RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Casacos, jaquetas, trench coats e camisas de couro o sol de quase 30 graus no céu azul não impediu que o público da semana de moda do Rio de Janeiro montasse looks que ignoram o calor para vir ao evento.
Neste balneário com o oceano aos pés, o cenário convida o tempo a ter menos pressa, e era justamente o passar das horas o tema do desfile que abriu a quarta-feira. A Aluf, marca da diretora criativa Ana Luisa Fernandes, mandou para a passarela looks que tinham o tempo cronológico, do relógio, e o tempo sensível, interno, como inspiração.
Traduzir este conceito etéreo em roupas não pareceu tarefa fácil. O melhor look foi o primeiro Camila Pitanga, de cabelo crespo longuíssimo, entrou de vestido off-white sem mangas com as laterais adornadas com pérolas. Uma roupa com identidade profundamente brasileira, mas sem os clichês comumente associados ao nosso país.
Ao som da trilha do “tic tac” do relógio, as modelos mostraram tecidos de textura granulada, tricôs com fios soltos e sarjas desfiadas. Se havia esmero na execução das peças e a silhueta favorecia o movimento da roupa com o corpo, o desfile teve um ar meio antigo, quase de figurino de filme da primeira metade do século 20. Este vestuário tem uma consumidora bem específica, que encontra agora a marca num momento de mais popularidade, depois de uma coleção lançada com a Renner no ano passado.
Voltada a outro tipo de público, a Piet, marca de streetwear mais importante do Brasil hoje, fez o melhor desfile do dia, no qual mostrou peças criadas em colaboração com a Pool, braço de jeans da Riachuelo. Neste jogo, ambas as etiquetas ganham a grande varejista, por ter Pedro Andrade, um designer com certa influência cultural, associado a seu nome, e a marca de Andrade, por ser exposta a um público muito mais amplo do que tem hoje.
Com o início da Copa do Mundo daqui a dois meses, Andrade disse que a coleção giraria em torno do futebol. Embora camisetas de time e chuteiras estilizadas tenham sido desfiladas, a temporada foi muito além disso, numa apresentação coerente do primeiro ao último look e que soube misturar referências tão distintas quanto a cultura jamaicana e o movimento punk.
Jaquetas de couro desgastadas e remendadas com patches foram combinadas com longas bermudas rabiscadas, enquanto as peças de estilo militar feitas em patchwork deram o tom utilitário do desfile. Os cintos, embelezados com cristais, traziam inscrições relativas à Piet. No meio disso, havia a alegria das cores, com mocassim vermelho, moletom de capuz laranja e camisetas em amarelo com verde.
A longuíssima passarela, de 60 metros de extensão, foi decorada como se fosse um campo de futebol de várzea, com traves de gol improvisadas no estilo brasileiro de fazer mais com menos. A certa altura, o fenômeno do trap TZ da Coronel entrou cantando para desfilar um conjunto esportivo, o que reforça o diálogo da Piet com a cultura de rua da qual ela se alimenta. Parte das peças desfilada será lançada pela Riachuelo, e a outra parte sai pela Piet.
Mais cedo nesta quarta, a Normando armou um desfile em que as roupas contavam a história de uma natureza que começa verde e vai apodrecendo. Dividido em blocos, primeiro vieram as peças em tons neutros e com degradês em verde e, mais para o fim, foi a vez da estamparia marrom e amarela inspirada pela coloração de bananas podres. No meio, looks em látex remetiam à prática extrativista da borracha na Amazônia e também à guerra do petróleo detonada pelo conflito Irã e Estados Unidos.
A história que amarra a coleção é poderosa e também terreno conhecido de Marco Normando e Emídio Contente, os nomes por trás da marca, ambos de Belém e que tiveram um estouro de popularidade em março, depois de a atriz Alice Carvalho usar um vestido da etiqueta no tapete vermelho do Oscar. Contudo, o desfile foi de altos e baixos.
Por um lado, havia peças muito boas, ousadas mas ainda assim vestíveis, atestados da capacidade de invenção da dupla uma calça de alfaiataria com diversas fendas nas pernas, que se prendiam umas às outras por bordados manuais, e um vestido de látex fumê na parte de cima e renda na parte inferior, contraste têxtil que funcionou.
Por outro lado, o top com duas bananas cravadas no bico dos seios e todas as peças com aplicações de elementos verdes da natureza não tinham qualquer sutileza e reforçavam a história do desfile de maneira óbvia demais. Isso sem contar os modelos vestindo folhas gigantes, algo que o paisagista Burle Marx fez melhor e com mais graça.
Ainda há três dias de programação da Rio Fashion Week, que segue até o final de sábado na capital fluminense. Nesta sexta-feira, a Misci mostra sua nova coleção na Sapucaí, a primeira vez que o sambódromo recebe um desfile de moda, e no dia seguinte Lenny Niemeyer, um dos maiores nomes da moda carioca, arma uma passarela no Museu do Amanhã para celebrar os 35 anos de sua marca.

