (R$ 34,57 bilhões), notadamente no setor manufatureiro.
O assunto preocupa empresas e governo, pois a previsão é que a Alemanha passe a enfrentar de três a quatro ondas de calor dessa magnitude por ano. Ou, segundo o novo cálculo, 20 bilhões (R$ 113,7 bilhões) anuais de prejuízos.
A produção agrícola também sofre na Itália, onde a temperatura superou a marca dos 40°C em algumas regiões. Tudo isso antes do pico de calor do verão, que ocorre no fim de julho. Uma quarta onda de calor, a confirmar se severa como as anteriores, está prevista para a data.
Os eventos extremos neste ano na Europa, que, segundo especialistas, ainda não são influenciados pelo El Niño, provocaram até aqui 10.650 mortes em excesso no continente. Em Ilê-de-France, a região que engloba Paris, a mortalidade dobrou de 22 a 28 de junho; 82% dos mortos tinham 65 anos ou mais.
Nos últimos dias, duas pessoas na França e uma na Alemanha morreram em consequência de tempestades, efeito colateral esperado do forte calor.
O Imperial College, de Londres, e o Met Office, o serviço de meteorologia britânico, estimam que ao menos 42% desses óbitos são consequência direta do aquecimento global.


