BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – O órgão eleitoral da Colômbia divulgou nesta quinta-feira (4), quatro dias após o primeiro turno das eleições presidenciais, o resultado final da votação: apesar das acusações de fraude vindas do presidente Gustavo Petro e de seu candidato, a contagem coincide em quase 100% com a apuração preliminar, finalizada apenas algumas horas após o pleito do último domingo (31).

Segundo o CNE (Conselho Nacional Eleitoral), o ultradireitista Abelardo de la Espriella teve 10.366.143 votos, contra 9.703.921 do seu adversário, Iván Cepeda. Na contagem inicial, que não tem valor jurídico e serve para informar os eleitores, ambos tiveram mais votos: 10.361.499 e 9.688.361, respectivamente.

Em termos percentuais, Espriella conseguiu 43,78% dos votos válidos; Iván, 40,98%. Trata-se de uma variação mínima em relação ao anunciado no domingo: 43,74% para o primeiro, e 40,9% para o segundo. Com o resultado oficial, o Registro Nacional divulgou nesta sexta (5) o desenho da cédula de votação com a qual mais de 41 milhões de colombianos poderão votar no próximo dia 21 de junho.

A correspondência entre os números da contagem inicial e final não deveria surpreender —salvo algumas exceções nos últimos anos, essa é a regra nas eleições da Colômbia. Mas a divulgação dos resultados finais ganhou outro peso neste pleito, após Petro e Cepeda apontarem fraude na apuração sem apresentar provas.

“Como presidente, não aceito os resultados”, afirmou Petro horas após o fechamento das urnas. “Há uma discrepância que queremos verificar em relação ao cadastro eleitoral”, ecoou seu apadrinhado em seguida, durante um discurso a apoiadores. “Hoje tivemos 10 milhões de votos mal contados na Colômbia. Somos a principal força política, sem dúvida.”

A denúncia dos dois se baseava em um suposto aumento artificial de 800 mil eleitores registrado no programa usado para a apuração inicial dias antes da votação —desinformação que já circulava nas redes sociais nas últimas semanas. Petro falou ainda do que seria um aumento atípico de mesas e locais de votação.

Sites de checagem de dados, no entanto, desmentem essa teoria. O número de eleitores aptos a votar está fixo desde o dia 30 de abril: são 41.421.973 de pessoas (40.007.312 na Colômbia, e 1.414.661 no exterior).

A suposta diferença aparece no sistema da Divipole (Divisão Eleitoral Política), que registrou 42.307.373 pessoas habilitadas a votar no dia 26 de maio, 885.409 a mais do que a contagem fixada no final de abril. Esse número, no entanto, corresponde a uma projeção para que não falte material eleitoral, e é maior do que a quantidade de aptos a participar das eleições porque, no exterior, os cidadãos podem votar nos consulados durante toda a semana do pleito, não só no domingo.

O site La Silla Vacía, que teve acesso a essas bases de dados, afirma que o consulado em Madri, por exemplo, tem 109.742 eleitores registrados e aparece seis vezes no arquivo de projeções, uma para cada dia da semana. Em cada data, há um número de eleitores esperados, com base no histórico daquele consulado.

Considerando todas as repartições da Colômbia no exterior, seriam 885.400 eleitores projetados a mais, justamente a diferença que Petro apontou em relação ao censo. As 696 seções eleitorais abertas sem justificativa, na versão do presidente, são as 116 seções eleitorais dos consulados multiplicadas por seis —uma vez para cada dia da semana.

Após a repercussão negativa, Cepeda recuou no dia seguinte à votação. “Até o momento, devo afirmar categoricamente que não encontramos nenhuma evidência ou indício de irregularidades flagrantes”, afirmou o presidenciável a jornalistas em Bogotá. “Não há irregularidades de dimensões suficientes para falar de fraude.”

Petro, por sua vez, insistiu nas acusações. Na terça-feira (2), fez uma série de publicações no X, onde publica com frequência, apresentando o que seriam evidências de possível fraude e, no dia seguinte, postou um vídeo no qual uma pessoa filma o que seria uma prova de inconsistência nos registros.

Nenhum órgão observador corrobora as denúncias. “Nossos observadores avaliaram todas as fases do processo como transparentes, organizadas e tranquilas, e confirmaram que os representantes dos candidatos puderam realizar seu trabalho sem restrições”, afirmou a missão da União Europeia, em consonância com a Missão de Observação Eleitoral da Colômbia, a OEA (Organização dos Estados Americanos) e o Centro Carter.

A acusação, especialmente de Cepeda, parece ser um reflexo do baque contra a sua candidatura no primeiro turno, no qual o senador terminou atrás de Espriella apesar de ter permanecido à frente do ultradireitista em pesquisas de intenção de voto durante toda a campanha.

Após a votação, o político criticou o uso da camiseta da seleção colombiana pelo adversário, agora proibido pela Justiça de usar o item em atos políticos, e se afastou da ideia de uma Constituinte, como queria Petro até esta quinta. A Carta de 1991, afirmou Cepeda, é “uma das conquistas mais valiosas” da democracia do país, e a hora é de união e consenso.

“O projeto político de extrema direita de Espriella é uma ameaça. É uma proposta regressiva e autoritária”, afirmou o senador.