WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – O FMI (Fundo Monetário Internacional) divulgou nesta quarta-feira (15) o relatório Monitor Fiscal com a projeção de que a dívida pública do Brasil deve atingir 100% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2027.
Para efeito de comparação, a expectativa do fundo é que a dívida pública global alcance o mesmo patamar apenas em 2029 prazo que já foi antecipado em um ano em relação às projeções feitas no ano passado. Segundo o FMI, essa perspectiva mais pessimista global é impulsionada principalmente pelas maiores economias do mundo.
“As finanças públicas estão sob pressão devido ao crescimento dos gastos e ao aumento dos custos com juros. As consequências fiscais do conflito no Oriente Médio agravam ainda mais essas fragilidades”, afirma o fundo, que classifica como “urgente” um ajuste fiscal “crível e bem planejado” em todos os países.
O quadro atual é mais pessimista do que o projetado em outubro do ano passado, quando a previsão era que o Brasil chegaria a 98% de dívida pública até 2030.
O Brasil se destaca em relação à média global, cuja projeção para 2027 foi fixada em 97%. Em comparação, países como o México têm a dívida prevista em 63% do PIB.
O fundo também está mais pessimista em relação ao déficit primário em comparação com o relatório anterior, de outubro de 2025. Na ocasião, a projeção era que o Brasil encerraria 2025 com um déficit de 0,4% do PIB.
Agora, a estimativa subiu para 0,5% -a meta fiscal do governo brasileiro foi fixada em 0,25 ponto percentual do PIB para cima ou para baixo.
O relatório aponta ainda que o déficit nominal do país deve saltar de 6,2% do PIB em 2024 para 8,1% em 2025.
Em entrevista a jornalistas nesta quarta-feira (15), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que está em Washington para as reuniões do FMI, afirmou que há diferenças metodológicas na forma de cálculo das dívidas que explicam parte da divergência entre os números do fundo e os do governo brasileiro.
“Não há nenhuma novidade em termos do que foi anunciado pelo FMI. Temos um compromisso com a estabilização da trajetória da dívida pública brasileira e uma expectativa de, no médio e longo prazo, reduzi-la”, afirmou Durigan.
Entre as principais diferenças apontadas pelo ministro estão os títulos do Tesouro Nacional custodiados no Banco Central que não são utilizados para fins de financiamento da dívida nem para finalidades monetárias -a chamada carteira livre do Banco Central.
“O FMI inclui esse montante de títulos na conta da dívida pública. De fato, isso não deveria ser considerado, do nosso ponto de vista”, disse.
Na entrevista, Durigan reforçou o compromisso do governo com a estabilização e a redução da dívida no médio e longo prazo, e defendeu medidas como corte de gastos, eliminação de benefícios indevidos e aumento da eficiência do Estado como instrumentos para dar maior resiliência à economia brasileira.
Crescimento positivo
Nesta terça-feira (14), o FMI divulgou o relatório sobre crescimento econômico, no qual o Brasil recebeu uma revisão positiva em relação aos dados publicados em janeiro: a projeção de crescimento subiu de 1,6% para 1,9%.
A diretora-geral do fundo, Kristalina Georgieva, chegou a publicar nas redes sociais uma foto ao lado do ministro brasileiro, com uma avaliação favorável ao país.
“O Brasil está relativamente bem posicionado para enfrentar a turbulência global. Esforços para fortalecer as finanças públicas são bem-vindos, e reformas contínuas aprimorariam ainda mais a resiliência”, escreveu.
Apesar da revisão positiva para o crescimento deste ano, o fundo revisou para baixo a projeção de 2027. O FMI também recomendou que, em meio à guerra envolvendo o Irã, os países evitem subsídios generalizados e priorizem transferências diretas de dinheiro à população.
O Brasil, no entanto, adotou medidas de subsídio para baratear o combustível em meio a guerra contra o Irã. Durigan defendeu a postura do governo, argumentando que o país já vinha se preparando para choques externos e que decisões anteriores -como a exploração do pré-sal, a formação de reservas internacionais e ajustes fiscais recentes- tornaram o Brasil mais resiliente hoje e o colocaram em melhor posição para responder a crises.
O ministro sustentou ainda que o Brasil tem sido visto como exemplo internacional de gestão de crises. Em relação à recomendação do FMI, ele argumentou que o fundo não é contrário a subsídios de forma absoluta, mas sim a medidas “amplas e indiscriminadas” -e que as ações brasileiras seguem exatamente a lógica oposta: são temporárias (com prazo previsto até o fim de maio), limitadas a grupos específicos afetados por problemas de abastecimento e estão em constante reavaliação.
Durigan destacou que o governo pretende reavaliar as medidas ao final de maio, podendo ajustá-las ou substituí-las conforme o cenário. O ministro argumentou também que essas ações fazem parte de uma resposta racional à crise e que o Brasil utiliza eventuais ganhos de receita para financiá-las de forma pontual, sem comprometer o arcabouço fiscal.
O governo Lula estuda medidas para reduzir o endividamento, que deve ser anunciado em breve. Na semana passada, em entrevista à Folha de S. Paulo, o ministro negou se tratar de uma questão eleitoral.
“A gente está lidando com problemas concretos. Não vamos deixar de atender à questão da guerra nos combustíveis e o endividamento das pessoas, questões fundamentais para a economia do país”, afirmou.
Ele não detalhou quando o programa deve ser lançado, mas prevê que é na volta para o Brasil -depois de Washington, Durigan segue para a Europa para acompanhar o presidente Lula (PT), em agenda na Espanha e Alemanha.
“Na volta para o Brasil, devemos anunciar o programa, que está bem encaminhado. É uma medida boa para as famílias do Brasil, medida boa para o mercado e tem contrapartidas estruturais como, por exemplo, restrições de uso de bets, apostas online. que eu acho que vai ser bom para o país em termos de ganhos estruturais”, afirmou nesta quarta.

