Da Redação
O uso das chamadas canetas emagrecedoras vem ganhando espaço na rede pública de saúde brasileira. Enquanto o Ministério da Saúde analisa a possibilidade de incorporar esses medicamentos ao Sistema Único de Saúde (SUS), estados como Goiás, Rio de Janeiro e o Distrito Federal já começaram a implementar programas específicos voltados ao tratamento da obesidade com medicamentos à base de semaglutida e outras substâncias da mesma classe.
A principal discussão ocorre na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), responsável por avaliar um novo pedido da farmacêutica Novo Nordisk para disponibilizar o medicamento Wegovy na rede pública. A proposta atual é direcionada a pacientes com obesidade que já sofreram infarto e apresentam alto risco cardiovascular.
O pedido representa uma nova tentativa após a rejeição ocorrida em 2025. Na ocasião, a Conitec considerou que a incorporação do medicamento para um público mais amplo poderia gerar impacto financeiro de até R$ 8 bilhões aos cofres públicos. Agora, a farmacêutica reformulou a proposta, restringindo o grupo de pacientes e ampliando o desconto oferecido ao governo. A estimativa é beneficiar cerca de 38 mil pessoas, com custo anual entre R$ 500 milhões e R$ 650 milhões.
Segundo a empresa, os preços sugeridos para fornecimento ao setor público variam de aproximadamente R$ 396 a R$ 764 por dose, valores considerados significativamente inferiores aos praticados atualmente no mercado privado. A Conitec terá até 180 dias, prazo que pode ser prorrogado por mais 90, para concluir a análise técnica antes de encaminhar uma recomendação ao Ministério da Saúde.
Goiás já possui protocolo para tratamento
Enquanto a discussão nacional segue em andamento, Goiás já avançou na utilização dessas terapias. Em março deste ano, a Secretaria de Estado da Saúde aprovou um protocolo específico voltado para adolescentes e jovens entre 12 e 21 anos diagnosticados com obesidade.
O modelo adotado pelo estado prevê acompanhamento multiprofissional, incluindo suporte médico, nutricional e incentivo à prática de atividades físicas. Além disso, os pacientes precisam cumprir metas mínimas de perda de peso para continuar recebendo a medicação. Até o momento, centenas de pessoas já foram atendidas por meio do programa, inicialmente com medicamentos de geração anterior, enquanto a aquisição da semaglutida segue em processo de ampliação.
Rio de Janeiro lidera programa municipal
Entre os projetos já em andamento, o da Prefeitura do Rio de Janeiro é considerado o mais abrangente do país. A administração municipal firmou contrato para aquisição de até R$ 16 milhões em Wegovy ao longo dos próximos 12 meses, com capacidade para atender aproximadamente 3 mil pacientes por ano.
Atualmente, cerca de 50 pessoas participam de uma fase inicial do programa. Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde, mais de 90% dos participantes possuem diabetes associado à obesidade. Os primeiros resultados apontam que aproximadamente um terço dos pacientes já perdeu mais de 5% do peso corporal após três meses de tratamento.
Especialistas envolvidos no projeto ressaltam que os medicamentos não são considerados soluções isoladas. O tratamento é acompanhado por mudanças de hábitos, prática regular de exercícios físicos, acompanhamento psicológico e reeducação alimentar.
Distrito Federal prepara expansão
O Distrito Federal também se movimenta para incorporar as canetas emagrecedoras à rede pública. O governo local prepara a compra de aproximadamente 1,8 mil unidades do medicamento, em um investimento estimado em R$ 1,3 milhão. Os critérios para distribuição ainda estão sendo definidos por meio de protocolo clínico específico.
Ministério da Saúde acompanhará estudo com pacientes
Paralelamente à análise da Conitec, o Ministério da Saúde acompanhará um estudo clínico que será realizado pelo Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre. O projeto deve envolver cerca de 250 pacientes com obesidade grave, doenças cardiovasculares associadas ou indicação para cirurgia bariátrica.
O objetivo é avaliar a eficácia, a segurança e o impacto econômico do uso desses medicamentos dentro da realidade do SUS. A expectativa do governo é identificar se o tratamento pode reduzir filas para cirurgias bariátricas e diminuir complicações relacionadas à obesidade e ao diabetes.
Produção nacional pode reduzir custos
Além da possível incorporação ao SUS, o governo federal também busca ampliar a produção nacional desses medicamentos. A estratégia inclui o incentivo ao desenvolvimento de versões produzidas no Brasil e parcerias entre laboratórios públicos e privados para transferência de tecnologia.
A expectativa é que o aumento da concorrência contribua para a redução dos preços e facilite o acesso da população aos tratamentos. Ainda assim, especialistas alertam que as canetas emagrecedoras não substituem mudanças no estilo de vida e devem ser utilizadas apenas com acompanhamento médico adequado.




