(FOLHAPRESS) – A jovem maquiadora Angèle, papel de Ella Rumpf, escreve um livro e o envia a um consultor, que lhe faz reparos. Diz que o livro tem momentos monótonos, que precisa reescrever e tal. A moça responde -a si mesma- que escreve o que acontece, o que é real, porque quer fixar as coisas antes que desapareçam.

Isso é um momento bem rápido de “Vidas Entrelaçadas”, mas é decisivo, porque resume uma parte grande, talvez a mais relevante, do cinema francês desde, pelo menos, a década de 1960 -o real é mais importante do que a intriga criada.

Dito isso, o filme cuida de três vidas que, a rigor nem, se entrelaçam. Aliás, é tolo o título brasileiro, “Vidas Entrelaçadas”, criado para traduzir o original “Couture”, ou costura.

Além de Angèle, vemos Ada, papel de Anyier Anei, uma jovem estudante de farmácia sudanesa que sai do Quênia e chega a Paris como uma futura sensação da moda. A outra é Maxine, vivida por Angelina Jolie, uma cineasta americana que chega a Paris para fazer um clipe de horror, antes de voltar ao seu país, onde pretende realizar um longa.

A diretora descobre, no entanto, que tem câncer em um dos seios. Já Ada enfrenta os problemas do noviciado, como descobrir que o quarto reservado para ela já está ocupado por outra modelo.

Esses são os eixos principais da intriga. E, quanto ao realismo da coisa, lembremos, para começar, que Angelina Jolie retirou as mamas, 13 anos atrás, após descobrir uma mutação genética que elevava o risco de câncer. É, então, um filme extremamente pessoal -não por acaso, ela também é produtora.

Mas isso importa menos que a vida das modelos que passam pelo filme. E, por vezes, elas passam literalmente. Temos ali garotas de 23 ou 24 anos que se acham velhas, já que algumas começaram aos 15. Uma delas está em Paris hoje, mas amanhã estará em Amsterdã e, em seguida, Tóquio.

Não é bem o que vimos em “O Diabo Veste Prada”, que David Frankel dirigiu em 2006, nem mesmo no “Pret-à-Porter”, de 1994, de Robert Altman. Não é bem uma vida glamurosa, mas de movimento perpétuo, num corre-corre que, muitas vezes, não passa de falsos movimentos.

Nossa maquiadora-escritora, por exemplo, precisa se deslocar na pressa de um trabalho a outro, mas pode levar cano de alguém que não paga pelo trabalho ou ter que esperar um ator que se atrasou -e que, por sua vez, vai atrasá-la para o próximo compromisso.

Quanto às modelos, quando não têm de sair de um país para outro a toda pressa, se aproximam, costuram suas inseguranças, deixam-se pentear, animam-se, torcem o pé, eventualmente enchem a cara.

Quanto à Maxine de Angelina Jolie, ela tem de fazer o clipe, pensar no filme que está preparando e, ao mesmo tempo, se preocupar, como qualquer mãe, com a filha, que, como qualquer filha, não se preocupa com a mãe. E descobrir que tem câncer em Paris, quando sua vida normal está em Los Angeles, não parece coisa fácil. Em todo caso, ela encontrará algum consolo no simpático Anton, personagem de Louis Garrel.

No fim, “Vidas Entrelaçadas” se divide entre as três mulheres e as figuras que gravitam em torno delas, mas essas vidas não se cruzam. O câncer, a estreia, o livro -o problema de cada uma tem que ser vivido por si mesma.

O filme de Alice Winocour, enfim, consegue despertar algum interesse, mas não tanto. Mas, como diria a nossa maquiadora, talvez a vida seja isso mesmo, e Winocour se interesse de fato em buscar mais ser fiel ao real do que em criar falsas tramas para obedecer aos esquemas dos leitores de roteiros -ou consultores literários.

Entre altos e baixos, um filme que tem o dedo na escrita de Angelina Jolie, isso é evidente, e que, no geral, se equilibra bem na tentativa de criar um filme realista no tão fantasioso mundo da moda.

VIDAS ENTRELAÇADAS

Avaliação Bom

Onde Nos cinemas

Classificação 14 anos

Elenco Angelina Jolie, Ella Rumpf e Louis Garrel

Produção EUA/França, 2025

Direção Alice Winocour