RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – O plano emergencial de corte de energia acionado no domingo (7) pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) foi considerado bem-sucedido pelo mercado, mas é visto como um paliativo diante da perspectiva de crescimento da geração de eletricidade no país.
Associações do setor defendem agilidade na criação de incentivos para o armazenamento de energia, que poderia guardar o excedente produzido em horários de maior insolação para uso no início da noite, quando há mais consumo elétrico.
Para estas organizações, são necessários incentivos econômicos para a priorização de baterias, como tarifas conforme a oferta de energia elétrica do dia.
A capacidade instalada de micro e minigeração distribuída (MMGD), os painéis instalados sobre telhados ou em pequenas fazendas solares, já supera 44 GW (gigawatts), o equivalente a quase 20% de toda a capacidade de geração de energia no país.
Este tipo de produção é somado com o que é gerado em usinas pelo Brasil, de diversos tamanhos. O aumento na oferta, especialmente em horários do dia com demanda baixa, pode causar sobrecarga no sistema de transmissão e levar a um colapso na distribuição de energia elétrica no país.
Temendo crise na distribuição elétrica no domingo, dia de baixo consumo de energia, a ONS determinou a supressão de 1 GW (gigawatt), o suficiente para abastecer cerca de 500.000 residências. O operador determinou, pela primeira vez, a suspensão em geradoras de menor porte após cortar nas grandes usinas, prática recorrente. Mesmo assim, o risco de colapso se manteve.
Entre as grandes usinas renováveis no Nordeste, região que concentra os grandes parques eólicos e sofre mais com os cortes por excesso de geração solar no país, a ONS chegou a cortar no domingo um máximo de 11 GW de geração. No sábado (6), a restrição de produção foi ainda maior, de 15 GW.
Os cortes do domingo foram feitos entre 10h e 14h de domingo, limitados a usinas com capacidade superior a 5 MW (megawatts) de potência, o que exclui painéis solares sobre residências e pequenas fazendas que vendem energia solar em sistema de condomínio.
“Dizem que quando você chega no fundo do poço, tem que parar de cavar. E a gente continua cavando, continua incentivando a instalação de MMGD”, diz o ex-diretor-geral do ONS, Luiz Carlos Ciocchi. “Se a demanda não aumentar e continuamos nessa toada, a situação só tende a piorar”.
O setor de MMGD defende incentivos à instalação de baterias para armazenar o excedente de energia durante o dia e substituir térmicas no início da noite, quando a demanda cresce e as gerações solar e eólica são menores.
A ideia seria criar tarifas conforme a oferta de energia: mais baratas quando há excesso e mais caras quando o país precisa de térmicas. Assim, pequenos geradores teriam incentivo econômico para armazenar a própria energia para os horários de pico.
“Pode ser dado sinal de preço para que o consumidor comece a pensar na hipótese de colocar baterias à disposição do sistema”, diz o vice-presidente da ABGD (Associação Brasileira de Geração Distribuída), Christino Áureo.
A possibilidade de suspender a operação de usinas de menor porte foi autorizada pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) em 2025, diante de alertas do ONS sobre riscos à segurança do sistema elétrico brasileiro.
O excesso de energia quase provocou colapso no sistema no dia dos pais do ano passado. Em dezembro, o operador divulgou documento de planejamento em que via risco crescente de colapso já em 2026, em função da falta de flexibilidade para reduzir a geração controlável em momentos de elevada geração solar e menor demanda por energia.
O governo já anunciou a realização de um leilão de armazenamento de energia, mas esses grandes blocos resolveriam apenas o excedente das usinas de grande porte, sem solucionar o problema da geração distribuída, mais difícil de ser controlada, dizem executivos.
“Em outras partes do mundo se deu essa sinalização adequada de tarifas e o mercado reagiu muito rapidamente”, concorda o presidente da Apine (Associação dos Produtores Independentes de Energia), Rui Altieri. Uma mudança dependeria apenas de regulamentação da Aneel.
Procurada por WhatsApp por volta das 11h, a assessoria do ONS não havia respondido ao pedido de entrevista até a publicação deste texto.


