SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um aluno da Faculdade de Direito da USP, do Largo São Francisco, foi lutar na Guerra da Ucrânia e desapareceu. De acordo com a mãe do jovem, a Embaixada do Brasil na Ucrânia informou à família que ele está desaparecido desde um combate no dia 4 de abril, mas ela soube por outras fontes que o filho morreu no front.
Uma pessoa ligada à família e um grupo de estudos da faculdade do qual o jovem fazia parte publicaram, nesta semana, notas de pesar, falando em falecimento.
Fontes diplomáticas confirmaram à Folha de S.Paulo que o estudante Igor de Aguiar Amazonas, 23, está registrado oficialmente como desaparecido. A família e colegas não deram informações sobre como ele ingressou no conflito nem como viajou para lá.
O número de brasileiros mortos no conflito da Ucrânia disparou em 2025, de acordo com o Itamaraty. Até fevereiro deste ano eram 23 óbitos registrados, com 44 desaparecidos. Os números preocupam o governo brasileiro, que reforçou alertas nas redes sociais sobre o risco de jovens se envolverem no conflito.
Dolores Amazonas, mãe do estudante, contou à Folha de S.Paulo que recebeu um email da Embaixada do Brasil na Ucrânia no último dia 10.
“Segundo eles, esse desaparecimento teria ocorrido no dia 4 de abril. No entanto, por outras fontes, recebi a informação de que ele faleceu”, afirmou. “Pelo que nos foi explicado, como ele estava no front, em uma área de difícil acesso, o corpo não pôde ser resgatado. Por isso, a situação permanece registrada como desaparecimento”, disse a mãe.
Segundo ela, o jovem viajou no dia 30 de julho do ano passado. Estava cursando o segundo ano da mais concorrida faculdade de direito do país. Em 6 de outubro, completou, na Ucrânia, os seus 23 anos.
“Igor era um jovem movido por coragem, generosidade e um senso profundo de justiça. Ele não conseguia ser indiferente à dor de ninguém. Se se alguém precisava, ele ajudava com o que tinha, mesmo que fosse tudo”, disse a mãe.
Ela recorda que, desde cedo, ele “também mostrou atitude e liderança”. Na escola, por exemplo, mobilizou-se contra o uso de copos plásticos, organizou um abaixo-assinado e conseguiu mudar essa realidade. “Até hoje, os alunos usam garrafas próprias. Ele tinha uma inteligência fora do comum, foi aprovado duas vezes na USP, sem cursinho.”
Ela conta que ele passou em administração na USP de Ribeirão Preto, chegou a ser presidente do centro acadêmico, mas, no terceiro ano, desistiu do curso e prestou vestibular novamente, sendo aprovado em direito.
A família é de Santana do Parnaíba, na região metropolitana de São Paulo.
Em 2024, no mesmo ano em que ingressou na faculdade do Largo São Francisco, tornou-se membro no Nexo Governamental 11 de Agosto, um grupo de extensão da faculdade, que estuda os Três Poderes. Em maio, participou de uma viagem a Brasília com o grupo.
Liliane Castro dos Santos, presidente do grupo, afirmou à Folha de S.Paulo que Igor sempre foi muito participativo e alegre, mas que, em maio do ano passado, disse para os colegas que iria lutar na Guerra da Ucrânia para se “tornar melhor enquanto ser humano”.
Segundo ela, ele costumava fazer contatos com colegas da USP e com a família, mas, recentemente havia parado de dar notícias e não respondia mensagens. “Achamos que ele havia parado por conta do rastreamento, por medo”, afirmou.
Ela disse que o grupo de estudos deverá realizar um evento sobre o conflito e tratar inclusive do que aconteceu com Igor.
A mãe falou da dor dela, dos irmão de Igor e de toda a família. “Como mãe, o que eu posso dizer é que o mundo pode chamá-lo de herói pela coragem, mas eu o chamo de herói pelo coração. A dor da ausência é imensa, mas o amor que nos une é eterno. Tenho fé de que ele está com Deus, e isso é o que me sustenta.”

