SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Tremores, sudorese, confusão mental, fraqueza, sonolência, dor de cabeça, tontura, visão turva e convulsões são sintomas de hipoglicemia. O nível de açúcar no sangue abaixo de 55 mg/dL exige atenção imediata (70 mg/dL é o limite de alerta).
Muitas vezes subdiagnosticada, a condição é associada a pessoas com diabete e rara em quem não tem a doença. Nos casos raros, pode ser causada por complicações após cirurgia bariátrica, tumores produtores de insulina (insulinoma) e doenças hepáticas ou hormonais. Há crianças que nascem com hipoglicemia e a desenvolvem ao longo da vida, e existem as causas autoimunes de anticorpos que podem prejudicar o controle da glicemia e fazê-la baixar demais.
Um estudo conduzido por pesquisadores do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP em parceria com a Unicamp propõe uma estratégia de rastreamento clínico mais acessível e econômica. O trabalho foi publicado em maio de 2026 na revista Frontiers in Endocrinology. O método visa identificar pacientes com hipoglicemia hiperinsulinêmica associada a mutações no gene do receptor de insulina (INSR).
O receptor de insulina permite a entrada da glicose nas células. Quando apresenta defeitos, o organismo produz quantidades exageradas de insulina na tentativa de compensar a falha. Esse excesso provoca crises de hipoglicemia.
“Pensamos numa forma de tornar o diagnóstico clínico mais fácil para selecionar esses pacientes candidatos ao teste molecular, que na rede privada custa em torno de R$ 5.000”, afirma o endocrinologista Ramon Marcelino do Nascimento, autor principal da pesquisa.
“Quando começamos a investigar, percebemos que os parentes tinham hipoglicemia também. É como um sintoma inespecífico, ou seja, passa mal, fica sudoreico, taquicárdico, e a pessoa não valoriza”, afirma.
O trabalho identificou 18 novos casos, que representam quase um terço de todos os já descritos no mundo. Até então, apenas cerca de 50 pacientes haviam sido documentados na literatura científica global.
Para isso, o estudo selecionou 94 pacientes com hipoglicemia hiperinsulinêmica condição em que o excesso de insulina provoca quedas bruscas de açúcar no sangue, avaliados entre janeiro de 2020 e janeiro de 2025. Todos são acompanhados em uma clínica especializada do Ambulatório de Endocrinologia do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Foram selecionados indivíduos com peso normal (IMC abaixo de 25), mas que apresentavam sinais clínicos de resistência à insulina. Também foram aplicados critérios de exclusão.
Dos 94 selecionados, 5 tinham as condições e a disponibilidade de participar da pesquisa. Primeiro foi feito um teste para avaliar o DNA desses pacientes (sequenciamento do exoma). Em um segundo momento foi solicitado que os familiares de primeiro grau deles comparecessem ao ambulatório para avaliação, com exames mais simples e coleta de DNA para um teste mais barato que se chama Sanger. Assim, chegou-se aos 18, e coube à Unicamp fornecer os testes moleculares.
“O sequenciamento por Sanger é muito mais barato do que o sequenciamento por exoma, mas ele só vê uma parte muito específica do DNA. Então, se não sabemos onde é a mutação, pedimos o Exoma.”
Os achados, segundo o pesquisador, fortalecem o papel do Brasil na produção de conhecimento sobre doenças metabólicas raras e podem contribuir para protocolos diagnósticos mais eficientes em diferentes países.
O reconhecimento precoce desses sinais clínicos pode reduzir o tempo até o diagnóstico correto e melhorar o acompanhamento dos pacientes.
“Para muitas pessoas, descobrir a causa genética das crises de hipoglicemia significa finalmente entender a própria doença e receber um acompanhamento mais adequado. É um passo importante para que a condição deixe de ser negligenciada”, diz Nascimento.



