SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Preso durante nova fase da operação Compliance Zero nesta quinta-feira (16), o ex-presidente do BRB (Banco de Brasília) Paulo Henrique Costa comandou o banco público de janeiro de 2019 a novembro de 2025. Ele assumiu o cargo por indicação do então governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB).
Costa é investigado por irregularidades na tentativa de compra do Banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Os investigadores acusam Costa de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Ele teria ocultado seis imóveis recebidos como propina, sendo quatro em São Paulo e dois em Brasília. Juntos, a avaliação dos imóveis supera R$ 146 milhões.
Os bens estariam vinculados à aprovação da compra de carteiras fraudulentas do banco de Vorcaro.
Costa negou irregularidades ao longo das investigações sobre o envolvimento do BRB nas fraudes do Master. O advogado Cléber Lopes, que faz a defesa do executivo, disse que seu cliente não praticou crime algum e que sua prisão é um exagero por parte da Justiça.
“A defesa continua firme na convicção de que o Paulo Henrique não cometeu crime algum”, disse Lopes ao deixar o apartamento do ex-presidente do BRB em Brasília, onde ocorreu a prisão.
Com mais de 25 anos de carreira no mercado financeiro, Costa deixou a função de vice-presidente de clientes, negócios e transformação digital da Caixa Econômica Federal para assumir a presidência do BRB em 2019.
Entre 2001 e 2018, Costa ocupou diversos cargos gerenciais no conglomerado. Foi diretor-executivo de controladoria, diretor de administração, finanças e relações com investidores na Caixa Seguridade, superintendente nacional de administração de risco corporativo e gerente nacional de risco e modelagem.
De 2011 a 2013, Costa foi diretor de controladoria e compliance do Banco Panamericano.
Ele é formado em administração de empresas pela Universidade Católica de Pernambuco. Tem pós-graduações em desenvolvimento gerencial pela EAESP/FGV e em inovação corporativa pela Universidade de Stanford. Costa também possui mestrado em administração de empresas pela Universidade de Birmingham (Inglaterra), e mestrado executivo em administração na Kellogg School of Management (Estados Unidos).
Em seu perfil no LinkedIn, Costa atribui à sua gestão a quadruplicação do valor de mercado do BRB e o aumento da base de clientes. O patrimônio total da instituição teria passado de R$ 15 bilhões para R$ 62 bilhões em seis anos.
O QUE COSTA DIZ SOBRE AS CARTEIRAS QUE O BRB COMPROU
Em depoimento à Polícia Federal no fim de dezembro, Costa disse que acreditava que as carteiras falsas de crédito consignado compradas pelo BRB do Master tinham origem no banco de Daniel Vorcaro.
O ex-banqueiro afirma, no entanto, que informou previamente ao BRB sobre a adoção de um “novo formato de comercialização” a partir de janeiro. Nele, o Master passaria a negociar créditos originados por terceiros, e não mais produzidos internamente.
As investigações da polícia mostraram que os empréstimos fictícios foram originados na Tirreno, empresa que atuava como consolidadora de correspondentes bancários. Esse fato, segundo Costa, só foi descoberto após uma análise técnica.
Para solucionar o problema da compra de créditos que não existiam, Master e BRB realizaram uma ampla troca de ativos. Do total de R$ 12,7 bilhões, aproximadamente R$ 10,2 bilhões foram substituídos por novos créditos consignados, imobiliários e corporativos.
Ao longo das investigações, Costa argumentou que não houve decisão individual nas operações com o Master e que os instrumentos usados na compra de carteiras são comuns no mercado. A defesa sustentou que a estrutura do BRB é caracterizada pela colegialidade, com decisões distribuídas entre diretoria, conselho de administração e comitês técnicos.
Os seis apartamentos atribuídos a Costa pela Polícia Federal são de altíssimo padrão, com metragem elevada, poucos moradores e alto custo de manutenção. Em São Paulo, os empreendimentos ficam concentrados no eixo Itaim Bibi-Vila Olímpia, região com metro quadrado entre os mais valorizados da cidade.
Mensagens interceptadas pela Polícia Federal mostram que Costa se dedicou pessoalmente nas operações do Master dentro do BRB. “Estou com você. Continuo no deal mode. Estou virando noite e tentando resolver”, disse Costa a Vorcaro, que o tratava como “amigo”.
Ao advogado Daniel Monteiro, preso nesta quinta e apontado como arquiteto jurídico do Master, Vorcaro afirmou que precisava deixar Costa “feliz”.
O executivo era alvo de investigações desde a primeira fase da Compliance Zero, deflagrada em 18 de novembro de 2025. Na ocasião, o Ministério Público Federal chegou a pedir sua prisão, mas a medida foi negada pela Justiça Federal, que determinou apenas seu afastamento do comando do banco. A demissão, no entanto, aconteceu logo em seguida.
No início de abril, o BRB entregou à PF o relatório final de uma auditoria independente sobre seus negócios com o Master. O documento afirma que as operações de compra de carteiras do Master eram tratadas internamente como “negócio do presidente” e conduzidas sob pressão e urgência.
O relatório indica que as carteiras eram fragmentadas para evitar a necessidade de aprovação pelo conselho de administração do banco público. Aquisições bilionárias teriam sido determinadas e analisadas no mesmo dia. Em alguns casos, as negociações foram feitas sem a entrega de relatórios exigidos contratualmente.
Durante a gestão de Costa no BRB, Vorcaro, seu ex-sócio no banco Maurício Quadrado e o fundador da gestora Reag, João Carlos Mansur, se tornaram donos de 23,5% do banco. A operação foi viabilizada durante duas operações de aumento de capital, em 2024, no valor de R$ 1 bilhão.
Na primeira delas, dois acionistas compraram ações do banco e repassaram os papéis para fundos que pertenciam à teia do Master e que não poderiam participar dessa rodada. A auditoria acredita que Costa teria organizado uma “operação triangulada” com “elementos suspeitos de simulação” para permitir que tais fundos fizessem a aquisição de ações. A defesa nega.

