SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Após décadas negligenciando melhores condições de acesso e usabilidade para todos os públicos, o centro antigo de São Paulo finalmente se movimenta para ser mais inclusivo. Com a restauração de 100 mil m² de calçadões, o equivalente a 15 quarteirões, as vias estratégicas para caminhar por parte da memória paulistana estão sendo readequadas.

Há mais de 25 anos, a Lei da Acessibilidade determina a obrigação do poder público em garantir que todos consigam transitar sem barreiras por vias públicas. Só agora, porém, o piso irregular dos calçadões que circundam a Praça da República e a região do Pateo do Collegio, ornados com pedras portuguesas desalinhadas e quebradas e marcados com bueiros e buracos, pontos de acúmulo de água e remendos, está passando por uma ampla reforma.

Com investimento de R$ 120 milhões, a gestão Ricardo Nunes pretende, até o meio de 2027, entregar as vias completamente refeitas e acessíveis. Ao todo, a obra envolve o calçamento de 35 ruas. Uma parte dela, no miolo do centro antigo, nas ruas Barão de Paranapiacaba, do Comércio, José Bonifácio e Álvares Penteado, por exemplo, já deve ser entregue em junho deste ano.

Os novos calçadões também enfrentaram um antigo desafio de engenharia. As entradas de edifícios históricos, como do CAU/SP (Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo), da Casa de Francisca e do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), não podem ser modificadas por serem tombadas. Dessa forma, para preservar as soleiras, o nível do calçamento foi elevado, dando acesso plano para cadeirantes e outros públicos.

Ainda sobre memória, a obra preservou e está recuperando alguns trechos de trilhos do antigo bonde que circulava pela área. Pequenas faixas de mosaico português com o desenho do estado de São Paulo, em boas condições de conservação, também foram mantidas, em frente a alguns comércios.

Pisos de orientação para pessoas com deficiência visual também estão sendo instalados ao longo das vias reformadas. De acordo com a arquiteta Silvana Cambiaghi, uma das mais conceituadas do país sobre questões de acessibilidade, as mudanças são um marco para a cidade.

“Como pessoa com deficiência [ela é cadeirante], em primeiro lugar, senti liberdade. Tinha muito medo de andar naquelas calçadas com mosaico português não só pela trepidação que provoca, mas também pela falta de manutenção. Era uma tragédia”, diz.

As pedras portuguesas retiradas, de acordo com a SPUrbanismo, órgão responsável pela obra, estão sendo encaminhadas para britagem e poderão ser destinadas para outras finalidades na construção civil.

Ainda segundo Silvana, que é presidente da Comissão Permanente de Acessibilidade da prefeitura, “hoje o lugar está permitindo que as pessoas tenham mais qualidade de percorrer suas vias. O ganho é incrível. A história está sendo zelada e isso vai atrair mais gente para o centro, que é plano. Estou muito feliz como cidadã, como arquiteta e como alguém que trabalhou muito por esse projeto”.

Para Silvia Grecco, secretária municipal da Pessoa com Deficiência, a revitalização dos calçadões vai muito além da estética e se tornou um projeto de democratização do espaço público.

“Ao instalarmos piso podotátil e assegurarmos acessibilidade real, estamos devolvendo o coração da cidade a todos os cidadãos, com dignidade, inclusão e segurança. Além disso, conectar as pessoas aos nossos prédios históricos, sem barreiras arquitetônicas, é resgatar o nosso orgulho e o sentimento de pertencimento ao centro paulistano”, afirma.

Outra modificação que o paulistano irá encontrar ao percorrer o calçamento do centro histórico é o novo sistema de escoamento de água, agora centralizado, sem a antiga concentração de tampas de bueiro.

De acordo com a SPUrbanismo, foi realizada uma infraestrutura subterrânea, com a implantação de valas técnicas para melhor organização das redes de energia e telecomunicações. Até o final dos trabalhos, haverá novo mobiliário urbano, sinalização turística e iluminação funcional e cênica de edifícios históricos.

O que não mudou na região das obras é o movimento intenso de pessoas. De acordo com a prefeitura, circulam diariamente por ali cerca de dois milhões de pessoas.

Na tarde da segunda-feira (12), quando a reportagem esteve por lá, o movimento era típico, com direito a gente fazendo, aos gritos, pregações religiosas, jovens usando patinetes elétricos em alta velocidade, compradores de ouro e ambulantes por todos os cantos e equilibradores de cães caramelo na cabeça. Os poucos bancos de concreto já instalados estavam bem disputados por quem queria tirar uma soneca.

Por enquanto, a área se mantém bem policiada e limpa. Profissionais da conservação urbana, por sinal, disseram que o novo piso acabou facilitando o trabalho, pois o antigo retinha mais sujeira e acumulava água. Agora, mais claro e plano, o pavimento permite mais agilidade na limpeza.