SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo ofereceu denúncia contra a advogada e influenciadora Deolane Bezerra, o preso Marco Willian Herbas Camacho —o Marcola, líder máximo do PCC— e outras quatro pessoas sob acusação de crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro nesta quarta-feira (10).

A acusação é desdobramento da Operação Vérnix, realizada a partir de suspeitas de que uma transportadora de fachada era usada para lavar dinheiro do Primeiro Comando da Capital. A operação resultou na prisão de Deolane e de Everton de Souza, suspeito apontado como operador financeiro do esquema.

Um irmão e dois sobrinhos de Marcola —Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior e seus filhos, Leonardo Alexsander Ribeiro e Paloma Sanches— também foram denunciados. Cabe agora a Justiça decidir se aceita a denúncia, o que os tornaria réus no processo.

Em nota, a defesa de Deolane afirmou que ainda não teve acesso à peça da acusação e que “lamenta a divulgação antecipada da denúncia da imprensa”. Os advogados Josimary Vilhena, Luiz Ricardo Imparato e Rogério Nunes afirmaram que ela “não faz parte de nenhuma organização criminosa e tampouco cometeu qualquer crime, o que será provado ao longo do processo”.

O advogado Bruno Ferullo —que defende Marcola, seu irmão e os dois sobrinhos— afirmou que vai “demonstrar a fragilidade narrativa acusatória e a improcedência das imputações” contra seus clientes. Ele argumentou que tanto Marcola quanto Alejandro Juvenal estão presos e “submetidos a severas restrições de contato e comunicação, o que, por si só, torna inviável qualquer participação nos fatos investigados”.

Afirmou também que Leonardo Alexsander e Paloma “refutam integralmente” as acusações e que “serão apresentados os esclarecimentos e as provas pertinentes acerca da origem e da regularidade das operações apontadas” na investigação.

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, responsável pela denúncia, disse à época que há uma relação direta e íntima entre Deolane e a família de Marcola.

A investigação apontou que a influenciadora forneceu contas bancárias para a lavagem de dinheiro do grupo criminoso, o que é negado por sua defesa. Um dos indícios de atividade criminosa, segundo ele, é um aumento repentino do patrimônio dela, com ganhos superiores a R$ 140 milhões de 2020 a 2022.

O promotor diz considerar que está praticamente comprovada a incompatibilidade entre as atividades profissionais de Deolane e seus ganhos financeiros. A proximidade de Deolane seria maior com Paloma. A polícia tentou prendê-la na Espanha em maio, mas ela não foi localizada e passou a ser considerada foragida.

Investigação começou em 2019 com apreensão de bilhetes

A investigação começou em 2019, quando bilhetes foram apreendidos pela Polícia Penal em uma penitenciária de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, com dois presos.

Segundo a polícia, a análise do material apreendido possibilitou a identificação de ordens internas do PCC, contatos com integrantes da alta hierarquia e menções a atos violentos contra servidores públicos.

Um dos trechos analisados mencionava uma “mulher da transportadora” que teria sido responsável pela informação de endereços de agentes públicos alvos de ataques planejados.

Um segundo inquérito procurou identificar quem é essa mulher e qual a relação dela com a transportadora do PCC. Os investigadores chegaram a uma empresa de transportes de Presidente Venceslau que seria usada para lavagem de dinheiro.

Deolane, segundo as investigações, chegou a abrir 35 empresas num mesmo endereço residencial. Os estabelecimentos, todos fictícios segundo as autoridades, criavam uma espécie de teia de movimentação financeira que dificultava a rastreabilidade dos recursos.

TRANSPORTADORA MOVIMENTOU R$ 20 MILHÕES

Ainda segundo a investigação, a transportadora, apesar de estar no nome do casal Ciro e Elidiane, foi criada pelo próprio PCC e é dirigida por Marcola e Alejandro. No período investigado, a transportadora movimentou mais de R$ 20 milhões, um valor considerado incompatível com as receitas declaradas.

O casal já foi condenado na Justiça e é considerado foragido. Segundo a polícia, estão escondidos na Bolívia e são alvos de mandados de prisão.

Marcola determinava as providências, traçava estratégias e estabelecia a divisão dos lucros da transportadora, diz o inquérito. As ordens eram transmitidas por terceiros. Seu irmão Alejandro dirigia a empresa e determinava a compra de caminhões.

Segundo a investigação, Paloma Camacho recebia as ordens do pai em visitas no sistema penitenciário federal e repassava a Ciro, segundo a polícia. Ela também controlava a parte do dinheiro que destinava ao pai e orientava a divisão e a transferência dos valores.

O irmão dela, Leonardo Camacho, seria um dos beneficiários da divisão dos lucros da facção. Ele recebia 30% dos valores por ordem do pai.