SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O prenúncio da vitória brasileira sobre os Estados Unidos na tarde de domingo de 23 de agosto de 1987 veio no intervalo do jogo como forma de motivação. Ainda abatidos com a desvantagem de 68 a 54 e procurando encontrar soluções para não sofrer uma derrota acachapante, os brasileiros viram garrafas de champanhe sendo levadas para o vestiário dos donos da casa.
Foi o combustível de que o técnico Ary Vidal e seu assistente, José Medalha, precisavam para mexer com o brio dos jogadores na final do basquete dos Jogos Pan-Americanos, em Indianápolis. A ordem era divertir-se em quadra, mas, acima de tudo, fazer de tudo para calar o ginásio.
Oscar Schmidt, que havia anotado apenas 11 pontos no primeiro tempo, explodiu no segundo, terminou a partida com 46, liderou o triunfo do Brasil por 120 a 115 e chorou. O craque, que morreu nesta sexta-feira (17) aos 68 anos, referiu-se várias vezes àquele dia como a grande glória da carreira.
Na véspera daquele jogo, o técnico dos Estados Unidos, Denny Crum, esqueceu-se do nome do camisa 14 do Brasil e precisou recorrer a uma ficha. “Depois do jogo, o nome de Oscar Schmidt estará na mente de Crum e nas lembranças dos 16.408 espectadores que foram à Market Square Arena”, relatou o jornal The New York Times, no dia seguinte.
“Lutamos contra o impossível e vencemos o invencível”, afirmou o ala Marcel, 30 anos depois. “Acredito que, até aquele dia, os americanos nunca tinham sido desafiados. Foi o que fizemos, arriscamos tudo”, acrescentou o armador Guerrinha.
Se no primeiro tempo a defesa não havia se encaixado, no segundo os Estados Unidos foram forçados a seguidos erros. “Eles abriram 24 pontos. Pensei: Agora vem o ferro. Era o momento de bater e intimidar. Foi o que fizemos. Eles entraram nessa provocação”, recordou Marcel, apontando a inexperiência do adversário.
A formação norte-americana era formada por atletas universitários. Alguns deles teriam longa carreira na NBA (a estrelada liga norte-americana de basquete), como o ala-armador Rex Chapman e o pivô David Robinson, que seria parte do “Dream Team” dos Jogos Olímpicos de 1992 e bicampeão olímpico em 1996.
Do outro lado, o time de Oscar, Marcel, Israel, Gérson e Guerrinha reagiu. Ponto a ponto, a diferença foi tirada até que os brasileiros passaram à frente no placar e desmontaram psicologicamente os atletas dos Estados Unidos, que nunca tinham perdido em casa.
“Entraram em parafuso”, recordou Pipoka. “Sentimos que eles ficaram assustados”, reforçou Gérson.
A cena clássica da vitória brasileira veio a 30 segundos do final, quando Fennis Dembo errou seu arremesso. No contragolpe, Marcel fez a última cesta brasileira e jogou água no champanhe americano.
O silêncio que prevaleceu no ônibus durante o caminho para o ginásio, deu lugar à alegria e à comemoração em quadra. Só foi necessário ter paciência para a cerimônia de premiação: não existia a fita do hino brasileiro no ginásio e foi necessário buscá-lo na estádio de futebol.
“Vencer, ser campeão dentro da casa deles, metendo 120 pontos foi a maior alegria da minha carreira”, resumiu Oscar.
RESULTADO ACELEROU CRIAÇÃO DO ‘DREAM TEAM’
Principal jogador da seleção universitária norte-americana na derrota para os brasileiros, o pivô David Robinson classificou a zebra como fundamental para os rumos do time dos Estados Unidos.
“Quando perdemos para o Brasil, vimos quanto o basquete internacional havia evoluído”, afirmou o cordial Robinson, que se disse algumas vezes “lisonjeado” por ter participado daquela partida.
A verdade é que o tropeço diante dos brasileiros e o revés nos Jogos Olímpicos de 1988, na Coreia do Sul, com derrota para a União Soviética e medalha de bronze, fizeram com que os norte-americanos pedissem autorização para utilizar os profissionais da NBA nos jogos de seleção.
Em 1989, a Fiba (Federação Internacional de Basquete) atendeu. E na edição olímpica seguinte, em Barcelona, em 1992, formou-se um timaço histórico: além de Robinson, os Estados Unidos contavam com craques como Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird, Karl Malone, Charles Barkley e Scottie Pippen.
Aí, Oscar e companhia não puderam resistir. Em um confronto da primeira fase, os norte-americanos atropelaram: 127 a 83.

