SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O TCE-MG (Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais) vetou nesta quinta-feira (16) que o governo mineiro conclua o processo de privatização da Copasa, estatal mineira de saneamento, antes de um pronunciamento definitivo da corte.
A decisão, tomada pelo plenário com base no voto do conselheiro Agostinho Patrus, dá sinal verde para que o governo estadual siga com atos preparatórios, que incluem a realização de estudos, auditorias e o envio de documentos à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e à B3.
No entanto, veda qualquer ato que resulte na alienação do controle acionário da Copasa ou na abertura do período de oferta de ações antes de um pronunciamento conclusivo.
“Importante destacar, ainda, que esta decisão não autoriza a privatização como um todo, mas apenas etapas específicas e que podem ser revertidas. Todas as definições que ainda surgirão ao longo do caminho, especialmente aquelas que constarão dos editais de venda, serão objeto de rigorosa fiscalização”, diz o voto de Patrus, seguido pelos demais conselheiros.
O aval da corte era considerado a última etapa jurídica do processo. A expectativa era de que o governo mineiro divulgasse os detalhes da oferta já nos próximos dias para que a venda de ações acontecesse até meados de maio. Com as vedações, o cronograma pode ser revisto.
Procurado, o Governo de Minas Gerais não respondeu até a publicação deste texto.
Além da vedação, o TCE-MG determinou que qualquer medida que ultrapasse os limites de um ato preparatório deve ser comunicada à corte com 48 horas de antecedência.
Em entrevista a jornalistas após a sessão, o conselheiro Durval Ângelo afirmou que a publicação do edital de privatização, por exemplo, não configura ato de preparação e, portanto, está vedada neste momento.
“O ritmo agora do processo depende da Copasa”, afirmou. “Como a matéria já foi apreciada no pleno, qualquer medida que ele [governo] tomar daqui para frente, ele tem que voltar ao pleno. Seja para autorizar ou para negar. A matéria hoje está refém do colegiado.”
A oposição comemorou a decisão. “Hoje o Tribunal de Contas colocou um freio no vale tudo que o governo estava fazendo com a Copasa”, disse a deputada estadual Bella Gonçalves (PT). “O leilão, que estava previsto para acontecer no dia 23 [de maio] não é viável mais e todo ato de privatização terá que ser comunicado com 48 horas de antecedência”, acrescentou.
ENTENDA A PRIVATIZAÇÃO DA COPASA
Hoje, o Governo de Minas é o acionista controlador da Copasa, com 50,3% da companhia. Pelo modelo de privatização que ainda será detalhado, o estado manterá uma participação residual de 5%.
Da fatia de 45% da Copasa a ser ofertada, 30% são destinados a um acionista de referência, que é uma espécie de sócio estratégico como acontece com a Equatorial na Sabesp, em São Paulo. Os outros 15% serão oferecidos ao mercado via bookbuilding, processo na Bolsa de Valores em que investidores indicam a quantidade de ações que querem comprar.
O investidor de referência deverá adquirir, sozinho, a fatia de 30%. Pessoas com conhecimento do processo dizem que a disputa está concentrada entre dois grupos: Aegea e Sabesp, que deve participar em consórcio com a Equatorial.
As companhias já declararam publicamente ter interesse na Copasa, considerada o último grande ativo de saneamento a ser oferecido ao setor privado. Ainda assim, a participação não é garantida.
Nos últimos dias, o CEO da Sabesp, Carlos Piani, demonstrou insatisfação com o modelo da privatização da estatal mineira. Segundo ele, o timing estaria muito corrido, e os riscos envolvendo o projeto seriam maiores.
Já a Aegea, segundo apurou a reportagem, está focada no projeto e alinhando uma proposta em parceria com seus acionistas: Equipav, GIC (fundo soberano de Singapura) e Itaúsa.
Uma oferta na privatização da Copasa, contudo, precisaria ser feita em meio às desconfianças do mercado sobre a situação financeira da empresa. Nos últimos dias, a Aegea divulgou seu balanço de 2025 com uma piora na alavancagem (relação entre dívida e Ebitda) e acendeu um alerta entre empresas de rating e analistas ao reapresentar suas informações financeiras de 2024 com uma baixa contábil de R$ 5 bilhões.
Para a Aegea, a avaliação é de que comprar a Copasa pode, inclusive, ajudar a aliviar o indicador de endividamento, já que o ativo entraria no portfólio gerando muita receita instantaneamente.
Como o cheque a ser desembolsado pelo acionista de referência será grande (algo próximo a R$ 7 bilhões), a Aegea deve usar recursos de algum de seus acionistas. A estratégia é parecida com a adotada na privatização da Cedae, no Rio de Janeiro. A companhia arrematou dois lotes em consórcios com seus acionistas.
Apesar do interesse do governo mineiro em buscar um acionista de referência, a Copasa pode acabar se tornando uma corporation (em que não há um controlador principal, como aconteceu com a Eletrobras). Isso porque o modelo deve prever uma comparação de preço entre as duas fases do processo.
Se o valor por ação no processo de bookbuilding superar o preço oferecido pelo sócio estratégico, todas as ações oferecidas pelo governo mineiro serão vendidas para o mercado geral, terminando em uma pulverização do capital na Bolsa de Valores sem investidor de referência.
O mecanismo seria uma espécie de proteção, para evitar que o governo “deixe dinheiro na mesa”. Essa foi uma crítica feita à gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) com a Sabesp. Os R$ 67 pagos por ação pela Equatorial foram cerca de 20% inferior ao preço do papel na época.
AÇÕES DA COPASA ACUMULAM FORTE ALTA
Desde que o processo de privatização da Copasa ganhou tração, as ações da companhia engataram em forte alta. Em 14 de novembro de 2024, quando o governador Romeu Zema enviou projeto de lei sobre a desestatização, os papéis da companhia valiam R$ 22,66. No pregão de quarta (15), as ações fecharam em R$ 57,66 mais que o dobro.
O governo mineiro defende a desestatização da Copasa como medida para melhorar a eficiência na prestação de serviços e garantir o cumprimento de obrigações financeiras do estado.
Diferentemente do modelo de São Paulo onde a privatização da Sabesp foi atrelada à aceleração das metas de universalização do saneamento a venda da Copasa tem como principal fundamento a geração de caixa para o governo de Minas Gerais amortizar sua dívida com a União, que hoje está em R$ 180 bilhões.
O dinheiro arrecadado com a venda das ações (estimado em algo próximo a R$ 10 bilhões) será usado no âmbito do Propag. Há também a previsão de aportar parte dos recursos em um fundo voltado para o desenvolvimento da infraestrutura e saneamento no estado.
A oposição contesta a estratégia, diz que a maioria da população é contra a privatização e que o processo foi feito de maneira açodada.
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RAIO-X | COPASA
Fundação: 1963
Lucro líquido 2025: R$ 1,42 bilhão
Funcionários: 9.400
Municípios atendidos: 636

