SÃO PAULO, SP E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – A PF (Polícia Federal) prendeu nesta quarta-feira (15) os músicos MC Ryan e MC Poze do Rodo e o dono do site Choquei, além de outros 30 suspeitos, em uma operação contra uma organização criminosa especializada em lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O esquema teria movimentado mais de R$ 1,63 bilhão.

Segundo a investigação, os recursos ilícitos tinham origem principalmente na exploração de jogos de azar não regulamentados, apostas de bets, rifas digitais clandestinas e práticas de estelionato digital. Há ainda indícios de utilização do esquema para lavar dinheiro do tráfico internacional de drogas.

Poze foi preso no Rio de Janeiro, e Ryan em Bertioga, no litoral paulista. Outros mandados de prisão temporária e de busca e apreensão foram cumpridos em Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e no Distrito Federal. Ao todo, 33 pessoas foram presas de um total de 39 alvos de mandado.

MC Ryan foi apontado como líder e beneficiário do esquema de lavagem. Segundo decisão judicial no processo, que tramita na 5ª Vara Federal de Santos, no litoral paulista, o artista utiliza empresas ligadas à produção musical e ao entretenimento para misturar receitas legítimas com dinheiro arrecadado com apostas ilegais e rifas digitais.

A polícia afirma que ele criou maneiras para blindar seu patrimônio, transferindo participações societárias para familiares e laranjas. Ele usaria uma rede de operadores financeiros para disfarçar sua relação com o dinheiro ilícito de apostas antes de reinvesti-lo com a compra de imóveis de luxo, veículos, joias e outros ativos de alto valor.

O advogado Felipe Cassimiro Melo de Oliveira, que o defende, afirmou que não teve acesso ao procedimento, o que o impede de se manifestar sobre detalhes do caso. Ele ressaltou que Ryan é uma pessoa íntegra e que “todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos”.

Já MC Poze, segundo a PF, tem vínculos com empresas que estão na rede de repasses de dinheiro com origem em rifas digitais e apostas suspeitas. Seu advogado, Fernando Henrique Cardoso Neves, afirmou que desconhece o teor do mandado de prisão.

MC Ryan tem 15,6 milhões de seguidores no Instagram. MC Poze acumula 49,1 milhões. Os dois costumam usar suas redes para divulgar bets e rifas. Os dois músicos foram alvos de restrições ao uso do patrimônio, como sequestro de bens e a imposição de restrições societárias.

A operação, batizada de Narco Fluxo, também também resultou na prisão de Raphael Sousa Oliveira, 31, dono da Choquei, uma das maiores páginas de entretenimento do país. A investigação aponta que ele recebia “altos valores” de integrantes do grupo em troca de serviços como operador de mídia -o que consistia na divulgação de conteúdos, promoção de apostas e gestão de imagem. Não foi especificado o valor recebido.

A reportagem tentou contato com a defesa por email e mensagem enviados às páginas administradas por Raphael, mas não houve resposta até a tarde desta quarta-feira.

“Eles se utilizam de pessoas que têm grande visibilidade para fazer a propaganda dessas empresas de apostas ilegais e para movimentar o dinheiro de forma a não chamar a atenção das autoridades”, afirmou o delegado Marcelo Maceiras, da PF. “Por quê? Essas pessoas públicas com muitos seguidores conseguem movimentar grandes quantias sem chamar a atenção dos sistemas de compliance das autoridades e dos bancos. Então eles são muito úteis e facilmente recrutáveis.”

Proprietários de duas produtoras de funk e de uma gravadora também estão na lista dos alvos da PF. Eles já apareciam em apurações anteriores por suspeita de ligação com a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).

Entre eles está Henrique Alexandre Barros Viana, o Rato, fundador da produtora Love Funk. Em maio do ano passado, ele e outras cinco pessoas foram denunciadas pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, exploração de jogos de azar e delitos contra a ordem tributário, num esquema ligado ao PCC.

Agora, segundo a PF, Viana teria participação na movimentação de recursos do grupo suspeito de lavagem de dinheiro sem origem comprovada. A defesa dele declarou em nota que recebeu a operação com surpresa e que o empresário é nacionalmente respeitado na indústria musical.

A Operação Narco Fluxo é um desdobramento das operações Narco Bet e Narco Vela. Além dos 39 mandados de prisão temporária, foram expedidos mandados de busca e apreensão em 45 endereços nos nove estados.

Poze foi preso em casa, em um condomínio de luxo no Recreio dos Bandeirantes, zona sudoeste do Rio de Janeiro. Ele foi colocado na parte traseira de uma viatura da Polícia Federal, usando bermuda e um casaco com capuz. Na sua residência, foram apreendidos um Porsche e uma BMW.

De acordo com a Polícia Militar, que participou da ação, os influenciadores Chrys Dias e a mulher dele, Débora Paixão, foram presos em Itupeva, no interior de São Paulo. Em sua rede social, Chrys Dias se apresenta como empresário de MC Ryan e de outros influenciadores.

Em Jundiaí, em uma casa de MC Ryan foi preso o influenciador Matheus Magrini, também segundo a PM. Ele é filho de Eduardo Magrini, conhecido como Diabo Loiro, apontado pela polícia como traficante internacional de drogas e membro do PCC. Ele foi preso em outra operação, em outubro de 2025.

Os envolvidos podem responder pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Durante o cumprimento das medidas, foram apreendidos veículos, valores em espécie, documentos e equipamentos eletrônicos. Apenas os veículos apreendidos valem mais de R$ 20 milhões, segundo a PF

A Justiça autorizou a quebra de sigilo de aparelhos como celulares, computadores e outros equipamentos, o que deve ajudar a continuar as investigações.

“As investigações ainda vão prosseguir. Nós ainda temos muito a entender sobre a movimentação e a destinação desse dinheiro que essa associação [criminosa] vem movimentando”, disse o delegado Maceiras.

POZE JÁ FOI INVESTIGADO

Poze ganhou destaque no funk ao retratar em suas músicas o cotidiano de favelas, especialmente o Complexo do Rodo, o que o levou a alcançar popularidade, com cachês elevados.

O artista foi preso em 2019 e novamente em 2025 pela Polícia Civil sob suspeita de apologia ao crime e envolvimento com o tráfico de drogas. A prisão de 2025 foi temporária, com duração prevista de 30 dias, mas ele obteve liberdade após cinco dias, em 3 de junho. Sua saída do presídio foi acompanhada por centenas de fãs.

As investigações da época apontam ligação de suas músicas com o Comando Vermelho, como o incentivo a disputas territoriais, além de indicarem que seus shows ocorreriam majoritariamente em áreas dominadas pela facção, com presença ostensiva de traficantes armados garantindo a segurança dos eventos e possível uso dessas apresentações para fomentar atividades ilícitas.

Além disso, em 1º de agosto, Poze foi denunciado sob acusação de tortura e extorsão contra um ex-empresário, práticas negadas por sua defesa. O cantor é pai de cinco filhos e conhecido por ostentar joias, carros de luxo. Neste ano, ele também relatou ter sido vítima de um assalto em sua residência, no qual teria sido feito refém e sofrido prejuízo milionário do roubo de suas joias.