ANDRÉ FONTENELLE
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Quanto custa assistir a um jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo? A resposta é: entre R$ 4.000 e R$ 14 mil. A reportagem acompanhou nos últimos meses grupos de WhatsApp onde cambistas e torcedores se comunicam e, com a ajuda da inteligência artificial, analisou milhares de ofertas de compra e venda de ingressos para os cinco jogos da seleção até agora. Os preços oscilaram entre US$ 800 (cerca de R$ 4,2 mil), para Brasil x Haiti, e US$ 2.700 (cerca de R$ 14 mil), para Brasil x Noruega.
O cálculo levou em conta 1.428 ofertas de ingressos das quatro categorias disponibilizadas pela Fifa (da 1, mais perto do campo, à 4, mais distante), e não inclui entradas do tipo hospitality (camarotes), ainda mais caras.
O gráfico desta reportagem mostra a evolução dos preços pedidos pelos cambistas, de 40 dias antes (D-40) até o dia do jogo (D). Uma análise das linhas mostra que paga menos caro quem compra o ingresso com boa antecedência, quando a procura ainda é menor, ou muito em cima da hora, quando os cambistas tentam não “morrer” com ingressos na mão.
Na média, dentre as quatro partidas já disputadas pela seleção, a mais cara foi Brasil x Escócia, talvez por ter ocorrido em Miami, onde há grande comunidade brasileira. Nos outros três confrontos, os ingressos chegaram ao dia do jogo cotados em torno de US$ 1.500, ou R$ 7.800.
Nesta Copa, ingressos para jogos menos importantes estão cotados a valores que em edições passadas só eram cobrados na final. Em 2022, no Qatar, cambistas pediam US$ 2.500 (R$ 13 mil, em valores atuais) para a decisão entre Argentina e França. É uma Copa pelo menos umas oito vezes mais cara que a do Qatar, que já foi bem cara, queixa-se um torcedor brasileiro acostumado a ir a Mundiais negociando ingressos com cambistas.
Os grupos onde cambistas negociam ingressos são tão antigos quanto o WhatsApp. Já existiam na Copa de 2014, no Brasil. Este ano, porém, enfrentam uma concorrência inesperada: da própria Fifa. A entidade adotou neste Mundial a “precificação dinâmica”, permitindo pela primeira vez que torcedores comprem e revendam ingressos em seu site pelo preço que quiserem oferecer. Nas Copas anteriores, só era possível a revenda pelo valor original do ingresso.
Quem entrasse no site da Fifa nesta quinta-feira (2) encontraria ingressos para Brasil x Noruega a partir de US$ 2.012,50 (cerca de R$ 10,5 mil) -o valor de face do bilhete era US$ 260, ou R$ 1.400. Ou seja, um ágio de 674%. Para a final, o ingresso mais barato encontrado pela reportagem no site da Fifa estava a US$ 12.966,48 (cerca de R$ 67 mil). O valor original era de US$ 2.000: ágio de 548%.
A Fifa leva 15% de comissão a cada venda.Para um torcedor brasileiro ouvido pela reportagem, isso fez a Fifa operar como se fosse um site de venda e revenda de ingressos para shows e eventos esportivos.
Cambistas brasileiros que atuam no mercado paralelo há várias Copas do Mundo relatam estar sofrendo com o sistema adotado pela Fifa. “A loucura que está isso aí é fora do comum”, conta um cambista mineiro que pediu para não ser identificado. “US$ 2.000, US$ 3.000, ninguém conseguiu comprar nada.”
Um problema constante enfrentado pelos torcedores brasileiros que recorrem aos cambistas é o risco de golpes. Nos grupos de WhatsApp são comuns as denúncias de contas que negociam ingressos que não entregam. Usuários compartilham informações denunciando supostos vigaristas.
Outros juram que, com sangue-frio, é possível conseguir na porta do estádio entradas por US$ 200 (cerca de R$ 1.040). Alguns conseguem ingressos junto a pessoas que revendem cortesias recebidas de cartolas e patrocinadores, o que é, em tese, proibido.
São frequentes também as queixas sobre a exorbitância dos valores cobrados. Nos grupos, atribui-se à elitização o comportamento visivelmente apático da torcida brasileira nas arquibancadas deste mundial. “É uma Copa para ricos mesmo. Torcedor comum não tem como assistir”, conclui o torcedor brasileiro veterano.
Procurada, a Fifa remeteu a comunicados divulgados antes da Copa. “Na Fifa, temos o compromisso de garantir acesso justo aos torcedores, tanto atuais quanto potenciais, e oferecemos ingressos para a fase de grupos a partir de apenas US$ 60”, diz um deles.
A entidade lembrou que o sistema está alinhado com “os padrões da indústria nos setores de esportes e entretenimento na América do Norte”. E que o valor arrecadado é totalmente reinvestido nas 211 federações associadas.
Na coletiva de abertura da Copa, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, expôs a questão em termos diretos. “Se você vende a um preço muito menor, [os ingressos] teriam ido parar em mercados secundários a preços muito, muito, muito mais altos, e o dinheiro iria para quem organiza esses mercados, e não para o futebol.”
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