SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Sob impacto do aumento do preço do QAV (querosene de aviação), a Azul cortou até o momento cerca de 5% de sua capacidade, disse à Folha o CEO da companhia aérea, John Rodgerson. A medida, segundo ele, abrange todos os tipos de voos: internacionais e domésticos, incluindo os regionais e os que operam em grandes aeroportos do país.
“Até agora nós cortamos mais ou menos 5% da nossa capacidade. E, se você pega uma empresa do nosso tamanho, isso vai refletir em milhões de passageiros ao longo de um ano. A gente espera que esta guerra se resolva logo”, afirma o executivo à reportagem. “[O corte] É internacional, regional e para cidades grandes também. Curitiba-São Paulo não tem o mesmo número de frequências que tinha antes. Tem que cortar geral.”
De acordo com Rodgerson, a empresa tem seguido duas estratégias: ajuste de malha, com redução de rotas, e diminuição no número de frequências.
“Acho que nenhuma empresa aérea do mundo tem capacidade para repassar tudo isso [aumento dos custos] para o cliente. Todo mundo vai ficar um pouco menos rentável neste ano por causa da guerra.”
O CEO da Azul diz que o cenário desfavorável ao setor não provocará um novo Chapter 11 (equivalente à recuperação judicial) para a companhia.
“Nós saímos do Chapter 11 em fevereiro com alavancagem muito menor do que as outras [companhias aéreas brasileiras] quando elas saíram. A gente está confortável onde nós estamos. O que eu acho que nós podemos perder é uma oportunidade de ver o mercado crescer.”
Apesar de apontar impacto para todos os segmentos, Rodgerson afirma que, a longo prazo, a aviação regional pode sentir mais os efeitos do aumento do preço do QAV. “Eu acho que é possível, porque o combustível nessas regiões mais remotas é mais caro.”
Em entrevista a jornalistas neste sábado (6), o vice-presidente da Iata (Associação Internacional de Transportes Aéreos) para as Américas, Peter Cerdá, disse que a entidade prevê redução na demanda no mercado doméstico brasileiro por causa do aumento no preço da passagem aérea.
De acordo com a previsão de Cerdá, a movimentação de passageiros em voos domésticos no Brasil deve cair para um patamar anual abaixo de 90 milhões. Em 2025, a Iata registrou um fluxo recorde de mais de 100 milhões de viajantes no mercado doméstico brasileiro, um crescimento de 17% na comparação com o ano anterior.
Segundo Rodgerson, o governo “está sendo mais proativo”. Ele cita a linha de crédito prometida pela gestão Lula para as companhias aéreas.
Em maio, o Ministério de Portos e Aeroportos disse que o CMN (Conselho Monetário Nacional) havia aprovado a resolução com as condições para a concessão de financiamento de até R$ 1 bilhão para capital de giro de companhias aéreas brasileiras.
A resolução prevê operações com prazo de até seis meses para pagamento, taxa equivalente a 100% do CDI e limite de financiamento correspondente a até 1,6% do faturamento bruto anual de 2025 de cada empresa, limitado a R$ 330 milhões. Segundo a pasta, os recursos serão administrados pelo Banco do Brasil, com risco de crédito integralmente assumido pela União.
FIM DA ESCALA 6X1
Rodgerson afirma que a companhia aérea está tendo conversas com o governo sobre a proposta de fim da escala 6×1, que pode afetar a jornada de trabalho no setor aéreo. O foco das discussões, segundo ele, são os aeronautas categoria que inclui pilotos e comissários de bordo. “Acho que aeroviários [profissionais da aviação que trabalham em terra] é uma coisa que a gente já aceita que vai passar assim.”
“Nós tivemos algumas reuniões com o governo, eles acham que não deve ter um grande impacto nos aeronautas, mas eu acho que nós temos que ver. Acho que só com o tempo nós vamos ver isso”, afirma.
Em entrevista a jornalistas em maio, o CEO da Latam, Jerome Cadier, disse que, se a proposta pelo fim da escala 6×1 passasse da forma como estava, a companhia sofreria impactos na operação internacional.
“Alguns projetos vão além de simplesmente tocar o que a gente chama de aeroviários. Alguns incluem até aeronautas nas mudanças da escala de trabalho, o que obviamente não faz sentido nenhum. Se um dos projetos que está aí for implementado, o Brasil não vai ter mais operação internacional, porque a gente não vai poder voar voos de mais de oito horas”, disse Cadier na ocasião.
Sindicatos de aeroviários e aeronautas defendem a redução da jornada. Em entrevista à Folha em maio, Diego Barrionuevo, diretor de Relações Internacionais do Sindicato Nacional dos Aeronautas, disse que a escala 5×2 “não é um freio” para a operação das empresas. Segundo ele, as entidades que representam os trabalhadores da aviação encontram dificuldade em negociar com as companhias aéreas.
O jornalista viajou a convite da Iata




