SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – Luana Rodrigues de Araújo cria cinco filhos neurodivergentes, perdeu grande parte da visão e transformou a sobrecarga da rotina de cuidados em um movimento coletivo em Alagoas.
Moradora de Maceió, Luana, 45, cuida de cinco filhos com diagnósticos dentro do TEA (Transtorno do espectro autista), além de comorbidades como TDAH e ansiedade. Confeiteira, ela diz que a maternidade atípica a colocou no papel de “tradutora” entre os filhos e o mundo.
“Tem hora que a mãe atípica tem que traduzir o filho para o mundo e traduzir o que aquele mundo é para aquele filho”, disse Luana Rodrigues de Araújo.
A rotina da família envolve escola, terapias, consultas médicas, alimentação seletiva e manejo emocional. Embora o pai das crianças pague pensão, Luana relata que o peso estrutural e invisível do cuidado recai integralmente sobre ela.
A sobrecarga ficou ainda mais dura com a piora da saúde da própria mãe. Em 2014, Luana sofreu descolamento de retina nos dois olhos. Uma cirurgia a laser salvou a visão do olho direito, mas o esquerdo foi perdido. Em 2021, o olho que restou também teve descolamento, o que reduziu sua visão pela metade. No ano passado, complicações de um glaucoma avançado quase a deixaram na escuridão total.
Hoje, Luana vive com menos de 40% da visão em apenas um dos olhos. A limitação a obrigou a mudar de casa para ficar mais perto de uma rede de apoio informal, formada por amigas e vizinhos. “Eu já não conseguia cuidar de tudo sozinha sem me machucar ou me esgotar”, relata.
A casa de Luana reúne cinco trajetórias diferentes dentro de um mesmo universo de cuidado. Cauã, de 17 anos, tem TEA nível 1 de suporte e transtorno de ansiedade generalizada. Davi, de 14, também tem TEA nível 1 e ansiedade. Helena, de 11, única menina, tem TDAH, TEA nível 1 e ansiedade. Benício, de 9, foi diagnosticado com TDAH e TEA nível 2 de suporte. Mateus, de 7, tem TDAH e TEA nível 2, com fala menos funcional e maior dependência para autocuidados.
Os dois caçulas, conta a mãe, já foram não verbais. Hoje falam, mas a conquista da comunicação funcional exigiu anos de mediação intensa dentro de casa. Cada filho, diz ela, opera em uma “frequência” diferente e demanda um tipo próprio de escuta, adaptação e tradução.
A saúde física de Luana passou a impor uma nova camada de vulnerabilidade a uma rotina que já era exaustiva. A perda visual alterou sua capacidade de administrar o cotidiano da casa, acompanhar deslocamentos, garantir segurança aos filhos e responder, ao mesmo tempo, às exigências de escola, atendimentos e crises emocionais.
Antes de ser conhecida como mãe de cinco filhos atípicos, Luana se afirmava como confeiteira. O talento com os doces ganhou projeção nacional depois de uma campanha do Instituto Razões para Acreditar, que arrecadou R$ 43 mil para estruturar o negócio e comprar equipamentos. Depois, ela também recebeu novas doações em programas de televisão.
O plano era expandir a produção, abrir uma loja física e garantir estabilidade financeira para os filhos. Mas a urgência do cuidado atropelou a possibilidade de crescimento profissional. Entre crises sensoriais, reuniões escolares, consultas e o avanço da deficiência visual, o empreendedorismo perdeu espaço para a sobrevivência cotidiana.
Uma das dores mais persistentes da trajetória de Luana foi a invalidação. Como os filhos mais velhos estão no nível 1 de suporte, ela ouviu repetidas vezes que “nem parecia que eles tinham nada”.
Para ela, a ideia de que o autismo nível 1 seria automaticamente “leve” ou exigiria pouco esforço se tornou uma barreira concreta no acesso a direitos, acolhimento e reconhecimento. Em busca de confirmação, Luana chegou a procurar novos médicos sem apresentar laudos anteriores, apenas para verificar se a realidade vivida em casa seria reconhecida a partir de uma avaliação diferente.
O movimento dialoga com outro dado do Mapa Autismo Brasil: 55,9% dos primeiros sinais de autismo são percebidos pela própria família. Médicos identificam os sinais em 7,3% dos casos, e professores, em 9,4%. Na prática, a família continua sendo a linha de frente da triagem diagnóstica em um sistema que ainda falha em reconhecer precocemente o TEA.
Luana fundou a ABAFE (Associação Brasileira das Famílias Atípicas Empreendedoras) há dois anos e meio. A proposta é organizar feiras, oficinas e canais de venda para garantir renda e rede de segurança a pais e avós de pessoas com deficiência.
O grupo reúne mais de 400 famílias conectadas por WhatsApp. Eles trocam orientações sobre manejo de crises, rotina de cuidados e geração de renda, e o sucesso da iniciativa em Alagoas já inspirou movimentos semelhantes no país.
A ciência enxerga a repetição de TEA e TDAH na mesma família como um padrão genético multifatorial. A geneticista Mirlene Cernach, do Grupo Santa Joana, explica que os pais carregam variantes genéticas que, somadas ao ambiente, favorecem os transtornos, o que resulta em diferentes níveis de suporte para cada irmão.
Autismo, TDAH e ansiedade compartilham a mesma base neurobiológica. Marcela Rodriguez de Freitas, da Academia Brasileira de Neurologia, destaca que a herdabilidade do autismo chega a 90%, o TDAH até 80%, e o risco de recorrência entre irmãos atinge 20%.
A escassez de serviços integrados agrava a sobrecarga emocional e financeira das famílias. A neurologista avalia que o Brasil falha em oferecer um diagnóstico precoce e carece de políticas públicas que organizem uma rede de cuidado contínua e centrada na família.

