BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O Ministério da Justiça e Segurança Pública convocou de forma inédita, nesta quinta-feira (16), uma entrevista para tratar da Operação Compliance Zero, que em sua quarta fase resultou na prisão do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa. O ato, porém, foi palco para uma propaganda do governo.
A expectativa era de esclarecimentos sobre o caso do Banco Master, mas a entrevista não trouxe informações, e os questionamentos feitos pelos jornalistas sobre a operação não foram respondidos sob a alegação de que as investigações estão em curso ou os dados estariam sob sigilo.
Representantes da pasta dedicaram o evento a falar do trabalho do ministério, da corporação e de atividades do governo Lula (PT) no combate à corrupção. O ato ocorre após o petista enfrentar queda na popularidade com o noticiário negativo em relação ao caso, que ele tenta atribuir à oposição.
Estavam presentes membros do Ministério da Justiça e da Polícia Federal, entre eles o ministro Wellington Lima e Silva. Em sua fala inicial, o ministro da Justiça afirmou que a quarta fase da operação reflete o que seria um “esforço geral do governo de combate ao crime ao crime organizado de modo severo e efetivo”.
“Esta operação reportada nesses limites é apenas uma das ações que se inscreverão no rol de outras iniciativas que o governo deve adotar com mais ênfase nos próximos dias, caracterizando o nosso obsessivo combate ao crime organizado”, disse.
Em seguida, o secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, anunciou um programa batizado de Brasil Contra o Crime Organizado, com foco na asfixia financeira de organizações criminosas.
“Essa operação [se insere] dentro desse contexto e dentro dessa diretriz, que é a diretriz do presidente Lula, de atacar o andar de cima e os magnatas do crime com a independência necessária para a Polícia Federal atuar, como sempre fez nos seus mandatos”, disse.
Esta foi a primeira entrevista coletiva do ministério sobre o caso, em um momento em que o governo busca ampliar a visibilidade de suas ações na área de segurança pública. Ao ser questionado sobre o motivo da coletiva, o ministro disse que foi uma orientação da Secom (Secretaria de Comunicação Social) da Presidência, por haver muitas perguntas.
Ao ser questionado se a entrevista estava atrelada à queda de popularidade do presidente Lula, Lima e Silva disse que aconteceu por causa dos muitos questionamentos da imprensa.
“O Ministério da Justiça é instado pela área central da comunicação do governo que afere qual o volume de demanda da imprensa para essa pergunta e, portanto, nós temos apenas que cumprir o nosso dever de informar”, disse o ministro.
A convocação da entrevista foi marcada por divergências entre o governo e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça, relator do caso.
Segundo duas pessoas envolvidas nas discussões, o governo tinha interesse em divulgar informações sobre as investigações conduzidas pela Polícia Federal, mas esbarrou no sigilo imposto pelo magistrado em relação às informações do caso. Mendonça, segundo esses mesmos relatos, teria enviado sinais de que discordava da realização da entrevista e mandou recados de que suas decisões não poderiam ser desrespeitadas.
A inédita entrevista à imprensa sobre a operação do Banco Master ocorre dois dias após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dizer ao portal 247 que orientou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, a dar informações mais detalhada sobre o caso e a origem de outras quadrilhas denunciadas pela corporação.
“Todo crime que a Polícia Federal desvendar, todo e qualquer crime, tem que dizer: quando é que começou a funcionar a quadrilha, quando ela foi criada e em que governo. Para que a gente dê à sociedade a dimensão da serpente que botou o ovo, que germinou o crime organizado”, afirmou Lula na terça-feira (14).
Costa é investigado por seu papel na tentativa de compra do Master pelo BRB e na compra de carteiras oferecidas pelo banco de Vorcaro, além das operações em que o banqueiro e seus associados se tornaram acionistas do Banco de Brasília.
Segundo as investigações, um dos fundamentos para a prisão é a suspeita de que ele teria ocultado seis imóveis recebidos como propina, quatro em São Paulo e dois em Brasília, avaliados em R$ 146,5 milhões, dos quais cerca de R$ 74,6 milhões já teriam sido efetivamente pagos, conforme os elementos reunidos até o momento.
O advogado Cléber Lopes, que faz a defesa de Costa, disse que seu cliente não praticou crime algum e que a prisão realizada foi um exagero por parte da Justiça. “A defesa continua firme na convicção de que o Paulo Henrique não cometeu crime algum”, disse Lopes ao deixar o apartamento do ex-presidente do BRB no bairro Noroeste, em Brasília, onde ocorreu a prisão.

