SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – E se a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 tivesse dado certo?
É a partir dessa premissa extrema que se desenrola o curta “Vitória Régia”, estrelado por Alice Braga e realizado em parceria com organizações do movimento indígena.
No filme distópico de ação, disponível no YouTube, a derrota nas urnas de um candidato à Presidência da República leva a ataques às sedes dos Três Poderes em Brasília. O presidente eleito, o vice e um ministro do Supremo Tribunal Federal são assassinados. Emerge então um regime autoritário apoiado pelos Estados Unidos, que recebem, como contrapartida, o controle da Amazônia rebatizada de “Amazon of America” e interditada aos brasileiros.
O curta foi concebido como uma peça de ficção e também de intervenção política no debate climático global, num momento em que o retrato documental das tragédias ambientais e da violência contra os povos indígenas parece não sensibilizar muita gente.
“A gente percebeu que fazer documentários já não estava funcionando para mobilizar as pessoas. Todo mundo sabe que a Amazônia está pegando fogo, que os povos indígenas estão sob ataque. Então pensamos em comunicar essa urgência por meio de um filme pop, de ação, capaz de atingir o público também pela emoção”, diz o diretor Cisma, codinome de Denis Kamioka.
Com participação do designer e ativista Pedro Inoue, diretor criativo da revista canadense Adbusters, e roteiro de Carol Pires, corroteirista do documentário “Democracia em Vertigem”, o filme tem ritmo acelerado e mistura política a múltiplas referências ao cinema de ficção científica.
A cidade de São Paulo aparece como uma mistura de cracolândia com uma Times Square verde-amarela, tomada por policiais violentos e civis armados, com um ar do clássico “Blade Runner”. Já a floresta amazônica do filme virou pó e deu lugar a uma paisagem desoladora, entre o deserto e a terra incendiada, que remete à saga pós-apocalíptica “Mad Max”.
A narrativa acompanha uma jornalista investigativa interpretada por Braga, que começa com cenas filmadas na redação da Folha. Ela viaja à Amazônia a convite da empresa americana responsável pela exploração da região. O que é apresentado como um novo modelo de desenvolvimento é, na prática, devastação da floresta e militarização do território.
A repórter entra em contato com uma rede de resistência formada por povos indígenas e comunidades quilombolas. Entre os personagens centrais está a liderança indígena, interpretada pela atriz maranhense Ywyzar Tentehar, que conduz a protagonista por uma Amazônia transformada em zona estratégica global.
A trama foi rodada há mais de um ano, quando, pela primeira vez na história do Brasil, generais e um ex-presidente estavam sendo julgados por tentativa de golpe de Estado. Ao mesmo tempo, ela dialoga com debates atuais sobre recursos naturais e soberania.
Em um evento recente no Texas, o senador e pré-candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, afirmou que “o Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos”, numa referência ao potencial mineral do país.
O filme integra a campanha “A Resposta Somos Nós”, iniciativa do movimento indígena articulada por instituições como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, a Coiab, e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a Apib, para conectar a defesa dos territórios indígenas à crise climática global.
“É um filme que parte da luta real que acontece todos os dias nos territórios. Num mundo com guerras por recursos e por território, falar dos povos indígenas é fundamental para construir um futuro diferente”, diz Tica Minami, especialista em campanhas ligadas à questão ambiental, e responsável pela articulação entre organizações indígenas, artistas, atores e cineastas.
Produzido com participação direta de organizações indígenas, o filme reúne ainda no elenco Marina Person, Caio Horowicz, Marat Descartes e Ayra Kopém.
Para Tukumã Pataxó, que integra a coordenação da Apib, o filme foi concebido como uma ferramenta de conscientização. “Não dá para falar em proteção da vida com um planeta em chamas. Povos indígenas e pessoas não indígenas precisam estar juntos para que a gente não chegue a esse ponto.”
Para Alana Manchineri, da Coiab e consultora indígena do projeto, o curta foi pensado como um instrumento de mobilização política e ambiental de uma campanha que quer chamar a atenção para a responsabilidade de toda a humanidade em relação às mudanças climáticas.”
Ela diz que a história reflete pressões atuais sobre a Amazônia e seus territórios. “A gente precisa que Vitória Régia continue sendo uma obra de ficção.”
VITÓRIA RÉGIA
– Elenco Alice Braga, Marina Person, Ayra Kopém
– Produção Brasil, 2026
– Direção Cisma
– Link: https://www.youtube.com/watch?v=ZiU8kKtu1MU
– Onde ver Disponível no YouTube

