LEONARDO SANCHEZ


SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Numa das cenas de “O Agente Secreto”, o personagem de Wagner Moura se abstém de dizer o que realmente pensa ao delegado corrupto que o ronda com promessas de proteção e amizade. Convidado por ele a conhecer um judeu alemão, perseguido na Segunda Guerra, o protagonista fica praticamente calado, desconfortável, observando a assimetria de poder que separa os dois.
Uma atitude impensável para o Wagner Moura da vida real. Primeiro brasileiro indicado ao Oscar de melhor ator, o baiano virou figura notória da cena artística nacional por uma miríade de papéis emblemáticos, claro, mas também por dizer o que pensa, se posicionando sem medo de arranhar sua imagem, com frequência mirando a direita.
Tamanha espontaneidade, incomum para uma classe artística treinada por estúdios e agentes que orientam seus passos e suas falas, caiu no gosto dos gringos, que o alçaram a um dos três favoritos na disputa deste domingo, à frente de Leonardo DiCaprio e Ethan Hawke, e em pé de igualdade com Timothée Chalamet e Michael B. Jordan.
Numa Hollywood feita de aparências, o molho do baiano —mistura de carisma, autenticidade e talento— o ajudou a se firmar como o grande rosto brasileiro do cinema mundial. Um papel que Moura, aos 49 anos, já reivindicava, mas que ganha lastro com a aderência de imprensa, crítica e público estrangeiros.
Primeiro foram os elogios no Festival de Cannes, na França, no ano passado, quando ele trouxe o prêmio inédito de atuação masculina ao Brasil. Mais recentemente, foram entrevistas a jornais como o The New York Times, com críticas ferozes a Jair Bolsonaro e Donald Trump, e a talk shows como o de Jimmy Kimmel, em que os comentários ganharam ares de pirraça.
“Wagner é o carisma em pessoa, baiano na essência, macho ‘pacas’, mas malemolente, molinho, dono de feromônios extraordinários”, diz Fernanda Torres, que dividiu a cena com ele em “Saneamento Básico, o Filme”, de 2007. Moura trilha caminho parecido com o dela, que no ano passado esteve indicada ao Oscar de atriz, por “Ainda Estou Aqui”.
“Ele é uma mistura curiosa de pavio curto com muito amor para dar, um vira-lata puro, um galã caramelo, um Marlon Brando do Pelourinho. O Wagner é muito sério e também muito humorado, não foge de briga, mas não se empenha em entrar nelas”, continua a atriz, que lembra os anos de “vira-latice” nos palcos da Bahia, ao lado de Lázaro Ramos e Vladimir Brichta, como essenciais na formação do amigo.
Soteropolitano, Moura deu início à carreira no teatro amador, enquanto cursava jornalismo na Universidade Federal da Bahia, na virada dos anos 1980 para os 1990. Formado, atuou brevemente como assessor de imprensa na área cultural, até chamar a atenção com “A Máquina”.
A montagem de João Falcão, em que contracenou com Ramos, Brichta e Gustavo Falcão, expôs a renovação da cena teatral baiana que estava em curso. Não à toa, seus nomes chegaram ao eixo Rio-São Paulo, que concentra a produção de TV e cinema.
“Eu dei uma sorte grande na minha vida e na minha carreira, não só por ser contemporâneo de Wagner, mas por ter trabalhado com ele e com Lazinho”, diz Brichta.
O ano de 2026 é de festa também por marcar três décadas da primeira parceria de Brichta e Moura, na peça “A Casa de Eros”, dirigida por José Possi Neto. “Havia um desejo de superação de si mesmo e do que o outro estava fazendo. Havia um estímulo de fazer melhor”, diz Brichta, sobre o fato de que eles revezavam os mesmos papéis.
“Daí se formou uma grande amizade, hoje uma irmandade. Fazemos trabalhos pensando que um de nós [Brichta, Moura e Ramos] vai ser o primeiro público. Um faz do outro um ator melhor.”
O apego às raízes, três décadas depois, se faz presente também na casa onde Wagner Moura vive, em Los Angeles, para onde se mudou com a mulher, Sandra Delgado, e os três filhos há quase dez anos, quando a carreira internacional começou a deslanchar. É “uma casa brasileira com certeza”, diz Torres.
Como muitas coisas na vida de Moura, a mudança teve motivação artística e política. Mais ou menos na mesma época, ele preparava sua estreia na direção, em “Marighella”, biografia do guerrilheiro comunista morto pela ditadura.
Por causa do clima de polarização que sequestrava o país, ele e outros nomes envolvidos no projeto passaram a receber ameaças de grupos de extrema direita. Seguranças foram contratados e outros obstáculos se impuseram na distribuição —Moura disse a este jornal, quando enfim lançou o trabalho, há cinco anos, ter sofrido censura da Agência Nacional do Cinema, a Ancine, sob Jair Bolsonaro.
Segundo Humberto Carrão, que integrou o elenco de “Marighella” ao lado de Seu Jorge e Bruno Gagliasso, Moura, na direção, é concentrado e curioso, observa tudo com inteligência e esmero e se dedica profundamente à função.
“Ele é dessas pessoas que transformam o lugar, e eu acho que isso tem a ver com uma energia vigorosa e com uma simplicidade muito natural”, diz Carrão, sobre o amigo, que em meio aos silêncios do set encontra momentos de “safadeza cheia de graça”. Juntos, eles apareceram em rodas de samba num vídeo no Instagram que ganhou as redes há dois anos.
Flagrado cantando e tocando pandeiro, Moura era a estrela de um registro raro, quase voyeurista. Um olhar para a intimidade de um ator que não tem perfis nas redes sociais e que faz questão de separar o público do privado.
É como se vivesse duas vidas, como as de Armando e Marcelo —nome real e identidade secreta, respectivamente, do protagonista de “O Agente Secreto”. E não é exatamente justo dizer que o personagem é isento. A troca de nomes é justamente motivada pela fúria de Armando, que briga com um empresário poderoso e por isso passa a ser Marcelo, um fugitivo jurado de morte.
Na vida real, o lado público de Moura encontrou tempo, no fim do ano, para se posicionar contra os rumos da regulamentação do streaming, projeto de lei que se demora no Congresso e que pretende impor regras e tributos a plataformas como a Netflix, coprodutora do filme de Kleber Mendonça Filho.
“São projetos muito ruins, não só para o setor audiovisual brasileiro da cultura, como, de um modo geral, ruim para o Brasil, para a autoestima, para a autonomia do país”, disse ele ao Ministério da Cultura, no vídeo que gravou.
Moura tampouco se preocupou com as repercussões de sua fala ao dizer a este repórter, no fim do ano passado, que a democracia brasileira está tirando onda com a americana —em referência à condenação de Bolsonaro pela trama golpista— e que os deputados bolsonaristas que pediam a Donald Trump que deportasse o baiano tinham pensamento de “vira-lata, muito colonizado”.
Na ocasião, ele lançava a peça “Um Julgamento”, seu retorno aos palcos depois de 16 anos, sob a direção de Christiane Jatahy. Foi um malabarismo em sua agenda em meio aos primeiros passos na corrida pelo Oscar. Na releitura de Henrik Ibsen, que Moura ajudou a escrever, ele decidiu misturar opiniões suas às do protagonista de “Um Inimigo do Povo”, tecendo comentários sobre fake news e a ascensão da extrema direita no mundo.
Durante o processo, Jatahy conta que Moura deixou interferências externas para fora da coxia —mesmo que o mundo já começasse a assediar o ator com expectativas para o Oscar. Ela conta que dirigir Moura foi fácil justamente porque ele se dedica integralmente ao trabalho da vez. “Cada dia de ensaio era como um dia de estreia, eu nunca vi isso. Isso puxa o processo e puxa todo mundo para uma dinâmica forte, criativa”, diz ela.
Quem faz coro é Karim Aïnouz, que o dirigiu no drama gay “Praia do Futuro”. Para o cearense, Moura é um ator “absolutamente presente”, que “domina os personagens emocionalmente e fisicamente” e que não os julga. “Tem uma magia na presença dele, eu acho que é isso que o torna um ator tão gigante. Ele traz para a tela esse coração pulsante”, diz, sobre o que seriam marcas de sua maturidade enquanto artista.
O retorno a Salvador para apresentar “Um Julgamento” foi uma oportunidade para tomar um banho de Brasil em meio a trabalhos no exterior. Desde que fez sua estreia lá fora com o blockbuster “Elysium”, de 2013, Moura acumulou papéis sob a batuta de diretores de peso. Entre eles, Stephen Daldry, no quase brasileiro “Trash: A Esperança Vem do Lixo”; Olivier Assayas, em “Wasp Network: Rede de Espiões”; os irmãos Anthony Russo e Joe Russo, em “Agente Oculto”, e Alex Garland, no recente “Guerra Civil”.
Para os estrangeiros, porém, o primeiro papel que vem à mente é —ou ao menos era, agora que “O Agente Secreto” reorganizou a carreira de Moura— Pablo Escobar, na série “Narcos”, pela qual foi indicado ao Globo de Ouro, bem antes de vencer o prêmio neste ano, pelo filme nacional. Para a trama, o baiano passou meses morando na Colômbia e ganhou peso, num processo de preparação intenso, mas não estranho a José Padilha.
“O Wagner é o ator com quem trabalhei que mais investe na preparação”, diz o diretor de alguns episódios, que já tinha trabalhado com Moura em “Tropa de Elite”. “Em ‘Narcos’ eu o escalei dizendo que ele falava espanhol, quando não falava. Ele foi para a Colômbia e morou lá por três meses.”
Vencedor do Urso de Ouro em Berlim, “Tropa de Elite” também ajudou a posicionar Moura no rol de talentos do cinema mundial.
Capitão Nascimento foi um fenômeno pop, que ainda hoje gera discussões sobre sua truculência. Mas antes dele vieram Matheus, de “Abril Despedaçado”; Zico, de “Carandiru”; Naldinho, de “Cidade Baixa”; Boca, de “Ó Paí, Ó”, e Olavo, da novela “Paraíso Tropical”.
O antagonista é responsável por uma das cenas mais memoráveis da carreira de Moura, que voltou a viralizar em anos recentes. “Você é a cachorra mais burra desse calçadão”, diz ele a Bebel, vivida por Camila Pitanga, numa fala ressignificada por fãs dos dias atuais, que se derretem pela pose de galã que Moura foi ganhar depois de mais velho.
Com Oscar ou sem Oscar, o futuro de Moura deve seguir dividido entre a pátria-mãe e Hollywood, agora com papéis de maior destaque. “É um prêmio importante e dá muita visibilidade. Uma consequência direta da indicação é que o Wagner terá mais valor como ator, e os produtores vão chamar para seus filmes porque ter ele no filme faz o filme acontecer”, diz Padilha.
Independentemente do Oscar, Moura já está envolvido em meia dúzia de projetos estrangeiros, incluindo “Last Night at the Lobster”, seu segundo longa como diretor. Em desenvolvimento, o filme vai disputar a atenção com os vários roteiros que, segundo ele, se avolumam desde que o mundo provou o tempero baiano de “O Agente Secreto”.