WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – No noticiário e na cultura popular, árabes e muçulmanos são frequentemente associados a guerras. Pois uma mostra em cartaz em São Paulo os associa, em vez disso, à matemática, à arquitetura e à história.
Inaugurada na terça-feira (14), a exposição “Passeio Matemático por al-Ândalus” apresenta uma série de monumentos da Península Ibérica. Em especial, põe o foco na região espanhola da Andaluzia. Foi nesse local que prosperou uma civilização islâmica por quase 800 anos, de 711 a 1492.
“A proposta é usar os conceitos da matemática para explicar a beleza desses monumentos”, explica Christina Queiroz, diretora de comunicação do ICArabe (Instituto da Cultura Árabe), uma das instituições por trás do projeto, em parceria com o Instituto Cervantes.
Os painéis expostos na região da avenida Paulista destrincham construções como o Palácio de Alhambra, a Mesquita de Córdoba e a Giralda de Sevilha. Foi naquelas abóbadas, mosaicos e arcos que brilhou o gênio da matemática de matriz árabe-islâmica. O conhecimento produzido por aqueles sábios inspirou, mais tarde, a produção científica no restante da Europa.
A exposição começou na Espanha, onde há um debate público sobre a contribuição -tantas vezes esquecida- de árabes e muçulmanos. Essa mesma proposta permeia a chegada dos painéis ao Brasil. “Queremos chamar a atenção para outras matrizes do conhecimento”, conta Queiroz.
De modo mais amplo, o projeto quer dialogar com modos de pensar a ciência para além da Europa, explica. Isso inclui não apenas valorizar os árabes e os muçulmanos, como faz a exposição, mas também continuar demonstrando a importância dos conhecimentos indígenas e africanos de modo geral.
Há também a ideia, menos óbvia, de apresentar ao público brasileiro a história da Andaluzia. Existiu ali -apesar de suas limitações- uma ideia de convivência entre diferentes religiões. É um panorama oposto ao que se vê hoje nas notícias, que insistem na inimizade entre judeus, cristãos e muçulmanos. A Andaluzia é, assim, quase um contra-exemplo.
Os exércitos islâmicos chegaram à Península Ibérica em 711 e derrotaram os visigodos. Ocuparam, com o tempo, quase toda a região, com exceção do norte, onde havia reinos cristãos. A ciência e a arte floresceram, tornando Córdoba um dos grandes centros intelectuais da região mediterrânea.
Apesar de a Andaluzia ser hoje evocada como exemplo de convivência pacífica entre povos, é importante notar que havia também tensões, hierarquias e alguns episódios de violência entre as suas diferentes comunidades.
Embates com reinados cristãos e disputas internas reduziram o poderio árabe. É famosa, em especial, a conquista de Granada em 1492 pelos reis católicos Isabel de Castela e Fernando de Aragão, que marcou o fim do período andaluz.
Os monumentos que ficaram estão entre os mais celebrados da Espanha. Os destaques são o complexo de palácios de Alhambra, em Granada, e a Mesquita de Córdoba, famosa por seus pilares e arcos vermelhos e brancos. A exposição explica as equações que possibilitaram essas construções.
PASSEIO MATEMÁTICO POR AL-ÂNDALUS
Instituto Cervantes – av. Paulista, 2.439, Bela Vista, região central. Até a 30 de maio. Grátis

