JACAREÍ, SP (FOLHAPRESS) – A White Martins, gigante da produção de gases industriais, inaugurou nesta quarta-feira (15) uma planta de hidrogênio verde em sua unidade em Jacareí, a 84 quilômetros de São Paulo. Segundo a companhia, trata-se da primeira produção em escala do combustível no Sudeste.
A nova planta produz 800 toneladas de hidrogênio verde por ano, das quais 20% são vendidas à produtora de vidro Cebrace, que opera uma fábrica próxima. Os demais 80% serão distribuídos a outros clientes da empresa, principalmente siderúrgicas em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
O hidrogênio verde é uma alternativa ao hidrogênio cinza. Enquanto o segundo é feito a partir da quebra da molécula do gás natural, o primeiro tem como insumos principais água e energia limpa.
No caso da White Martins, a empresa recebe água do Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Jacareí e obtém as moléculas de hidrogênio por meio da eletrólise. O processo demanda 5 MW (megawatts) de energia elétrica, quantidade suficiente para abastecer mais de 20 mil residências.
O hidrogênio é considerado verde porque a energia é contratada de usinas eólica e solar da própria empresa no Rio Grande do Sul e na Bahia, respectivamente. Assim, ainda que a energia venha da rede elétrica de Jacareí, a empresa pode dizer que a energia que abastece a planta é limpa e renovável.
Ao final, o hidrogênio é transportado em carretas. Para a Cebrace, um pequeno gasoduto está em construção e deve ser licenciado ainda neste ano. No caso da fabricante de vidros, todo o hidrogênio fornecido será verde, mas, para os demais clientes, pode haver mistura com o cinza, também produzido pela empresa.
De acordo com Gilney Bastos, presidente da White Martins na América Latina, o combustível gerado na nova planta é vendido para Cebrace pelo mesmo preço do hidrogênio cinza. “Nosso intuito é trabalhar com a introdução do hidrogênio verde na indústria nacional”, diz Bastos. “A gente percebe vontade de as indústrias produzirem algo diferenciado, mas primeiro elas querem ver funcionando para ver se é real.”
A White Martins não divulga o investimento total da planta nem o custo de produção do hidrogênio verde, ainda que afirme que há competitividade com o hidrogênio cinza.
Dados da CELA (Clean Energy Latin America) divulgados no ano passado, no entanto, apontam que os custos para produzir hidrogênio verde no Brasil estão entre US$ 2,94 e US$ 7,38 por quilo. Em comparação, os custos do cinza estavam entre US$ 1,06 e US$ 3,27 em setembro de 2025, ainda bem antes de a guerra no Irã afetar os preços do gás natural.
A indústria do hidrogênio verde tem enfrentado dificuldades para avançar em todo o mundo. Se há poucos anos o setor era visto como promissor para substituir combustíveis fósseis em indústrias pesadas, hoje há ceticismo sobre sua viabilidade. Empresas europeias, que seriam o primeiro grande mercado consumidor, atrasaram planos, o que desencadeou desistências entre produtores.
O Brasil é um potencial exportador de hidrogênio verde em larga escala. No Nordeste do país, grandes empresas de energia e mineração, como Casa dos Ventos, Qair e Fortescue, têm planos de construir plantas até 300 vezes maiores que a inaugurada pela White Martins.
Para isso, o mercado brasileiro espera desde o segundo semestre de 2024 a publicação de decretos que podem liberar R$ 24,6 bilhões em benefícios fiscais para empresas do setor, incluindo consumidores. Como a Folha de S. Paulo mostrou, os textos, que seriam publicados em novembro do ano passado, ficaram mais tempo no Ministério de Minas e Energia do que o planejado e hoje estão na Fazenda, sem previsão de quando serão publicados.
Durante a inauguração da planta nesta quarta, Gilney Bastos, da White Martins, cobrou a publicação dos critérios definidos pelo governo para classificar o hidrogênio como verde. A lei sancionada em 2024 determinou que o combustível deve ser produzido por eletrólise da água com uso de fontes renováveis, mas ainda faltam especificações detalhadas.
O hidrogênio produzido pela White Martins está em fase de certificação com a alemã TÜV Rheinland, que também certificou um projeto-piloto da empresa em Pernambuco. Se o decreto a ser publicado pelo governo federal trouxer critérios diferentes dos adotados pela certificadora, a empresa pode perder o direito de classificar o produto como verde.

