BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) – O rio Tietê ganhou uma nova forma de monitoramento, que deve ajudar em ações de fiscalização. Um projeto da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), iniciado neste ano, passou a monitorar alguns tipos de poluição no rio por meio de imagens de satélites.
Lançado nesta quarta-feira (10), o projeto está aberto para acesso e visualização do público. Cerca de 1.000 km do rio incluindo seu tributário, o rio Pinheiros e de seus reservatórios são mostrados em um mapa juntamente ao nível de poluição local, apresentado em forma de uma escala de cores.
Também estão presentes na plataforma algumas praias públicas, áreas de banho nas margens do rio como a praia de Sabino, no município de mesmo nome no interior paulista.
Ainda há um número limitado de praias disponíveis para verificação, mas o cardápio deve ser expandido em breve. O mesmo vale para outros trechos e reservatórios que ainda não constam na plataforma para acesso ao público.
O novo monitoramento é parte do programa IntegraTietê, lançado em 2023.
“Queremos despoluir o Tietê e ser transparentes, queremos que as pessoas acompanhem. É importante nesses projetos de despoluição que as pessoas voltem a ter orgulho do rio”, afirmou à Folha de S.Paulo Natália Resende, secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do estado de São Paulo. “Queremos que os paulistas tenham orgulho do Tietê, do Pinheiros, dos rios.”
Resende diz que o novo monitoramento é um dos programas prioritários no estado, parte dos esforços para despoluição e revitalização do rio Tietê, em conjunto com os investimentos em saneamento. “Guarulhos, segunda maior cidade de São Paulo, 1% [de tratamento de esgoto] em 2019. Franco da Rocha, Francisco Morato, também 0% em 2022 e agora índices que ultrapassam 65%. Guarulhos acabou o ano com 45%, vai chegar no final do ano 78%, universaliza tudo até 2029”, diz a secretária.
Além da disponibilização de informação sobre qualidade da água do rio para o público, um dos principais pontos do novo monitoramento é o auxílio a ações de fiscalização.
A resolução usada para monitorar o rio permite verificar em que pontos, por exemplo, há mudanças nos padrões normais de poluição e, a partir disso, detectar possíveis ligações clandestinas para despejo de efluentes no corpo d’água. É possível ainda comparar, levando em conta as diferenças lógicas, esse tipo de fiscalização ao que já existe na área de combate ao desmatamento com base em imagens de satélite.
Thomaz Miazaki de Toledo, diretor-presidente da Cetesb, afirma que a ferramenta amplia a cobertura de monitoramento e gera ganho de tempo. “Até então, temos uma rede de monitoramento e para cada ponto temos uma periodicidade no máximo mensal.”
Com o uso de satélites, o acompanhamento pode ser feito em um espaço de poucos dias.
Toledo afirma ainda que a ideia é que a equipe da Cetesb cadastre pontos de interesse no mapa como um lugar onde se saiba que há lançamento de efluentes tratados e que, com auxílio de IA (inteligência artificial), sejam gerados alertas caso haja mudanças significativas nas condições ambientais locais do rio observadas por satélite.
Toledo diz que o monitoramento em questão é uma inovação para a área. “Primeiro órgão ambiental que passa usar imagem para poluição de recursos hídricos”, afirma o diretor-presidente da Cetesb.
QUAL TIPO DE POLUIÇÃO É ALVO DO NOVO MONITORAMENTO?
Não é qualquer tipo de poluição que é detectada pelos satélites e pela IA que fazem parte do projeto.
Um dos braços de monitoramento olha, especificamente, para a chamada matéria orgânica dissolvida colorida. Em linhas gerais, os satélites podem identificar diferentes substâncias na água porque cada uma interage com a luz de forma específica. Ao analisar quais comprimentos de onda são absorvidos ou refletidos, é possível monitorar indicadores da qualidade da água em corpos d’água.
Paralelamente, haverá acompanhamento dos níveis de eutrofização processo em que um corpo d’água, por excesso de nutrientes, acaba com um crescimento maior do que o normal na população de algas. Segundo Toledo, o maior foco desse acompanhamento são os trechos médio e baixo do Tietê.
“Prejudica o uso, principalmente, turístico dos rios para balneabilidade, lazer e também, em alguns casos, piscicultura. E um terceiro uso que é para navegação do rio”, afirma Toledo.
Diferentes satélites são adotados no novo monitoramento da Cetesb. Estão presentes nas análises os Sentinel-2 usualmente citado quando falamos de detecção de desmatamento e o 3, que são utilizados especificamente para as áreas de reservatórios ligados ao Tietê, dado que a resolução de imagem disponível é melhor aplicada para áreas maiores.
Para o curso do rio propriamente dito são usadas imagens de satélite da Planet e algumas esporádicas da empresa Firefly, que possibilitam maiores detalhes na visualização e nas análises.
O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), responsável pelo monitoramento do desmatamento no país, é um dos parceiros da Cetesb na empreitada. Mais especificamente, existe um convênio entre a Cetesb e o Inpe para monitorar a eutrofização. O acordo, com duração prevista de 12 meses, entre as instituições envolve R$ 180 mil e o pagamento pela Cetesb de bolsistas para o Inpe.
Já a tecnologia de monitoramento de matéria orgânica dissolvida colorida foi desenvolvida pela empresa Orbit, de São José dos Campos (SP), sob contratação da Cetesb. É um contrato de 13 meses, com valor de pouco mais de R$ 1 milhão maior parte do valor teria sido para a compra das imagens de satélite.
Após o período contratado, já se pensa em como baratear a operação. “Vai ter continuidade, sim, só que talvez num outro modelo”, diz Toledo.
As reuniões para estruturação do projeto começaram no ano passado. Em fevereiro deste ano o monitoramento ficou pronto, de fato, para início de uso.
A ideia do novo monitoramento não é, porém, substituir a rede já existente da Cetesb. Segundo a companhia, há cerca de 550 pontos de monitoramento de poluição em rios e reservatórios, vários na própria bacia do Tietê.
“Essa tecnologia, que é algo que a gente quer que continue, é algo que a gente quer cada vez fortalecer mais, não só para o Tietê, mas para os outros corpos d’água do estado”, diz Resende.


