SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Israel e Líbano anunciaram nesta quinta-feira (16) um cessar-fogo de dez dias. A trégua foi divulgada primeiro por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, após ter conversado por telefone com seu homólogo libanês, Joseph Aoun, que agradeceu a ele pelos esforços de “garantir paz e estabilidade duradouras” na região.

O americano afirmou que teve conversas também com o premiê Binyamin Netanyahu e que “esses dois líderes concordaram que, para alcançar a paz entre seus países”, iniciariam formalmente um cessar-fogo de dez dias. A trégua entrou em vigor à meia-noite de sexta-feira (17) no horário do Líbano (18h desta quinta em Brasília).

“Eu instruí o vice-presidente, J. D. Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio, juntamente com o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, a trabalharem com Israel e o Líbano para alcançar uma paz duradoura”, disse Trump.

Ele ainda voltou a se referir às guerras que teria encerrado desde que voltou à Casa Branca. “Foi uma honra para mim resolver nove guerras ao redor do mundo, e esta será a décima, então vamos conseguir”, escreveu na rede social Truth Social. Esse número, no entanto, é exagerado, segundo críticos.

A conversa entre Trump e Aoun ocorreu depois de o libanês ter rejeitado um pedido dos EUA para uma “ligação direta” com Netanyahu, segundo um funcionário libanês ciente das negociações.

Após falar sobre a trégua, o americano ainda acrescentou ter convidado Aoun e Netanyahu para um encontro na Casa Branca. “Ambos os lados querem ver a paz, e acredito que isso acontecerá rapidamente”, disse. Segundo ele, a reunião pode acontecer nos próximos dias.

Netanyahu confirmou seu aval à trégua e afirmou que tem “a oportunidade de fazer um acordo histórico com o Líbano”. Ele repetiu que a demanda principal “é que o Hezbollah seja desmantelado”.

Trump afirmou que o acordo inclui o grupo extremista, mas o israelense declarou que seu país “não concordou com a exigência do Hezbollah de se retirar do sul do Líbano e retornar à fronteira internacional”.

Autoridades de segurança israelenses ouvidas pela agência de notícias Reuters também afirmaram que o Exército de Israel não tem planos de retirar suas tropas do sul libanês. “Permaneceremos no Líbano com uma extensa zona de segurança até a fronteira com a Síria”, afirmou Netanyahu.

Minutos antes do cessar-fogo, as forças israelenses informaram ter atingido 380 alvos do Hezbollah no Líbano, incluindo lançadores e bases militares, em 24 horas. Acrescentaram estar em “alerta máximo de defesa” e que operariam de acordo com as diretrizes do governo israelense. No Líbano, houve tiros de comemoração para o alto assim que a trégua entrou em vigor, segundo o jornal The New York Times.

Abrahim al-Moussawi, deputado do Hezbollah, disse à agência AFP que o grupo respeitaria o cessar-fogo caso os ataques israelenses contra os militantes parassem. “Nós, no Hezbollah, aderiremos com cautela ao cessar-fogo sob a condição de que haja uma interrupção completa das hostilidades contra nós”, afirmou.

O presidente do Parlamento libanês e aliado do Hezbollah, Nabih Berri, escreveu em comunicado que a presença de tropas israelenses no Líbano concede ao povo “o direito de resistir” e que a trégua não deve permitir a Tel Aviv liberdade de movimento no território do país. Ele ainda instou a população a “adiar seu retorno às suas cidades e vilarejos até que a situação se torne mais clara”.

Já o primeiro-ministro do Líbano, Nawaf Salam, afirmou que “recebe com satisfação” o anúncio de trégua. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também celebrou o acordo. “Saúdo o cessar-fogo […]. Isso traz alívio, já que este conflito já tirou vidas demais”, escreveu ela em um post no X.

O Hezbollah propôs na quarta (15) uma trégua de uma semana a Tel Aviv. A proposta, anunciada pela TV Al-Mayadeen, ligada ao grupo, foi analisada pelo gabinete de Netanyahu, segundo integrantes do governo israelense.

Israel abriu negociações diretas com o Líbano pela primeira vez desde 1993. Na terça (14) houve a primeira rodada de conversas, com mediação dos EUA, em Washington.

Segundo a Al-Mayadeen, a trégua proposta pelo Hezbollah foi informada pelo regime iraniano, que busca esticar o prazo de seu próprio cessar-fogo com os Estados Unidos —que lançaram uma guerra ao lado de Israel contra o Irã em 28 de fevereiro. Não por acaso, Teerã celebrou o acordo desta quinta.

Os combates cessaram na semana passada, mas o prazo dado por Donald Trump para um acordo acaba na próxima terça (21). O Irã recebeu uma delegação liderada por Asim Munir, chefe militar do Paquistão —país que sediou a primeira e inconclusa rodada de negociações com os EUA— para enviar nova proposta de conversa com os americanos.

Os obstáculos para uma paz duradoura, no entanto, são evidentes. Ainda nesta quinta, antes da trégua, o Exército libanês afirmou que ataques israelenses destruíram a ponte Qasmiyeh, que passa sobre o rio Litani, no sul do país, e isolaram a área do resto do Líbano. Segundo o comunicado, as ações mataram uma pessoa e feriram outras três, incluindo “um soldado da unidade estacionada na ponte”.

A agência de notícias libanesa NNA já havia relatado a destruição dessa infraestrutura, “a última ponte entre as regiões de Tiro e Sidon”. O Exército de Israel afirmou ter ordenado na quarta que uma área de cerca de 30 quilômetros da fronteira sul do Líbano até o rio Litani fosse designada como “zona de extermínio” para o grupo Hezbollah.

Um outro ataque aéreo israelense na cidade de Ghazieh, no sul do país, matou pelo menos sete pessoas e feriu 33, segundo o Ministério da Saúde local. A mídia estatal libanesa noticiou um “massacre de civis” na cidade e afirmou que as operações de remoção dos escombros estavam em andamento.

Já o Hezbollah disparou foguetes contra cidades no norte de Israel. Três pessoas foram feridas, e duas das vítimas estão em estado grave, segundo o jornal The Times of Israel.

Dentro dos EUA, a Câmara, de maioria republicana, barrou uma resolução apresentada por democratas que buscava interromper a guerra no Oriente Médio até que as ofensivas militares fossem autorizadas pelo Congresso. A medida foi derrotada por 214 votos a 213, um dia após uma proposta semelhante ter sido bloqueada no Senado.