SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A PF (Polícia Federal) cumpriu mandados de busca e apreensão nesta segunda-feira (8) contra o desembargador Dirceu dos Santos, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, e o deputado estadual Faissal Calil (PL). A operação, autorizada pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), investiga um suposto esquema de comercialização de decisões judiciais.
A operação desta segunda não é um caso isolado. Desde os anos 2000, o Brasil assistiu a uma sucessão de grandes investigações federais que expuseram a venda de decisões nas cúpulas do Judiciário.
A decisão judicial deveria ser um ato estritamente técnico e baseado nas leis. Contudo, o alto impacto econômico e político estimula um mercado ilegal. Relembre outras investigações:
OPERAÇÃO SISAMNES 2026
A PGR (Procuradoria-Geral da República) apresentou ao STF, em 27 de maio, a primeira denúncia da Operação Sisamnes. A denúncia acusa nove pessoas, incluindo o lobista Andreson de Oliveira Gonçalves, ex-servidores e advogados, por operar um balcão de venda de minutas de votos e vazamento de dados no STJ (Superior Tribunal de Justiça) de 2019 a 2023. O caso, relatado pelo ministro Cristiano Zanin, começou a ser investigamento após o assassinato do advogado Roberto Zampieri em Cuiabá.
OPERAÇÃO INAUDITUS 2026
Em 1º de abril, a PF deflagrou a Operação Inauditus para cumprir 25 mandados de busca. A ação prendeu preventivamente o ex-assessor Lúcio Fernando Penha Ferreira, apontado como o operador financeiro que coordenava a venda de decisões e a manipulação na distribuição de processos no TJ-MA. A ação determinou o afastamento imediato dos desembargadores Antônio Pacheco Guerreiro Júnior e Luiz de França Belchior Silva sob suspeita de corrupção e organização criminosa. A PF apreendeu um helicóptero, joias e carros de luxo avaliados em R$ 13 milhões. Foram bloqueados R$ 50 milhões em bens dos investigados.
OPERAÇÃO ULTIMA RATIO 2024
A PF apontou suspeitas de corrupção contra desembargadores do TJ-MS, e cinco deles foram afastados pelo STJ em 2024. O ex-presidente da corte Sérgio Fernandes Martins reassumiu o cargo por ordem do ministro do STF Cristiano Zanin.
OPERAÇÃO 18 MINUTOS 2024
Deflagrada em agosto de 2024, a operação resultou no indiciamento dos desembargadores Nelma Sarney, Guerreiro Júnior e Luiz Gonzaga, além de dois juízes. A suspeita era de manipulação de processos do tribunal, com o intuito de obter vantagem financeira, e de fraude em decisões judiciais para desvio de recursos do Banco do Nordeste.
OPERAÇÃO FAROESTE 2019
A Operação Faroeste, deflagrada em 2019, atingiu 12 desembargadores e 12 juízes de primeira instância da Justiça da Bahia. O caso tramita no STJ e registrou a primeira delação premiada de um magistrado na história, feita pela desembargadora Sandra Inês Rusciolelli.
O caso trata da venda de decisões judiciais relacionadas a esquema de grilagem e disputa de terras no oeste da Bahia. Em maio de 2026, a Corte Especial do STJ aceitou mais uma denúncia do MPF no caso.
OPERAÇÃO EXPRESSO 150 2015
Conhecida também como Operação Plantão, a ação foi deflagrada pela PF em junho de 2015 para apurar um comércio de alvarás de soltura no TJ-CE voltado a liberar criminosos. O esquema era operado por advogados e intermediários que compravam as liminares por aplicativos de mensagens pelo valor padrão de R$ 150 mil durante plantões de fins de semana, o que resultou na aposentadoria compulsória dos desembargadores envolvidos. Em 2024, o MP-CE ingressou com recurso de apelação ao TJ-CE contra sentença de primeira instância, pedindo o aumento da pena de um ex-desembargador e de um advogado.
OPERAÇÃO ASAFE 2010
A PF deflagrou a Operação Asafe em maio de 2010. A ação envolvia uma rede de advogados, lobistas e magistrados suspeitos de fraudar julgamentos e vender decisões no Tribunal de Justiça e no TRE-MT (Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso). O objetivo seria influenciar litígios e manter prefeitos no cargo. Em novembro de 2015, o desembargador Evandro Stábile, ex-presidente do TRE-MT, recebeu pena de seis anos de reclusão em regime fechado por cobrar propina para manter o mandato da então prefeita de Alto Paraguai (MT). O CNJ aplicou punições de aposentadoria compulsória a outros envolvidos.
OPERAÇÃO NAUFRÁGIO 2008
A investigação de 2008 apurou uma rede de venda de decisões no TJ-ES (Tribunal de Justiça do Espírito Santo). O caso só teve a denúncia recebida pelo STJ em 2021. No julgamento do mérito, dez pessoas foram condenadas, com a maior pena aplicada ao advogado Paulo Guerra Duque, com 21 anos de prisão.
OPERAÇÃO TÊMIS 2007
A PF deflagrou a Operação Têmis em abril de 2007 para investigar a venda de decisões na Justiça Federal em São Paulo voltada a fraudes fiscais. A ação ocorreu após a delação do operador financeiro Lúcio Funaro, que afirmou que o grupo cobrava propinas de até R$ 300 mil para livrar empresas de dívidas milionárias. Apesar de mirar três juízes de segunda instância do TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região), o STJ rejeitou a denúncia por falta de provas, resultando apenas na aposentadoria compulsória da juíza Maria Cristina Barongeno.
OPERAÇÃO HURRICANE 2007
Deflagrada em abril de 2007, investigou uma organização suspeita de vender liminares para blindar o jogo do bicho e bingos no Rio de Janeiro. O escândalo atingiu o topo do Judiciário e do Carnaval carioca. Entre os acusados estavam os desembargadores, chefes de escolas de samba, e o ministro do STJ Paulo Medina, acusado de negociar uma liminar por R$ 1 milhão. Medina foi aposentado compulsoriamente em 2010.
OPERAÇÃO ANACONDA 2003
Deflagrada em outubro de 2003, a Operação Anaconda mirou um “balcão de negócios” na Justiça Federal em São Paulo. Apontado como mentor do esquema, o então juiz federal João Carlos da Rocha Mattos, foi demitido e condenado a 30 anos de prisão por corrupção passiva e formação de quadrilha. Ele foi para o regime aberto em 2011 e morreu aos 74 anos, em setembro de 2022.




