SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Horas antes de ser preso na Operação Narco Fluxo, o influenciador Chrys Dias anunciava em seu perfil uma rifa de um apartamento mobiliado avaliado em R$ 200 mil por R$ 0,19. A oferta incluía ainda uma espécie de “raspadinha”, com sorteios de veículos como Toyota Corolla e Volkswagen Golf TSI.
O caso não é único, segundo a Polícia Federal, responsável pela ação de quarta (15) que prendeu 33 pessoas. O alvo da operação foi uma suposta organização criminosa especializada em lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
As rifas digitais estão sendo investigadas como parte desse esquema. Por valores que, em alguns casos, não chegavam a R$ 1, influenciadores anunciavam sorteios e jogos online que prometiam prêmios como imóveis, carros e quantias. As ofertas eram divulgadas nas redes sociais com imagens de supostos ganhos e links de acesso, que direcionavam seguidores a plataformas externas.
De acordo com a Polícia Federal, os influenciadores usavam esse formato para atrair participantes e alimentar a cadeia de movimentações financeiras sob suspeita. A investigação aponta que os recursos teriam origem principalmente na exploração de jogos de azar não regulamentados, apostas, rifas digitais clandestinas e práticas de estelionato digital.
Ainda segundo os agentes, há indícios de que o esquema também teria sido utilizado para lavagem de dinheiro, inclusive com possível ligação com o tráfico internacional de drogas.
Na prática, a divulgação dessas rifas e jogos seguia um padrão repetido nos perfis investigados. Publicações destacavam ganhos elevados, com valores que chegavam a milhares de reais, acompanhados de mensagens que incentivavam a participação imediata e links diretos para acesso às plataformas.
Também eram frequentes capturas de tela com supostos ganhos e mensagens atribuídas a seguidores, nas quais eles relatavam ter conseguido pagar dívidas ou ajudar familiares com o dinheiro obtido. Esse tipo de conteúdo funcionava como prova social, criando a percepção de que os resultados eram comuns e acessíveis, diz a Polícia Federal.
Os links disponibilizados levavam a páginas externas, com acesso direto às plataformas de apostas e de jogos. Em alguns casos, as publicações indicavam a liberação de rodadas gratuitas ou benefícios iniciais, estratégia que estimula a entrada de novos usuários.
Mesmo após a ação policial, a exposição nas redes não foi interrompida. Mulher de Chrys Dias, a influenciadora Débora Paixão publicou vídeos durante a condução de investigados pela Polícia Federal e, na sequência, voltou a divulgar jogos e links para acesso às plataformas. Ela também foi presa na operação.
A Polícia Federal disse que agora está analisando se essa estrutura de sorteios e movimentações financeiras teria sido utilizada na circulação de recursos de origem ilícita. A decisão judicial também determinou o bloqueio de bens e restrições a empresas ligadas aos investigados.
Os alvos da operação podem responder por crimes como associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A PF não detalhou o papel individual de cada investigado, e o caso segue em andamento.
Em 2024, Chrys Dias e sua esposa já haviam sido alvo de uma ação da Polícia Civil sob suspeita de divulgação de jogos de azar e captação irregular de dinheiro por meio de rifas online. Na ocasião, foram apreendidos computadores, carros de luxo e equipamentos utilizados nos sorteios.
A reportagem não localizou a defesa do casal. A reportagem enviou mensagem por meio do perfil @deborapaixaoficial no Instagram, que vem sendo atualizado desde quarta-feira (15) com vídeos da ação da Polícia Federal e novas divulgações de jogos, mas não obteve resposta.
O valor baixo do investimento nas rifas em relação aos supostos prêmios oferecidos chamou a atenção dos investigadores. Além do casal de influenciadores, a PF prendeu os músicos MC Ryan e MC Poze do Rodo, além de Raphael Sousa Oliveira, dono do site Choquei. O esquema teria movimentado mais de R$ 1,63 bilhão.
Natural do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, Chrys Dias ganhou notoriedade nas redes sociais ao exibir uma rotina de luxo, com carros esportivos, viagens e a convivência com artistas do funk. Ele também passou a promover rifas e sorteios on-line de bens de alto valor, como veículos e imóveis, além de manter proximidade com MC Ryan, apontado como líder e principal beneficiário da estrutura.
Conforme decisão judicial no processo, que tramita na 5ª Vara Federal de Santos, no litoral paulista, o artista utilizaria empresas ligadas à produção musical e ao entretenimento para misturar receitas legítimas com valores arrecadados por meio de apostas ilegais e rifas digitais.
O advogado Felipe Cassimiro Melo de Oliveira, que o defende, afirmou que não teve acesso ao procedimento, o que o impede de se manifestar sobre detalhes do caso. Ele ressaltou que Ryan é uma pessoa íntegra e que “todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos”.

