SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Uma garota de olhos grandes, cujos cabelos se desdobram em formas arbóreas, dá origem a outras figuras semelhantes, com os mesmos olhos volumosos. Ao seu lado, uma copa de árvore de plástico com as mesmas cabeças da pintura sai do quadro e ganha materialidade no espaço.

O mesmo acontece com gatos, poltronas, nuvens e uma série de outros elementos que transitam entre o plano bidimensional e a realidade na exposição “Portais”, de Nina Pandolfo.

Na mostra que abre, nesta sexta (17), no Farol Santander, a artista e grafiteira apresenta obras de diferentes momentos de sua trajetória -reunindo desenhos, pinturas, grafites e obras imersivas que articulam esse universo imaginário em expansão.

“Quando eu crio, é como se eu estivesse vendo um cenário em movimento e dentro de um universo que existe”, afirma ela. “A pintura acaba sendo quase uma fotografia desse lugar. Então pensei: por que não tridimensionalizar essas imagens?”

É desse impulso que surgem, por exemplo, um sofá em forma de coelho, vestidos que parecem saltar das telas e gatos enormes que acolhem o visitante. Elementos do cotidiano funcionam como pontos de entrada para seu mundo. Segundo Pandolfo, por serem familiares, esses objetos facilitam a aproximação do público, que passa a sentir a obra antes mesmo de buscar entendê-la.

Com muitos trabalhos inéditos, o percurso, segundo a artista, não segue uma lógica cronológica, mas se orienta pelos elementos da sua carreira. A imagem da árvore, recorrente na montagem, é uma boa síntese -suas raízes, visíveis e invisíveis, conectam passado e presente, sustentando o que se vê acima da superfície.

Esse retorno às origens aparece também em desenhos antigos, alguns feitos ainda na infância, entre 1981 e 1982, e também em bonecas de feltro e murais no espaço urbano.

Conhecida por seu trabalho no grafite desde a década de 1990, Pandolfo vê na rua o primeiro movimento de aproximação com o público. Segundo a artista, a intenção era fazer com que as pessoas encontrassem a arte em seus trajetos cotidianos, não apenas dentro de galerias.

A experiência com o teatro de rua, no mesmo período, foi decisiva. Passou a entender a cidade como espaço de encontro direto com o público, como mostram os trabalhos ao lado de Nunca e d’Os Gêmeos.

Embora dividissem muros e projetos, suas linguagens seguiam caminhos distintos -enquanto os colegas partiam de referências ligadas ao hip-hop, Pandolfo criava sua fantasia de figuras lúdicas. Para ela, a convergência estava na ocupação do espaço urbano como um palco aberto onde se instauram outras formas de percepção.

Hoje, mesmo com as mudanças tecnológicas, essas mesmas ideias se repetem, agora com o uso da técnica de projeção “videomapping” e em instalações imersivas.

Dentre estas últimas estão os célebres gatos monumentais, inspirados em animais que fizeram parte de sua vida. Um deles, apresentado originalmente em 2013 -e exibido por anos no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, no parque Ibirapuera-, retorna agora acompanhado de um filhote. “A ideia é inverter a lógica. Em vez de você pegar o gato no colo, é ele que acolhe você”, diz.

Ao longo da exposição, essa inversão de escalas e sentidos se repete. Objetos familiares tornam-se estranhos; figuras fantásticas ganham concretude. O visitante é convidado a abandonar a lógica cotidiana e aceitar uma outra forma de percepção. “A proposta é atravessar o portal da racionalidade e se permitir imaginar. A criança faz isso naturalmente. O adulto precisa reaprender”, afirma a artista.

Esse universo, povoado por meninas de olhos grandes e expressivos, remonta às suas primeiras experiências de desenho. “Os olhos sempre estiveram ali. Não é uma influência externa, é algo que nasceu comigo.”

Além do traço estilístico, eles condensam uma forma de comunicação baseada menos na fala e mais na percepção sensível. “É um mundo em que se sente mais do que se explica. E é isso que proponho com a exposição e seus portais.”

EXPOSIÇÃO PORTAIS – NINA PANDOLFO

Quando de 17 de abril a 2 de agosto, de terça a domingo, das 9h às 20h

Onde Farol Santander – Rua João Brícola, 24 – Centro – São Paulo

Preço R$ 45,00 (inteira) / R$ 22,50 (meia)