SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Apesar do mal-humor que conquistou crianças e adultos, Shrek parece ter carinho pelo Brasil. Afinal, não é a primeira vez que o ogro traz seu musical da Broadway a São Paulo.
Treze anos após a primeira montagem nacional, o diretor Gustavo Barchilon diz ter tido liberdade para explorar a cultura brasileira. Seja pelo duplo sentido, com piadas para os mais velhos, seja pelos memes que fizeram do monstro um ícone pop, o encenador descreve o personagem como representante do deboche nacional.
“O espetáculo foge à lógica de uma franquia. Pude brincar bastante com o folclore brasileiro, colocar figuras da literatura e inserir várias referências ao cotidiano. É um projeto atual”, afirma. Próximo ao início, quando seres fantásticos invadem o pântano do protagonista, a boneca Emília e a assustadora Cuca, do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, junto da mítica Caipora, aparecem entre os intrusos.
Mais tarde, quando o ogro e seu companheiro, o tagarela Burro, viajam para resgatar a princesa Fiona, animais de “Os Saltimbancos” dão as caras durante o trajeto. O musical de Chico Buarque é um dos vários parodiados pela peça, e o pastiche beneficia uma saga que zomba de diferentes estúdios e conglomerados de mídia.
Não por acaso, a história surgiu de uma vingança contra a Disney. Presidente do estúdio na época em que “A Bela e a Fera” e “O Rei Leão” dominaram as bilheterias, Jeffrey Katzenberg foi demitido em 1994. Com David Geffen e Steven Spielberg, ele fundou a DreamWorks pouco depois.
Anos mais tarde, a produtora fez de “Shrek” uma paródia dos príncipes corajosos, animais encantados e lutas contra o mal que consagraram a empresa do Mickey Mouse. O herói da vez tinha moral duvidosa, a donzela em perigo virava monstro ao anoitecer e o vilão, disposto a tudo para se tornar rei, vivia num tipo de parque de diversões.
“Dizem que Lord Farquaad foi inspirado no CEO da Disney daquele período”, diz Barchilon. “Busquei manter toda a plasticidade do reino, com cores fortes e cenários nada realistas. É abertamente falso e artificial.”
O resultado foi um sucesso de público e crítica e rendeu o primeiro Oscar a um longa animado, três continuações, derivados e especiais de streaming. No Brasil, onde o comediante Bussunda dublou o protagonista morto em 2006, foi substituído por Mauro Ramos, o “Shrek” original obteve uma das maiores audiências da Globo no século 21, quando chegou à Tela Quente três anos após estrear.
Com o tempo, Shrek invadiu festas infantis ou mesmo de influenciadores como Virginia Fonseca, lojas de pelúcias e as redes com memes. Previsto para 2027, o quinto filme, por exemplo, ganhou um teaser em que o personagem veste um óculos Juliet, marca do funk brasileiro na década passada.
Evelyn Castro, intérprete do novo Burro, aponta a inversão de gêneros como outra irreverência. A humorista do Porta dos Fundos cita Eddie Murphy, voz original do personagem, e o colega Rodrigo Sant’Anna, que encarnou o papel em 2013, como inspirações.
“É curioso, enquanto mulher, interpretar o Burro. Somos vistas como menos inteligentes, menos engraçadas e estamos sempre um degrau abaixo”, afirma ela. “No Porta, tive a sorte de sempre estar na mesma posição que os homens, e é maravilhoso levar essas questões ao teatro.”
Para Tiago Abravanel, que vive o rabugento, o projeto lhe permitiu ironizar julgamentos. Neto de Silvio Santos, ele já relatou ter sofrido ataques gordofóbicos, homofóbicos e questionamentos sobre seus méritos artísticos em razão de suas origens.
No palco, por sua vez, Shrek é rejeitado pela aparência e comportamento grotescos. “Todo mundo julga todo mundo. Se não, reality shows não seriam tão populares”, diz. “Por ser de uma família conhecida, cresci ao redor de pessoas que sempre deixaram claro o que esperavam de mim. Hoje, só quero ser amado por quem sou, sem medo de errar e ser julgado.”
Sobre a relação entre o repertório americano e musicais nacionais, o ator afirma que há carência na profissionalização brasileira. Ainda assim, o cenógrafo Tim Hatley é o único estrangeiro de sua equipe.
“A alta rotatividade dessas produções tem deixado de lado a formação de quem escreve, compõe e entende o teatro musical. Essa linguagem não surgiu no Brasil.”
Abravanel cita peças como “Ópera do Malandro”, cuja montagem mais recente ocupou o Teatro Renault antes de “Shrek”, como referências importantes, mas muito antigas. “Temos poucos novos autores. O governo precisa estimular a formação desses rostos para o mercado contemplar tanto musicais da Broadway quanto espetáculos genuinamente brasileiros.”
SHREK – O MUSICAL
– Quando Qui e sex., às 20h; Sáb., às 15h e às 19h30 e dom., às 14h e às 18h30; Até 7 de junho
– Onde Teatro Renault – Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411, SP
– Preço De R$ 50 a R$ 450, em ticketsforfun.com.br
– Classificação Livre
– Elenco Tiago Abravanel, Evelyn Castro e Fabi Bang
– Direção Gustavo Barchilon

