SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A escolha da coronel Glauce Anselmo Cavalli, 50, para o comando-geral da Polícia Militar de São Paulo deve provocar uma reestruturação na cúpula da corporação e frear a política de alta letalidade policial adotada pela gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) desde a chegada de Guilherme Derrite (PP) à secretaria.
Segundo coronéis ouvidos pela reportagem, ela deve valorizar oficiais com perfil mais profissional e técnico, com visões mais ponderadas e apolíticas. O núcleo escolhido por Derrite era visto como um grupo quase político-partidário e alinhado a uma ideia fixa de enfrentamento da criminalidade pela força.
Esse grupo do ex-secretário levou à explosão das mortes decorrentes de intervenção policial no estado. De outubro a dezembro do ano passado, por exemplo, foram 276 mortes provocadas por policiais o maior número já registrado em um trimestre desde o início da série histórica, em 1996.
Ao mesmo tempo, o estado viu cair o número de homicídios e roubos para os menores números da série histórica, enquanto o de feminicídios cresceu.
Deputado federal, Derrite foi exonerado no fim do ano passado.
A expectativa de mudanças é reforçada pela escolha do número 2 da PM, o coronel Mário Kitsuwa. Psicólogo de formação e ex-chefe do Caps (Centro de Atenção Psicológica e Social), o oficial é considerado referência em saúde mental e terá o desafio de lidar com os altos índices de suicídio na tropa.
Oficiais superiores avaliam que muitas mortes decorrentes de intervenção policial, que geraram desgaste recente para a gestão Tarcísio, poderiam ter sido evitadas com melhor preparo psicológico dos policiais. Kitsuwa ficará responsável por implementar essas melhorias.
A troca de comando da PM já era esperada desde fevereiro, quando assumiu o cargo de secretário-executivo da pasta o coronel da reserva Henguel Ricardo Pereira, ex-secretário-chefe da Casa Militar e coordenador da Defesa Civil. Ele foi escolhido com a missão de afastar aliados de Derrite na Secretaria da Segurança Pública e também em cargos-chave da Polícia Militar.
Nos primeiros dias, ao menos 14 nomes foram trocados na pasta. Também foram exonerados, na sequência, os coronéis Pedro Luís de Souza Lopes (inteligência) e Fabio Sérgio do Amaral (Corregedoria), tidos como aliados do ex-secretário. A saída do coronel José Augusto Coutinho, agora ex-comandante, e de oficiais ligados a ele é vista como o fim da era Derrite.
O ponto final da gestão de Coutinho teria sido uma ocorrência em Sorocaba, no interior paulista, que terminou com quatro mortos, entre eles um policial militar, o soldado Matheus Almeida Rodrigues. Há a possibilidade de o tiro fatal ter partido de um colega de farda.
A troca não ocorreu ainda em fevereiro, segundo oficiais, para evitar a percepção de crise. A avaliação do governo foi promover mudanças de forma gradual e com respeito aos coronéis, o que, segundo relatos, teria faltado na reformulação feita por Derrite em 2024.
De acordo com oficiais ouvidos, Glauce foi escolhida não por ser a melhor entre as mulheres da cúpula, hoje são seis delas, mas por ser considerada o melhor nome entre os 63 coronéis aptos ao cargo. Para colegas, é um dos melhores quadros da instituição por ser profissional capaz, dedicada e sem máculas na carreira. Tem destaque na área financeira e é especialista em logística.
Também é considerada atleta, com formação em educação física. É vista ainda como alguém com facilidade no trato com pessoas, perfil didático e boa capacidade de escuta.
O nome agradou ao Palácio dos Bandeirantes, já que Tarcísio havia manifestado a intenção de escolher uma mulher para o comando das polícias. Desde fevereiro, também é cogitada a troca na chefia da Polícia Civil. Entre os nomes ventilados está o de Ivalda Aleixo, do DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa).
A nova comandante ingressou na Academia do Barro Branco em janeiro de 1993. Foi nessa mesma época, segundo colegas de turma, que descobriu estar grávida da primeira filha, o que a afastou de parte das atividades. Foi reintegrada em 1994 e formou-se em 1997.
Anos depois, conheceu o marido, Luís Fernando Sper Cavalli, também oficial da PM e filho de um coronel da corporação. Teve seu segundo filho em 2000.
Em 2004, enfrentou um drama familiar: o marido ficou tetraplégico após um acidente de carro, e o casal passou a se dedicar à reabilitação. Foram gratificados. Hoje ele é atleta de rugby em cadeira de rodas desde 2008, ex-integrante da seleção brasileira e hoje diretor técnico e jogador. Desde 2017, atua no Comitê Paralímpico Brasileiro, onde coordena o Programa Militar Paralímpico.
Outro episódio marcante ocorreu em 25 de agosto de 2024, quando Glauce foi promovida a coronel. No mesmo dia, recebeu a notícia da morte da mãe.
Apesar das dificuldades, incluindo a criação dos filhos e a adaptação à condição do marido, concluiu diversos cursos dentro e fora da corporação. Também comandou o CPA/M-2, responsável pela zona sudoeste da capital paulista, uma das mais populosas da cidade.
“Ao longo da carreira, foi agraciada com diversas medalhas e condecorações, entre elas a Medalha Valor Militar em Ouro, a Medalha Brigadeiro Tobias de Aguiar e a Medalha Mérito do Estado-Maior da Polícia Militar do Estado de São Paulo”, diz nota do governo.
Segundo a gestão Tarcísio, a nomeação “representa um marco histórico para a Polícia Militar paulista e reforça o compromisso do governo com o fortalecimento das instituições, a valorização da trajetória profissional e a ampliação da representatividade na segurança pública”.

