SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Deslocado para o teatro de operações do conflito no Oriente Médio, o porta-aviões americano USS George H. W. Bush está fazendo um desvio inusual para evitar a ameaça dos rebeldes houthis pró-Irã do Iêmen.

Segundo monitores de tráfego marítimo, o gigantesco navio de 333 metros de comprimento, 90 aeronaves e quase 5.000 tripulantes está chegando ao cabo da Boa Esperança, na África, contornando o continente rumo ao mar da Arábia.

O navio deixou sua base na costa leste americana no dia 31 de março e, se fosse um trajeto costumeiro, viajaria pelo Atlântico, entraria no Mediterrâneo e cruzaria o mar Vermelho para operar a distância suficiente para ataques eventuais ao Irã.

Como a guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel contra a teocracia está em um cessar-fogo, o foco seria o mar da Arábia, para apoiar o bloqueio naval imposto por Donald Trump contra navios indo e vindo de portos iranianos.

Para isso, o Bush deveria cruzar o mar Vermelho e o estreito de Bab al-Mandab, junto à costa dominada pelos houthis. Os rebeldes apoiados por Teerã já disseram que poderão entrar na guerra naval se as hostilidades forem retomadas.

O desvio, que acrescenta de 10 a 15 dias ao trânsito que normalmente duraria duas semanas, é um testemunho do poder da guerra assimétrica com drones e mísseis empregada pelos houthis.

Quando o grupo, que domina a porção oeste do Iêmen desde 2014, foi ao ataque no mar Vermelho para apoiar os terroristas palestinos do Hamas contra Israel após o ataque de 7 de outubro de 2023 ao Estado judeu, o resultado foi uma disrupção enorme no comércio marítimo global.

Diversos navios associados a Israel e aos EUA foram alvejados, e as rotas mercantis foram remanejadas por caminhos como o contorno da África, aumentando o custo do frete em até cinco vezes no auge da crise, que durou até o cessar-fogo entre Israel e Hamas em outubro de 2025.

Na ocasião, os EUA enviaram um porta-aviões e vários navios de guerra para o mar Vermelho, e a operação para defendê-los de ataques foi custosa —na metade do conflito, os americanos relataram ter gastado US$ 1 bilhão (R$ 5 bilhões) só em munição. Caças foram perdidos em acidentes.

No conflito deste ano, os EUA preferiram não arriscar seus porta-aviões, enormes máquinas de guerra e projeção de poder. Os americanos têm a maior frota do mundo, 11 unidades, que custam em sua versão mais recente quase R$ 70 bilhões cada.

O grupo de ataque centrado no porta-aviões USS Abraham Lincoln opera desde o começo da crise no mar da Arábia, em uma posição relativamente protegida ao sul do golfo de Om㠗longe do alcance máximo de 700 km dos principais mísseis antinavio do Irã.

O outro porta-aviões que participou da guerra, o USS Gerald Ford, operou no mar Vermelho, mas um incêndio em sua lavanderia a bordo o obrigou a se retirar para a Grécia e, depois, para a Croácia. Os reparos foram feitos, mas agora o navio está a uma distância segura da crise, no leste do mar Mediterrâneo.

Nesta semana, o Ford quebrou o recorde de permanência no mar desde a Segunda Guerra Mundial, batendo 296 dias nesta quinta-feira (16). Ele estava no Mediterrâneo quando foi enviado para o Caribe para a operação que capturou Nicolás Maduro na Venezuela, em janeiro.

Depois, rumou ao Oriente Médio, gerando diversos protestos de seus marinheiros, segundo múltiplos relatos. O normal para um porta-aviões é ficar no máximo seis meses em missão, e o Ford, primeiro navio da nova e mais poderosa classe desse tipo de embarcação já construída, apresentou vários problemas.

Além do incêndio, o navio tem problemas constantes no sistema sanitário: um vaso defeituoso gera entupimento em cascata na tubulação a vácuo usada em seus 650 banheiros.

BLOQUEIO SEGUE GERANDO VERSÕES

O Bush e sua escolta de três destróieres, um submarino nuclear de ataque e um navio-tanque, vão se unir ao Lincoln no apoio ao bloqueio naval, que segue gerando disputa de versões.

O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, general Dan Caine, afirmou que nenhum navio afetado pelo embargo passou pelo embargo iniciado na segunda (13).

“Treze navios tiveram o bom-senso de dar meia-volta”, afirmou, dizendo que não foi necessária nenhuma abordagem direta. Já a mídia iraniana relatou que dois superpetroleiros do país chegaram nesta quinta a portos do país, mas eles não apareceram em monitores de tráfego.