SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O anúncio do Irã que irá reabrir o estreito de Hormuz levou o preço do petróleo a desabar e atingir a casa dos US$ 86 nesta sexta-feira (17) pela primeira vez em mais de um mês. Analistas no setor afirmaram que a medida deve ser tratada com cautela e que o tráfego marítimo deve demorar a ser retomado.

Segundo um alto funcionário do regime iraniano ouvido pela agência de notícias Reuters, todos os navios comerciais, incluindo embarcações norte-americanas, podem navegar pelo estreito, embora seus planos precisem ser coordenados com a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã.

“A abertura do estreito de Hormuz é um importante passo para normalizar o trânsito pela via navegável. Mas a reabertura é limitada em escopo”, afirmou James Reilly, economista sênior de mercados da Capital Economics.

O diretor global de macroeconomia do ING, Carsten Brzeski, destacou que a reabertura ajudará a reduzir o preço do commodity nos próximos dias, mas a dúvida é quando as empresas de transporte marítimo vão retomar o fluxo.

“A questão é se, mesmo que o Irã afirme abrir o estreito, as embarcações realmente ousarão passar. Seguradoras e armadores ainda podem hesitar em enviar navios, o que significa que, mesmo que teoricamente aberto, o tráfego pelo estreito só aumentará muito gradualmente”, analisou.

A Hapag-Lloyd, uma das maiores empresas do setor, disse que a empresa está avaliando a situação. “Estamos avaliando os riscos envolvidos. Por enquanto, ainda estamos evitando passar pelo estreito. Provavelmente passaremos, mas ainda é cedo para confimar”, declarou um porta-voz da empresa à agência de notícias Reuters.

De acordo com empresas do setor, cerca de 200 navios passaram pelo estreito desde 28 de fevereiro, quando começou a guerra, sendo que o tráfego antes do conflito era, em média, de 140 embarcações por dia.

Especialistas no estreito de Hormuz afirmaram que o anúncio feito pelo Irã deve ser tratado com cautela. “Isso não equivale à liberdade de navegação”, alertou Martin Navias, autor de “Tanker Wars: The Assault on Merchant Shipping During the Iran-Iraq Crisis” (Guerras de Petroleiros: O Ataque à Navegação Mercante Durante a Crise Irã-Iraque).

Nesta sexta-feira, a empresa de dados marítimos Kpler informou que três navios-petroleiros do Irã deixaram o golfo Pérsico pelo estreito de Hormuz na última quarta-feira (15). Somadas, as três embarcações tinham cinco milhões de barris de petróleo e foram as primeiras sob sanções a atravessar o local desde que os EUA passaram a bloquear o tráfego na segunda-feira (13).

Nenhum navio-petroleiro iraniano havia saído do golfo pelo estreito de Hormuz com uma carga de petróleo desde 10 de abril, de acordo com a Kpler. Dados da empresa indicam que cerca de 900 navios ficaram retidos no golfo Pérsico ao longo da guerra.

“Os operadores de navios ainda enfrentam prêmios de seguro de risco de guerra astronômicos, potenciais perigos de minas e incerteza sobre a fiscalização”, disse Erik Bethel, sócio-geral da firma de investimentos focada em navegação Mare Liberum.

DÚVIDAS SOBRE A REABERTURA

O ministério de Relações Exteriores do Irã anunciou nesta manhã (horário de Brasília) a reabertura do trânsito marítimo por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e gás, mas limitou a condição a navios que tenham autorização iraniana, o que não é aceito pelos EUA.

“A passagem de todos os navios comerciais pelo estreito de Hormuz foi declarada totalmente aberta para o período restante do cessar-fogo”, afirmou Abbas Araghchi, chanceler do Irã, em post na rede social X.

Porém o ministro não deixou claro se o cessar-fogo a que se referia era o acordo entre Israel e Líbano, que começou às 0h do Líbano (18h de Brasília na quinta-feira) e deve se estender até 26 de abril, ou ao pacto entre EUA e Irã, que começou em 7 de abril e acaba no dia 21 deste mês.

A decisão do Irã foi elogiada por Donald Trump. “OBRIGADO!”, escreveu o presidente norte-americano em sua plataforma Truth Social.

O preço do barril Brent, referência mundial, passou a desabar e atingiu US$ 86,10 às 11h45, uma queda de cerca de 13,37%, em seu menor valor desde 10 de março, quando foi vendido a US$ 81,16.

A queda da commodity afeta ações de companhias petroleiras. No Brasil, os papéis preferenciais e ordinários da Petrobras estão em forte queda de mais de 5% neste pregão. Prio marca perdas de 7%; PetroRecôncavo e Brava, 3% e 4%, respectivamente.

Além do anúncio iraniano, os investidores estão otimistas com a possibilidade de novos encontros entre negociadores de EUA e Irã neste fim de semana para buscar um acordo de paz.

Trump afirmou nesta sexta-feira que confiava em um acerto entre as duas partes após Israel e Líbano anunciarem nessa quinta-feira (16) um cessar-fogo por dez dias.

Os ataques israelenses ao território libanês ameaçaram o cessar-fogo de duas semanas entre norte-americanos e iranianos anunciado em 7 de abril. Horas depois do anúncio, Israel bombardeou regiões do Líbano, o que levou o Irã a impedir o tráfego no estreito de Hormuz e revidarem os ataques.

Ainda nesta sexta, Reino Unido e França anunciaram que estavam trabalhando em um plano com outros países para viabilizar a reabertura do estreito de Hormuz.

PETRÓLEO DESABA

A negociação sobre o preço do petróleo refletiu os anúncios desta sexta. Na abertura da sessão, o preço ficou em torno de US$ 98, chegando a US$ 98,96 às 4h30, mas passou a cair a partir das 6h com as novas declarações de Trump. A queda se acentuou a partir das 9h, com o anúncio iraniano sobre Hormuz, teve o seu ápice às 10h10, quando chegou a US$ 87,80. O preço ficou estável na casa dos US$ 88, mas voltou a cair a partir das 11h até atingir US$ 86,10. Às 14h15, ele estava a US$ 89,50.

O petróleo WTI (West Texas Intermediate), usado nos EUA, acompanhou o movimento de queda e chegou a US$ 80,59, queda de quase 14%, às 11h45.

“Uma resolução (de paz) é mais provável do que improvável nas próximas semanas, mesmo que o caminho não seja linear”, escreveram analistas do Deutsche Bank.

A interrupção no fluxo do transporte de petróleo já ameaça os países da Ásia e da Europa com a redução dos estoques. Na quinta, autoridades do setor afirmaram que as nações do Sudeste Asiático teriam combustível para mais três meses, caso a paralisação continuasse.

“Embora as oscilações do mercado tenham se moderado recentemente e um cessar-fogo temporário entre Israel e Líbano tenha aliviado ligeiramente as tensões regionais, os riscos permanecem elevados diante da incerteza geopolítica contínua e dos sinais mistos dos formuladores de políticas”, afirmou Soojin Kim, analista de pesquisa do MUFG.

BOLSAS CAEM NA ÁSIA E SOBEM NA EUROPA

As Bolsas da Europa registram alta nesta sexta-feira, enquanto a maioria dos mercados na Ásia fechou em baixa. O índice CSI300, que reúne as principais empresas listadas em Xangai e Shenzhen, caiu 0,17%, e o SSEC, em Xangai, devalorizou 0,1%. As Bolsas de Tóquio (-1,75%), Hong Kong (-0,89%) e Seul (-0,55%) também sofreram perdas.

Já na Europa, o índice Euro STOXX 600, referência na União Europeia, fechou em alta de 1,6%, em uma tendência que foi repetida em Frankfurt (2,25%), Londres (0,73%), Paris (1,97%), Madri (2,18%) e Milão (1,75%).

Nos EUA, a Dow Jones era quem tinha a maior alta, com 2,11%, às 14h15, seguida por Nasdaq (1,56%) e S&P 500 (1,34%).

A rapidez da recente alta do mercado de ações “foi nada menos que surpreendente”, escreveu Jim Reid, do Deutsche Bank, observando que o S&P 500 subiu quase 11% nos últimos 11 pregões.

“A medida em que os investidores passarão de ignorar para negociar em função do conflito será determinada pelos anúncios de resultados em andamento, pelos preços do petróleo e por novas manchetes confirmando que as esperanças de um cessar-fogo estão se transformando em uma trégua”, observou Bob Savage, do BNY.