VIENA, ÁUSTRIA (FOLHAPRESS) – A única forma de saber se o Irã está tentando construir uma bomba atômica é o pleno acesso de inspetores às instalações de seu programa nuclear, disse o diretor-geral da agência da ONU que lida com o tema, Rafael Grossi.
“Desde [os ataques americanos ao programa nuclear iraniano em 2025], nós não tivemos acesso a essas instalações. É importante estabelecer que o Irã está cumprindo suas obrigações ante o Tratado de Não Proliferação Nuclear”, disse o argentino, à frente da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) desde o fim de 2019.
O argentino, que é candidato a secretário-geral da ONU neste ano, respondia a uma questão feita pela reportagem em entrevista coletiva na sede da agência, em Viena.
Com a retomada das hostilidades mais abertas no Oriente Médio, o que era difícil parece agora impossível. “Tenho contatos esporádicos com o Ministério das Relações Exteriores do Irã. Os canais de comunicação estão cortados”, afirmou.
Nesta semana, a AIEA reúne os 35 membros de seu Conselho de Governadores, o órgão executivo da agência ligada às Nações Unidas. Na mesa está uma resolução costurada pelos Estados Unidos exigindo que o Irã permita acesso de inspetores, e segundo observadores é bastante provável que ela seja aprovada.
O Irã acusa Grossi de apoiar os EUA, o que o argentino rejeita. “O embaixador do Irã tem todo direito de ter sua opinião. Minha visão está nos meus relatórios”, afirmou.
O diretor-geral defendeu que a solução da crise tem de ser diplomática, e que líderes como o presidente Lula (PT) podem eventualmente ajudar no processo. E aproveitou para reiterar sua plataforma de campanha à chefia da ONU, entidade à qual a agência é ligada, mas não subordinada.
“A ONU está ausente das decisões sobre os conflitos. Certamente as coisas podem ser melhores. Meu estilo de trabalho é conhecido, reunir beligerantes”, afirmou. Na Ucrânia, o trabalho da AIEA mantém um frágil cessar-fogo em torno da usina de Zaporíjia, ocupada pelos russos.
O acordo quase desandou na semana passada, com um ataque ao local por Kiev, além de uma ação atribuída a Moscou contra a região da central de Tchernóbil.
No Oriente Médio, o conflito entre Israel e Irã recomeçou no domingo (7), após uma trégua que havia começado em abril, quando Teerã atacou alvos no norte do Estado judeu após Tel Aviv bombardear posições do grupo xiita Hezbollah na capital libanesa, Beirute.
O presidente americano, Donald Trump, disse que tentaria demover o premiê Binyamin Netanyahu de retaliar, mas Israel atacou a teocracia nesta segunda. Ato contínuo, o regime iraniano voltou a lançar mísseis balísticos contra Israel.
A questão do programa nuclear iraniano é central no atual conflito. Em 2018, Trump havia deixado o arranjo segundo o qual Teerã limitava seu enriquecimento de urânio e prometia não construir uma bomba atômica por 15 anos.
No ano passado, em apoio à guerra de 12 dias lançada por Israel, os EUA bombardearam pela primeira vez instalações nucleares iranianas. Trump se gabou de ter “obliterado” as capacidades atômicas dos aiatolás, mas o risco de o regime obter a bomba foi um dos “casus belli” para a guerra iniciada em 28 de fevereiro ao lado de Israel contra o Irã.
A AIEA se queixa de não ter tido acesso completo às instalações atacadas no Irã em 2025 e neste ano. Com isso, segundo a agência, é impossível saber se o Irã está buscando algum uso para os 441 kg de urânio enriquecido a 60% que seus técnicos estimam estar em mãos do regime.
“Nenhum país do mundo tem tal quantidade de material”, disse o chefe de gabinete de Grossi, o polonês Jacek Bylica. Segundo ele, não é possível saber o destino daquilo que Trump chamou de “poeira nuclear”, assumindo que seus ataques atingiram o estoque algo insondável a esta altura.
O diretor da AIEA já alertava havia anos que o Irã tinha “ultrapassado todas as linhas vermelhas” rumo à nuclearização de seu arsenal. Teerã o acusou de estar do lado dos EUA, de quem tem apoio presumido na sua postulação ao cargo de secretário-geral da ONU neste ano, por criticar os iranianos.
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O jornalista viaja a convite da AIEA


