SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enviará representantes do seu governo para uma segunda rodada de negociações com o Irã na segunda-feira (20) em Islamabad, no Paquistão. Já a mídia estatal de Teerã afirma que o regime ainda não decidiu se mandará funcionários para as conversas.

Os dois lados trocaram acusações de violar o cessar-fogo neste domingo (19) enquanto o transporte marítimo no estreito de Hormuz permanece paralisado, após a República Islâmica reafirmar controle sobre a via, ampliando a tensão em uma das rotas mais estratégicas para o abastecimento global de energia.

O frágil acordo de trégua do conflito expira na quarta-feira (22). O Irã havia anunciado que permitiria a passagem de navios por Hormuz, mas recuou no sábado (18), acusando Washington de violar a trégua ao manter seu próprio bloqueio aos portos iranianos.

Com isso, Trump endureceu o tom neste domingo, ameaçando atacar infraestrutura civil, incluindo usinas de energia, caso o rival não aceite seus termos. “O Irã anunciou recentemente que estava fechando o estreito, o que é estranho, porque nosso BLOQUEIO já o fechou”, disse o americano na rede Truth Social.

“Estamos oferecendo um acordo muito justo e razoável, e espero que eles aceitem, porque, se não aceitarem, os Estados Unidos vão destruir todas as usinas de energia e todas as pontes no Irã. CHEGA DE SER BONZINHO!”, escreveu ainda Trump, com suas habituais maiúsculas.

Em outro post, o republicano afirmou que as Forças Armadas dos EUA atacaram e assumiram o controle de um navio de carga com bandeira iraniana que tentou manobrar para contornar o bloqueio americano em Hormuz. Trump disse que o navio estava sob sanções dos EUA “por causa de seu histórico anterior de atividades ilegais” e que as forças americanas estavam “verificando o que há a bordo”.

O Irã, por sua vez, afirmou que os EUA violaram o cessar-fogo ao atingir a embarcação e que retaliarão.

A mídia estatal iraniana citou o comandante operacional Khatam al-Anbiya, que afirmou que a embarcação estava a caminho da China para o Irã. “Alertamos que as forças armadas da República Islâmica do Irã em breve responderão e retaliarão contra essa pirataria armada por parte das forças militares dos EUA”, disse.

A Casa Branca disse que a delegação dos EUA em Islamabad seria liderada pelo vice-presidente J. D. Vance, que conduziu as primeiras rodadas de negociações uma semana antes. O enviado de Trump, Steve Witkoff, e o genro do presidente, Jared Kushner, também participariam. Anteriormente, Trump havia dito à ABC News que Vance não iria ao encontro por questões de segurança.

O principal negociador de Teerã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou em um discurso televisionado no sábado (18) que os dois países haviam avançado, mas estavam longe de um acordo final para encerrar a guerra. Na rodada anterior, Teerã também disse, a princípio, que não sentaria para negociar com Washington, mas depois confirmou presença. O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, conversou por telefone neste domingo com o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian.

O impasse em torno do estreito de Hormuz mantém o mercado global em alerta. Após dois navios relatarem ataques ao tentar cruzar a via no sábado, dados de navegação indicaram que o tráfego foi interrompido na manhã do domingo.

Um petroleiro chinês e um transportador de gás indiano chegaram a seguir rumo ao leste, mas teriam sido obrigados a retornar.

A guerra, que já está em sua oitava semana, fez com que os preços do petróleo disparassem. A pressão sobre Trump por uma saída para o conflito aumentou, em meio à chegada das eleições de meio mandato de novembro, inflação em alta, gasolina cara e queda em seus índices de aprovação.

Na outra frente do conflito, Israel declarou que poderá usar “força total” no Líbano mesmo com uma trégua em vigor, caso seus soldados sejam ameaçados. O Exército publicou no domingo um mapa de sua nova linha de posicionamento dentro do Líbano, colocando dezenas de vilarejos libaneses, em sua maioria abandonados, sob seu controle.

Estendendo-se de leste a oeste, a linha de posicionamento no mapa avança de cinco a dez quilômetros para dentro do território libanês a partir da fronteira, onde Israel afirmou que pretende criar uma chamada zona de segurança.

Tel Aviv destruiu vilarejos libaneses na área, afirmando que seu objetivo é proteger cidades do norte de Israel contra ataques do Hezbollah. A estratégia é parecida com o que foi feito na Faixa de Gaza -organizações acusam Israel de expandir sua zona de controle com o objetivo de controlar militarmente o território.

Questionado se os deslocados pela guerra poderiam retornar às suas casas, o Exército israelense se recusou a comentar. Após o acordo de cessar-fogo ser aprovado por Israel e pelo governo libanês na semana passada, moradores que haviam abandonado suas casas para fugir dos bombardeios voltaram para a região.

As Forças Armadas de Israel, porém, ainda impedem o acesso da maioria daqueles ao sul da linha de posicionamento, segundo relato de um membro das forças de segurança libanesa. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmou neste domingo que casas na fronteira usadas pelo Hezbollah serão demolidas e que “qualquer estrutura que ameace” os soldados de Tel Aviv será destruída.

A trégua, que entrou em vigor na última quinta, prevê dez dias de suspensão aos ataques.