Varejo quer vender mais TV 65″ e celular caro na Copa, mas teme levar calote

DANIELE MADUREIRA E LÍVIA GOULART
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Copa do Mundo costuma representar uma nova Black Friday para os varejistas de eletroeletrônicos. Para este ano, a expectativa é que a euforia em acompanhar os jogos do Brasil fomente a venda de TVs de tela grande, como as de 65 polegadas ou mais.
São as smart TVs, conectadas à internet e equipadas com inteligência artificial para ajuste automático de som e imagem. Estão prontas para a TV 3.0 interativa, cujo sinal foi prometido pelo governo para começar nesta edição do torneio.
Já a tecnologia dos celulares 5G, compatíveis com altas velocidades de conexão móvel, permite mais transmissões via streaming, a melhor opção para quem está no trabalho ou em trânsito para acompanhar os jogos. São aparelhos que custam mais de R$ 1.000.
Mas para marcar golaços nas vendas do primeiro semestre, varejo e indústria precisam driblar a inadimplência do consumidor, que bateu recorde e chegou a 44,4% dos brasileiros adultos em março deste ano, o maior índice desde janeiro de 2015, quando o levantamento do birô de crédito SPC Brasil começou a ser feito. Ou seja, de tão endividados, mais de 4 a cada 10 consumidores deixaram de pagar suas contas.
A esperança do varejo está no dinheiro que sobra a partir da isenção da cobrança de imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000 mensais –medida do governo Lula (PT) que entrou em vigor neste ano. O Executivo também discute a liberação até 20% do saldo do FGTS para pagamento de dívidas para trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105).
“Se isso acontecer, vai ser muito positivo”, diz Silvio Stagni, presidente da distribuidora de eletrônicos Allied, que vende marcas como Apple, HP, Microsoft, Acer e Lenovo para varejistas, além de administrar lojas da Samsung no Brasil. “Mas só a injeção prevista com a isenção de IR, da ordem de R$ 30 bilhões, pode compensar em parte o endividamento das famílias.”
É justamente na faixa de três a cinco salários mínimos (de R$ 4.863 a R$ 8.105) em que mais cresceu o número de inadimplentes no último ano, de 13% em 2025 para os atuais 20%, segundo a pesquisa “Radiografia da Inadimplência 2026”, da CNDL (Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas) e do SPC Brasil, obtida com exclusividade pela Folha.
O estudo, porém, aponta que o calote não está ligado à falta de emprego: 82% dos inadimplentes trabalham (48% são CLT, 23% autônomos e 11% empreendedores).
“Apesar de a inflação estar mais equilibrada nos últimos tempos, acompanhada de melhores índices de emprego e renda, isto não é suficiente para controlar a inadimplência”, diz Merula Borges, especialista em finanças da CNDL.
“Os preços continuam em um patamar muito elevado, é mais difícil fechar as contas no fim do mês, e o consumidor está mais impulsivo, comprando muito pela internet”.
Do total de consumidores que disseram estar negativados este ano, 41% o são por conta do cartão de crédito (de bancos ou lojas), contra 23% que alegavam o mesmo motivo no ano passado –um salto de 18 pontos percentuais.
O segundo principal motivo para o consumidor ficar com o “nome sujo” foi a falta de pagamento de empréstimos contraídos junto a bancos ou financeiras –parcela saiu de 16% dos negativados para 26%. Em seguida, está o crediário de lojistas: 23% dos consumidores protestados disseram ter dívidas nesta modalidade, contra 12% do ano passado.
O levantamento foi feito online entre 6 e 17 de março deste ano junto a 609 entrevistados. Tem margem de erro de 4 pontos percentuais, para um intervalo de confiança de 95%.
No dilema entre aumentar as vendas e correr o risco de tomar calote, o varejo vem buscando o caminho do meio, segurando a oferta de crédito, mas facilitando os pagamentos. No Magalu, por exemplo, é possível comprar TV de 65″ da LG por R$ 3.699 em 21 vezes sem juros no crediário da loja (no cartão de crédito comum o preço é dividido em 12 vezes sem juros).
Na empresa, o índice de inadimplência (dívidas com mais de 90 dias) está em 7,5% da carteira de crédito, que somou R$ 20,8 bilhões em dezembro. Em comparação a dezembro de 2024, a carteira cresceu 3%.
“Nós sempre fomos comedidos com a oferta de crédito”, diz Luiz Fernando Rego, diretor comercial do Magalu. Na empresa, 68% das vendas acontecem online –só 10% destas vendas vêm da financeira Luizacred, parceria da varejista com o Itaú. Já nas lojas, a Luizacred responde por 40% das vendas.
PRESTAÇÃO DA TV É QUITADA SE BRASIL FOR CAMPEÃO
Na Casas Bahia, a palavra de ordem continua sendo controlar a oferta de crédito para manter a inadimplência estável, abaixo de 9%.
“A gente tem sido muito conservador na aprovação de crédito; mesmo quando eu aprovo, exijo uma entrada um pouco maior, para um parcelamento com mais disciplina, ninguém sabe o dia de amanhã”, disse à Folha em março o CEO da Casas Bahia, Renato Franklin.
A empresa é dona da fintech BanQi, mas emite os cartões da loja com o Bradesco. As vendas no crediário e no cartão Casas Bahia representam 23,8% do total.
Como em toda Copa do Mundo, o investimento em marketing é consistente: o aporte nas campanhas que usam o mote do mundial deve chegar a R$ 5,5 bilhões, segundo cálculos do publicitário Luiz Lara, presidente do conselho do Cenp (Fórum de Autorregulação do Mercado Publicitário).
O montante representa cerca de 20% de tudo o que foi investido em publicidade ano passado. A maior parte, R$ 4,2 bilhões, vem das cotas oficiais de patrocínio.
“A Copa do Mundo é o maior evento midiático do ano e vai catalisar investimentos, principalmente de marcas de alimentos e bebidas”, diz Lara, que também acredita no impulso na venda de TVs, apesar da alta inadimplência. “É um momento difícil com juros, mas o consumidor se deixa levar pela emoção e gosta muito de futebol, não vai perder esta Copa.”
A Casas Bahia aposta nesta disposição. Entre 26 de março e 5 de abril, a varejista promoveu a campanha “Brasil Campeão, Carnê Quitado na Mão”: se a seleção brasileira vencer o torneio, os consumidores que compraram uma TV de 65″ ou mais neste intervalo terão a sua dívida quitada.
Já o Magalu acredita que sua venda de TVs deve crescer “dois dígitos” nesta Copa em relação ao evento de 2022. “Vendemos bem também sofá e painel de TV, o brasileiro monta a sala completa”, diz Rego.
SOM DA ARQUIBANCADA E CORES DO GRAMADO NA SALA DE ESTAR
A Samsung lançou a campanha “Todo Dia é Dia de Jogo”, com foco em TVs de 65″, 75″ e 85”. A maior aposta da marca para o mundial é o modelo Q7F, com inteligência artificial embarcada, que custa cerca de R$ 5.000.
“Com o modo estádio a partir da IA, é possível identificar o som das arquibancadas e destacá-lo, além de deixar o verde do gramado mais vibrante”, diz Alexandre Gleb, gerente de produtos de TV da Samsung Brasil.
A LG também promete cores vibrantes, precisão de imagem e fluidez em cenas de movimento rápido com o modelo QNED73, também com IA.
“A Copa é um momento-chave de decisão do consumidor por mais qualidade de imagem e experiência de imersão”, diz Diego Oliveira, gerente de televisores da LG Brasil. “Nossa expectativa é crescer 30% em relação ao ciclo anterior.”
O grupo Multi (antiga Multilaser), que comercializa a marca Toshiba no Brasil, está lançando este ano o seu modelo de 65 polegadas, com preço sugerido em torno de R$ 3.500. “Queremos aproveitar a sazonalidade para promover ações com outros produtos do grupo relacionados à Copa, como pipoqueiras e fritadeiras”, diz Roberto Oliveira, diretor executivo do Multi.
A Motorola, uma das patrocinadoras oficiais do mundial, aposta que esta será a “Copa do streaming”.
“O jovem brasileiro adotou o streaming e essa mudança cultural não tem retorno”, diz Rodrigo Vidigal, presidente da Motorola no Brasil, reforçando que o aumento da cobertura 5G e de acessos wi-fi contribui para o novo comportamento de consumo.
A empresa aposta em produtos de ponta nesta Copa, como o Motorola Edge 70 (preço sugerido de R$ 3.600) e o Motorola Signature (R$ 8.000). Vidigal, no entanto, reconhece que os juros altos limitam o acesso ao crédito. “É o que segue dificultando a vida do brasileiro e de todos nós”, diz.
Silvio Stagni, da Allied, afirma que o mercado de celulares tem se mostrado estável em unidades, mas cresce em valor –sinal de que o consumidor está em busca de aparelhos mais sofisticados. “Os modelos de 64 GB estão desaparecendo do mercado, uma vez que os aplicativos exigem mais memória”, diz.

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