SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um perfil que usa imagens criadas por meio de inteligência artificial (IA) está se passando por uma funcionária de uma rede de supermercados e atraindo milhares de seguidores com objetivo de venda de conteúdos sexuais. Bia do Atacadão se apresenta como uma mulher de 24 anos, branca, loira, de olhos claros que vive na cidade de São Paulo. A empresa diz repudiar o uso indevido da marca e da identidade visual “em conteúdos dessa natureza”.

À reportagem o Atacadão disse ter acionado a equipe de segurança da informação para adotar as medidas cabíveis. Afirmou ainda que procurou a Meta, que gere o Instagam, e o Tiktok para apagar os páginas, “além de reforçar o monitoramento para evitar a criação de perfis semelhantes”. No Instagram, o perfil acumulou mais de 75 mil seguidores (entre atuais e excluídos), enquanto o alcance no Tiktok era menor, restrito a 500 seguidores, que já foi apagado pela plataforma.

As páginas em que Bia aparece têm o objetivo de levar os seguidores ao grupo privado do Telegram, no qual há mais de 12 mil inscritos (em março, chegou a 40 mil) e é vendido o conteúdo sexual sem menção de que trata de uma IA. “Eu pareço só a loirinha do Atacadão, mas não se engane. Passei muito tempo sendo só a loirinha simpática do caixa… Mas tem um lado meu que não aparece entre as prateleiras”, diz a mensagem de boas-vindas no grupo.

Os preços das imagens variam de R$ 22 (semanal) a R$ 75 (anual). “Linda”, “elegante” e “maravilhosa” são alguns dos comentários feitos por homens nos perfis dela, como se estivessem elogiando uma mulher real.

A reportagem tentou contato com os perfis de Bia no Instagram e no Telegram nesta semana, mas não obteve resposta.

Há características que evidenciam que o perfil foi feito por meio de IA, explica David Nemer, antropólogo da tecnologia e professor na Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos.

Ele analisou os conteúdos de Bia a pedido da reportagem e mencionou falhas que comprovam se tratar de um conteúdo gerado por IA. “Em alguns vídeos, ela tem manchas ou sinais na pele que não aparecem em outros conteúdos. Além disso, os fundos dos vídeos sempre são estáticos, com a mesma iluminação.”

Nemer citou também que os movimentos da boca dela não seguem exatamente o que ela diz. “A estética como um todo entrega que é IA porque parece muito artificial, mas essa conclusão é feita por mim, que estou acostumado a fazer essas análises”, disse.

A reportagem procurou o Instagram para comentar o caso e questionou as políticas da rede sobre os perfis de IA. No entanto, a Meta não quis comentar o tema.

Já o TikTok disse em nota que deletou o perfil de Bia, pois “viola as diretrizes da comunidade” da plataforma. A rede afirmou exigir que os criadores de conteúdo identifiquem as publicações feitas com inteligência artificial.

Mesmo com rótulos, segundo o TikTok, há regras para esses conteúdos. “É proibida qualquer forma de conteúdo enganoso sobre assuntos de importância pública ou prejudicial às pessoas”, disse.

O grupo de Bia segue ativo no Telegram. A plataforma de mensagens não respondeu aos contatos da reportagem.

PRÁTICA PODE CONFIGURAR ESTELIONATO E EXTORSÃO, APONTA ESPECIALISTA

Para induzir o pagamento no grupo do Telegram, o perfil de Bia manda uma mensagem que afirma falsamente que o CPF do usuário foi cadastrado em uma cobrança sobre os conteúdos sexuais dela, que deve ser paga para que a pessoa não tenha o nome inserido em listas públicas de devedores.

No Brasil, não há crimes especificamente sobre atos relacionados ao uso indevido de IA, diz o advogado Marcelo Crespo, professor e coordenador do curso de direito da ESPM. Dessa forma, o direito penal é aplicado com base no que já existe na legislação brasileira.

A venda de conteúdo sexual adulto por si só não é crime. Mas o caso de Bia pode ser classificado como estelionato, apontou Crespo, que é especialista em direito digital.

O estelionato pode ser caracterizado quando um usuário se sente lesado porque o perfil se passa por uma pessoa real para obter dinheiro. O mesmo vale para o caso de ter efetuado pagamento pelo pacote de imagens e não ter recebido. O crime também pode ser configurado pelo uso da marca do supermercado Atacadão “para gerar credibilidade e induzir consumidores em erro”, comentou Crespo.

Já a extorsão, segundo ele, pode ser considerada por causa da falsa afirmação de que o membro do grupo precisa pagar pelas imagens ou terá o nome incluído em uma lista pública de devedores.

Perfis como o de Bia podem se tornar mais comuns em meio ao avanço das ferramentas de inteligência artificial, diz Crespo.

Para as vítimas, a recomendação é guardar as provas, como prints de mensagens e comprovantes de pagamentos, e buscar as autoridades policiais.

Crespo afirmou que casos desse tipo representam um problema urgente na economia digital: a criação de identidades artificiais monetizáveis. “O ponto central é a falta de transparência de que se trata de uma pessoa virtual. É possível que o debate jurídico avance para exigir a clara identificação de que um conteúdo é gerado por inteligência artificial, especialmente se houver exploração comercial.”

Para Nemer, é fundamental que haja a clara explicação de que se trata de imagens geradas por meio de IA, para que as pessoas assinem tais conteúdos cientes das origens deles.

EMPRESAS DE COBRANÇA NEGAM ENVOLVIMENTO

As cobranças no perfil de Bia têm duas empresas como destinatárias: a R Torres Participações LTDA e a Sync Pay Pagamentos LTDA.

Ambas têm centenas de acusações de golpes no Reclame Aqui nas últimas semanas. Usuários da plataforma relatam transferências bancárias a números de Pix dessas empresas para adquirir diferentes itens, como roupas, alimentos ou gás, mas que nunca receberam essas compras.

No Reclame Aqui não há nenhum relato sobre Bia.

Em respostas à reportagem, as empresas negaram qualquer vínculo com o perfil e disseram que não têm relação com os diversos golpes relatados no Reclame Aqui.

A Sync Pay afirmou que “atua como uma subcredenciadora de pagamentos, provendo infraestrutura tecnológica para transações financeiras”. A empresa disse que trabalha para “identificar e banir qualquer usuário que utilize nossos serviços de forma indevida ou em desacordo com as diretrizes legais”.

Já a R Torres Participações argumentou que é uma holding e não faz nenhum tipo de venda. Em nota, justificou que seus dados têm sido usados para aplicar golpes e disse desconhecer qualquer transação ilegal em seu nome.