MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) – Domingo de manhã, o teatro de paredes pretas com capacidade para cerca de mil pessoas está cheio quando a banda começa a tocar em alto volume. A plateia, quase toda em pé, alguns com as mãos erguidas, acompanha as músicas por cerca de 20 minutos até que a principal atração entra no palco.

“Jesus disse: ‘Se você quer vir atrás de mim, pegue a sua cruz e me siga’. Chega de ter pena de si próprio, chega de viver na autocomiseração. E olhe para Deus, dizendo: ‘Senhor, a minha vontade não conta, conta a Sua’”, diz a pastora Roselen, em italiano, com o microfone na mão.

Nascida em Campinas (SP), Roselen Boerner Faccio, 57, é fundadora da Sabaoth Church, igreja evangélica de matriz pentecostal que existe há 32 anos na Itália, onde ela vive desde 1989. Sabaoth, em hebraico, remete à ideia de exército.

Com cabelos loiros longos, olhos claros, roupas claras e tênis, Roselen fala com desenvoltura. Em um italiano perfeito, mistura citações bíblicas com frases diretas aos presentes e anedotas pessoais. “Quando abrimos essa igreja, uma vez jantei com um pastor que me disse: ‘Tenho medo por você, porque você vem do Brasil e vai querer um dia voltar para casa e deixará todos aqui’. Eu ainda estou aqui. Esse pastor voltou e nem é mais pastor”, contou.

No culto em que a reportagem esteve, em meados de maio, italianos eram a maioria dos presentes, com alguns brasileiros e outros sul-americanos. Muitos eram jovens adultos, e a forma com que se cumprimentavam sugeria uma frequência assídua. O idioma oficial, no palco e fora dele, é o italiano. O culto da manhã durou cerca de duas horas e meia.

A sede da Sabaoth, em Milão, no norte da Itália, fica no bairro popular de Giambellino. Além do teatro onde ocorrem dois cultos aos domingos e encontro de jovens aos sábados, o edifício tem estúdios de gravação de vídeo e áudio, escola infantil, livraria e uma loja com camisetas e canecas. A igreja tem perfis nas plataformas digitais e a própria editora de livros. “A nossa visão é mudar a história religiosa da Itália e não só, voltando a ter uma fé viva”, diz o site.

Roselen, chamada de “past” pelos membros da igreja, recebeu a reportagem em seu escritório dias após o culto. Ela contou, em português, que sua ligação com a religião começou na infância, por meio da mãe, que frequentava Testemunhas de Jeová. O pai, ateu, preferiu que a filha fizesse o catecismo católico.

Aos 13 anos, ela entrou em grupos de jovens da Renovação Carismática Católica, movimento de reavivamento que tem traços do pentecostalismo, como dons de cura e profecia. A palavra “sobrenatural” é citada algumas vezes por Roselen, na pregação e na entrevista.

Foi nessa época que ela diz ter tido o primeiro contato direto com Deus. “Eu falei: ‘Deus, se você existe, eu quero ter essa experiência. Não quero que seja nenhuma outra pessoa a me falar, porque cada um vai falar da própria religião’”, conta. “Foi uma experiência física: alguém pegou na minha mão, literalmente.”

Em seguida, ela afirma que passou a ir à missa diariamente, a pregar para amigos e a participar de retiros. Aos 19 anos, a irmã de uma amiga sugeriu que elas fossem para a Itália, de férias. Sem roteiro definido, diz ter passado perrengues em Roma como furto, falta de dinheiro e fome. Acabou indo para Milão.

Em contato com católicos, participou de um evento perto de Assis, terra de são Francisco, e foi convidada a ficar na região. Estabeleceu-se em um convento em Collemancio, sem “vestidos de freira, mas com os votos”. Com outras jovens, cuidava de paróquias de cidades pequenas.

Lá, passou a ler a Bíblia com intensidade, disse, e entrou em crise. “Tinha algo errado. Ali tinha escrito uma coisa e a gente vivia outra”, conta Roselen. “Eu não acreditava em muita coisa mais. Muito santo, muita gente entre mim e Deus. Eu queria um Deus direto.”

De volta a Milão, conheceu uma americana —pastora até hoje da Sabaoth— e um italiano, e, juntos, começaram a orar em pequenos grupos. Conforme foram atraindo mais gente, alugaram o espaço de um pub aos domingos. Os primeiros shows cristãos da igreja aconteceram ali, e a ida para teatros como o da sede atual foi uma forma de atrair jovens.

Desde o início, o público-alvo são os italianos. A cadeia de comando da igreja é formada por 16 casais, sendo 28 fiéis italianos e 4 brasileiros. “Os pastores brasileiros abrem igrejas no mundo para brasileiros. Não sou contrária, mas não é a minha visão ir a um lugar e abrir um grupinho de brasileiros que come coxinha”, disse. “Eu sou brasileira, mas consegui trazer fé para os nativos. Isso é o máximo do missionário. Hoje quem abre igreja são os nativos.”

Segundo a pastora, existem 94 representações da Sabaoth, a grande maioria na Itália. Também tem igrejas em países vizinhos, como Suíça, Alemanha e Albânia. Em 2025, foi aberta uma igreja em Londres (Inglaterra), e nos próximos meses deve ser inaugurada uma em Nova York (EUA). No Brasil, são três: Campinas, Florianópolis (SC) e Vila Velha (ES).

Em outro endereço, na área metropolitana de Milão, funciona a Hangar 28, escola de formação de missionários fundada pela pastora —o curso bienal custa quase 14 mil euros (R$ 82,3 mil). Outra área da Sabaoth são os chamados Life Groups, reuniões semanais na casa de fiéis. A pastora coordena um em sua casa, voltado para empresários. Cada novo fiel, ao entrar, recebe um mentor. “É uma pessoa que vai cuidar de você, adotar a sua causa.”

A Sabaoth tem ainda setores que organizam encontros com jovens que valorizam a virgindade até o casamento, sobre genitorialidade e sobre alcoolismo e drogas. Há um movimento contra o aborto e uma área voltada para pessoas que têm “atração indesejada pelo mesmo sexo”.

“É óbvio que eu creio que Deus criou homem e mulher, mas não sou como outros pastores que batem muito nisso. Creio que muitas pessoas vêm de histórias difíceis. Então, são super bem-vindas”, responde Roselen, sobre a visão da igreja a respeito da comunidade LGBTQIA+.

É recomendado que os fiéis façam a doação de 10% do que recebem. Roselen evita dar números quando questionada sobre o valor arrecadado em um ano. “Entra um bom dinheiro. Para onde ele vai? No ano passado, 500 mil euros [R$ 2,94 milhões] foram para a Guerra da Ucrânia”, diz. Também afirma custear salários e despesas da igreja.

Além de ações sociais locais, como distribuição de alimentos em parceria com uma das principais ONGs italianas, a Sabaoth organiza missões em países em conflitos ou abalados por tragédias. Além da Ucrânia, para onde teriam sido mandados aquecedores no último inverno, Roselen menciona Afeganistão e Turquia, que passaram por terremotos recentemente. As ajudas são acompanhadas de missões com intuito de também instalar igrejas.

Roselen diz que é solteira e já foi vítima de preconceito por ser uma pastora mulher. “No mundo evangélico, inclusive, mas nunca dei atenção. Fiz uma revolução, sou a primeira mulher pastora na Itália inteira.”

Afirma não ter muita proximidade com o Brasil nem com outras denominações evangélicas. Mantém contato com o pastor Silas Malafaia, que já pregou no teatro da Sabaoth em Milão. Admiradora da primeira-ministra Giorgia Meloni, conservadora católica, afirma ter “zero” relação com os Bolsonaro, embora conheça o pastor Josué Valandro Jr., ligado à família.

O Brasil, afinal, não parece fazer parte dos seus planos. “A minha missão é pregar onde ninguém pregou. Entre Brasil e Macedônia, eu vou para a Macedônia. Entre Brasil e Montenegro, vou para Montenegro”, afirma. “A Itália tem 4.000 cidades pequenas sem igreja. Falta chegar em todas elas.”