SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) – Os leões que rondavam as cavernas da Era do Gelo e foram retratados em desenhos e até estatuetas por alguns dos primeiros artistas da humanidade pertenciam a uma espécie diferente da de seus primos atuais, embora tenham cruzado com eles algumas vezes.

A conclusão vem da análise mais completa do DNA dessas feras feita até hoje, a qual também mostrou que os leões-das-cavernas (Panthera spelaea) eram superpredadores cosmopolitas e globalmente conectados —tanto os bichos da Europa Ocidental quanto os da Sibéria, apesar das enormes distâncias, faziam parte da mesma grande população, trocando genes com considerável rapidez, a exemplo do que se via entre os lobos antes que eles fossem dizimados pela ação humana.

Detalhes da análise genômica foram apresentados em artigo publicado na última quarta-feira (3) na revista especializada Cell. Liderados por Love Dalén, do Departamento de Bioinformática e Genética do Museu Sueco de História Natural, os pesquisadores “soletraram” o genoma completo de 12 leões-das-cavernas, que viveram ao longo de um intervalo de cerca de 100 mil anos (de 148 mil anos atrás, quando o Homo sapiens ainda não tinha se expandido a partir de seu “berço” africano, até 17 mil anos atrás, alguns milhares de anos antes de a espécie desaparecer, por motivos que ainda não estão totalmente claros).

Usando as trocas de “letras” químicas do DNA como algo equivalente ao ritmo do tique-taque do relógio evolutivo, os pesquisadores chegaram a uma estimativa do momento em que os ancestrais dos leões africanos e asiáticos de hoje (da espécie Panthera leo) e os dos leões das cavernas se separaram. Isso teria acontecido entre 1,7 milhão e 1 milhão de anos –parte dessa margem de erro está ligada aos eventos posteriores de cruzamento entre as espécies, que confundem um pouco o cenário. O tempo de separação é entre 2 e 3 vezes maior do que o visto entre ursos-pardos e ursos-polares, por exemplo.

“É preciso alguma especulação para explicar como a separação aconteceu, mas meu palpite é que teria havido um período, entre 2 milhões e 1,5 milhão de anos atrás, quando os ambientes no Levante, ou sudoeste da Ásia, ficaram amenos o suficiente a ponto de possibilitar que mamíferos africanos se expandissem, saindo do seu continente natal”, explicou Dalén à reportagem.

Segundo o pesquisador, aliás, pode haver aí um paralelo interessante com a expansão de um ancestral da humanidade, o H. erectus, que também parece ter saído da África e se espalhado por boa parte da Eurásia há 1,8 milhão de anos.

Seja como for, o sucesso do P. spelaea foi inequívoco –o bicho chegou até a cruzar a ponte de terra que existia entre a Ásia e a América do Norte, conhecida como Beríngia (por causa do atual estreito de Bering), colonizando então o Novo Mundo, chegando lá, inclusive, antes que o Homo sapiens, pelo que sabemos.

A espécie causou uma impressão tão forte nos seres humanos de anatomia moderna que chegaram à Europa que inspirou um dos célebres painéis de arte rupestre da caverna francesa de Chauvet (provavelmente com mais de 30 mil anos de idade). Já na Alemanha, na gruta de Hohlenstein-Stadel, arqueólogos encontraram uma estatueta feita com marfim de mamute representando um corpo humano com cabeça de leão-das-cavernas, obra de arte alguns milênios mais antiga que as imagens de Chauvet.

Essas e outras representações do grande felino, assim como os fósseis da espécie encontrados até hoje, sugerem que o bicho pode ter sido maior do que os maiores leões atuais (o que faz sentido, considerando que, com frequência, mamíferos de clima frio são mais maciços do que seus parentes próximos de regiões tropicais).

As representações também nunca mostram a espécie com juba, sugerindo que mesmo os machos talvez não tivessem a cabeleira de seus primos modernos. Os dados genômicos, porém, ainda não ajudaram a elucidar essa questão, explica Dalén. “Por enquanto, creio que não sabemos o suficiente sobre a genômica que influencia o desenvolvimento das jubas nos leões modernos para investigar isso. Mas não ficaria surpreso se conseguíssemos testar a ideia no futuro.”

Mesmo tendo se adaptado à vida na Europa glacial, porém, a espécie ainda sofria com os vaivéns das geleiras ao longo dos milhares de anos. A equipe identificou uma correlação entre os momentos de frio extremo e os recuos das populações de leões-das-cavernas para o sul.

Foi provavelmente nessas fases que eles reencontraram seus primos, pertencentes à mesma espécie que os leões modernos, e se acasalaram com eles –um espécime de leão-das-cavernas asiático de 20 mil anos, por exemplo, carregava até 4% de ancestralidade derivada da miscigenação. A mistura parece ter acontecido com leões associados à população do sudoeste asiático (Síria, Mesopotâmia etc.), hoje também extinta, mas que ainda aparece na arte de civilizações da Antiguidade, como os assírios e persas (700 a.C.-400 a.C.).